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Elizeth Cardoso E-mail
Escrito por Angela Pinho   

A divina

Primeira cantora da Bossa Nova. Combinava elegância, perfeição técnica e emoção.  Não tinha rivais, mas dizia: "Quero apenas ser uma cantora brasileira."


Ao ouvir o samba que cantava aquela garota, Jacob do Bandolim, nos seus 18 anos, perguntou ao pai dela: "Cavalheiro, sua filha não quer cantar no rádio?" O homem de 1m90 fechou a cara, abriu o paletó, mostrou duas pistolas e respondeu: "Eu permito, mas o senhor fica responsável pelo que acontecer."

Revelava-se ali, aos 16 anos, uma das maiores vozes da música brasileira, que Edith Piaf e Quincy Jones aclamaram e virou até nome de pub no Japão. Foi chamada de Lady do Samba, Machado de Assis da Seresta, Mulata Maior, Enluarada, Magnífica e, definitivamente, A Divina.

Filha de mulato tocador de violão e mãe cantadora, Elizeth nasceu vizinha ao Morro da Mangueira, em 1920. Aos 5 anos, estreia num rancho carnavalesco. Tinha uma pequena trupe com outras crianças e saía no carnaval com a mãe, a prima e as tias. Aos 10 anos, deixa a escola para trabalhar.

Babá, balconista, telefonista, funcionária de fábrica de sabão, cabeleireira. E, mesmo cantando no rádio, o dinheiro era pouco. Elizeth vai para a Praça Tiradentes, reduto de artistas. Fica amiga de Grande Otelo, que faria com ela o quadro Boneca de Piche em circos, clubes e cinemas.

Vira passista, dançarina de gafieira, cantora da noite. Em 1950, grava Canção de Amor, de Chocolate e Elano de Paula. O sucesso a leva à televisão e ao cinema e ela encanta Vinicius de Moraes: "Eu me pus a ouvi-la furiosamente [...]. A música me fazia sofrer, me colocava num espaço diferente do mundo, me abraçava como uma mulher".


Uma diva popular

"Rua Nascimento Silva 107 / Você ensinando pra Elizeth / As canções de Canção do Amor Demais". Os versos de Vinicius referem-se ao disco gravado pela cantora em 1958 que traz as primeiras canções da Bossa Nova: Outra Vez e Chega de Saudade. Em texto na capa do lp, Vinicius explica a escolha de Elizeth para cantar suas composições com Tom Jobim:

"Timbre popular brasileiro, mas podendo respirar acima do puramente popular [...] e, principalmente uma voz experiente, com a pungência dos que amaram e sofreram..."

A voz chama a atenção do maestro Diogo Pacheco. Em 1964, ele lhe pede para interpretar as Bachianas Nº 5, de Villa-Lobos. Ela se assusta, tenta recusar. O impossível acontece: uma cantora popular brilha no Teatro Municipal de São Paulo e no do Rio. Na estreia, aplaudida por 15 minutos, chora.


Êxtase para sempre
Em 1965, é lançado no Rio o espetáculo Rosa de Ouro, com bambas como Paulinho da Viola, Élton Medeiros e Nelson Sargento. Elizeth pede para gravar com eles. Nasce a obra-prima "Elizeth Sobe o Morro".

No mesmo ano, apresenta na Record Bossaudade, para espectadores algo mais velhos que os de O Fino da Bossa, de Elis Regina e Jair Rodrigues. Três anos mais tarde, sobe no palco do Teatro João Caetano, Rio, com o Zimbo Trio e o Conjunto Época de Ouro, de Jacob do Bandolim.

A apresentação para salvar o Museu da Imagem e do Som carioca da crise financeira entra para a História. O repertório, o talento dos músicos, a voz de Elizeth e sua perfeita harmonia com os instrumentos deixam o público em êxtase. A plateia emociona-se, aplaude, pede bis. No palco, os músicos gritam: "Bonito!", "Bravo!", "Lindo!"

Pouco mais de metade de sua carreira se passou. Elizeth ainda samba, faz shows, canta no rádio, na tevê e no cinema. Grava o precioso Uma Rosa para Pixinguinha, entre outros discos.

Morre em 7 de maio de 1990, mas nunca sai de época. Por razões que nem Chico Buarque ousa explicar: "Corre a noite, nasce o dia, e a gente nem percebe que ela cantou a mesma canção cem vezes renovada, mil vezes bordada com um carinho artesanal que a civilização, misteriosamente, nunca se fartou de consumir."


SAIBA MAIS
Faxineira das Canções, caixa com cinco cds.

 

 

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