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Nara Leão E-mail
Escrito por Rafael Capanema   

Musa de opinião

Mais do que musa da bossa-nova, Nara emprestou seu incomparável talento ao samba de morro, à música de protesto, ao Tropicalismo e ao que mais viesse pela frente. Sem preconceito, reverenciou o novo, o antigo e a vanguarda. Revelou compositores promissores, resgatou os esquecidos e bateu de frente com o regime militar. Tudo isso sem perder a ternura.


Ela nasceu em Vitória, a 19 de janeiro de 1942. Mas não teve tempo de ser capixaba: no primeiro ano de vida, mudou-se com a família para o Rio. Foi uma criança tímida e depressiva. Começou a fazer psicanálise aos 5 anos. Tinha na irmã mais velha, a linda e famosa modelo Danuza, seu exato contraponto. Ganhou dela apelidos como Caramujo e Jacarezinho do Pântano.

Na música, Nara encontrava prazer e alento. No início dos anos 1950, Roberto Menescal sempre a avistava em Copacabana, onde moravam. Um dia tomou coragem e convidou-a para uma festa em sua casa. Os dois logo descobriram afinidades musicais: odiavam os sucessos do rádio e idolatravam os mesmos cantores. O namorico durou dois anos.

No seu enorme apartamento da avenida Atlântica onde se deram os famosos encontros da bossa-nova, os quartos eram tão distantes que podia-se tocar até altas da noite sem perturbar o sono dos pais de Nara. Foi em uma dessas ocasiões que Ronaldo Bôscoli apaixonou-se pela então adolescente, e os dois começaram a namorar. Se ela ainda não era a musa da bossa-nova, serviu de inspiração para uma série de clássicos compostos pelo namorado: Lobo Bobo; Se É Tarde, me Perdoa; O Barquinho; Vagamente.


Coração de leão
A partir de 1958, quando a bossa-nova ganhou o Brasil e o mundo, a turma começou a se profissionalizar, à exceção de Nara. Ouvir seu canto doce era privilégio apenas dos mais íntimos. E, antes mesmo de gravar o primeiro LP, ela rompeu com a bossa-nova.

Depois de uma decepção amorosa com Bôscoli, uniu forças com Carlos Lyra, outro dissidente do movimento. Estreou nos palcos em 1963 com a comédia musical Pobre Menina Rica, de Lyra e Vinicius de Moraes. No ano seguinte, lançou seus dois primeiros LPs, os fundamentais Nara e Opinião de Nara. Nesse período, ela e Lyra foram ao encontro dos sambistas do morro.

No lendário espetáculo Opinião, a pobre menina rica da zona sul se apresentava de camisa de flanela listrada e jeans, entoando versos ásperos como estes, de Zé Kéti: Podem me prender, podem me bater / Podem até deixar-me sem comer / Que eu não mudo de opinião.

Nara queria ser uma cantora "do povo", do "samba puro". Em entrevista à revista Fatos & Fotos, disparou: "Chega de bossa-nova. Chega de cantar para dois ou três intelectuais uma musiquinha de apartamento". Numa entrevista histórica ao Diário de Notícias, em 1966, soltou a língua contra a ditadura: "Os militares podem entender de canhão ou de metralhadora, mas não pescam nada de política".

Defendeu a devolução do País aos civis e a extinção do Exército. Por pouco não foi enquadrada pelo presidente Costa e Silva na Lei de Segurança Nacional. "Sou a mulher mais corajosa que conheço. Na intimidade, podem me chamar de Nara Coração de Leão", afirmou.


Novo, antigo e vanguarda
Se a recepção de Opinião já fora espetacular, Nara experimentaria um sucesso ainda maior em 1966, quando defendeu A Banda, do novato Chico Buarque, no Festival da Música Popular Brasileira da TV Record. O compacto vendeu feito água e Chico entrou de vez para o panteão da MPB. Incansável, Nara juntou-se ainda à turma do Tropicalismo, com a gravação de Lindonéia, no disco Tropicália ou Panis et Circensis (1968).

"O fato de apoiar todos os movimentos, desde que fossem bons, fez com que eu reunisse o maior repertório do Brasil. As pessoas podem ter discutido se eu canto ou não canto, se gostam ou não gostam, mas têm que admitir que a minha falta de preconceito em relação aos movimentos fez com que eu gravasse coisas antigas, novas e de vanguarda."

Assim como tantos intelectuais e artistas, partiu para o exílio depois do AI-5, em 1968. Com o marido Cacá Diegues, mudou-se para Paris, onde nasceram os filhos Isabel e Francisco. De volta ao Brasil três anos depois, diminuiu o ritmo da carreira, mas seguiu lançando grandes discos e envolvendo-se em projetos como o filme Quando o Carnaval Chegar (1972), de Diegues, e o musical infantil Saltimbancos (1977).

Em 1979, enquanto tomava banho, sentiu uma forte tontura. Escorregou e foi internada. Estava com um tumor maligno no cérebro. Conviveu uma década com a doença, que a fazia perder a concentração no meio de shows e a obrigou a trancar a matrícula de Psicologia na PUC. No Japão, em 1986, foi a primeira artista brasileira a gravar um disco (Garota de Ipanema) no formato CD, que acabara de surgir. Com a saúde progressivamente debilitada, foi internada e veio a falecer um mês depois, em 7 de junho de 1989. Cercada dos amigos que testemunharam sua doce e contundente passagem pelo mundo.


SAIBA MAIS
Nara Leão - uma biografia, de Sérgio Cabral (Lumiar, 2001).

 

 

 

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