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Hermínio Bello de Carvalho E-mail
Escrito por redação   

O súdito primeiro da Rainha Ginga.

Foi em 19 de julho de 1987 que Clementina nos deixou. Mais de duas décadas. E se há algum responsável por ela ter brilhado entre nós é Hermínio. Era um dia de homenagem a Nossa Senhora da Glória. Na igreja do outeiro da Glória, no Rio, ofereciam-se preces. Aos pés do morro, na Taberna da Glória, Clementina prestava também seu tributo. Cantando. “Me vi diante de algo insólito, único.” O encontro marcaria a música brasileira. Mas não foi só esse o feito de Hermínio, como pode-se reparar nas linhas que seguem. “Sou um operário da palavra.”


Qual a contribuição de Clementina de Jesus?
Vou repetir o que escreveu Ari Vasconcelos: a descoberta de Clementina teve uma importância que corresponderia, na Antropologia, à do achado de um elo perdido. Francisco Mignone proclamou que se iguala equacionalmente a Machado de Assis, Villa-Lobos, Nelson Rodrigues. Nelson que, aliás, perpetuou uma de suas frases definitivas sobre ela: "A alma encantadora das esquinas e dos botecos prostra-se diante de Clementina de Jesus, que todas as manhãs acorda mais brasileira (mais brasileira de 15 em 15 minutos)." Nada mais a acrescentar.

Muitos músicos se dizem influenciados por Quelé. Quem, na sua opinião, traz isso com mais força?
João Bosco, em primeiro lugar. Mas acho que sua influência respingou também em Milton Nascimento, que a idolatrava. Quanto ao repertório que Clementina revelou, tanto sobrou para Clara Nunes como para Marisa Monte. Os inúmeros compositores que a exaltaram (Aldir Blanc, Nei Lopes, Mauricio Tapajós, tanta gente!) provam que ela não passou incólume pela nossa música.

Qual foi sua sensação ao vê-la pela primeira vez?
Já contei isso dezenas, centenas de vezes em entrevistas e depoimentos. E, ao me fazer agora essa mesma pergunta, voltam meus olhos esbugalhados à Taberna da Glória, onde me vi diante de algo insólito, único, que jamais havia presenciado em toda a minha vida. Acho que cabe aos poetas esse sortilégio: ao Mário de Andrade coube descobrir o embolador Chico Antônio; ao García Lorca, a estupenda La Niña de los Peines. Este pequeno poeta brasileiro pode jactar-se de ter colocado sentidos mais atentos à portentosa Rainha Ginga, e disso muito me orgulho.

Há outras Clementinas escondidas por aí? Qual a sua característica que se multiplica pelo Brasil?
Presumo que sim, talvez não com a mesma genialidade. O que me causa uma quase indignação é que tenha passado despercebida tantos anos. Imagina a voz de Quelé aos 20, 30 anos… Ela que, aos 60, exibia uma pujança inigualável; que aos 80, mesmo com todas as vicissitudes sofridas - derrame, doenças diversas, a perda de Albino Pé Grande, seu marido e incentivador - ainda mantinha aquele timbre inigualável, mas exibindo as estrias de um velho e centenário Baobá que o tempo castigou.

Como surgiu a ideia do espetáculo Rosa de Ouro, que a tornou famosa?
A raiz do Rosa de Ouro foi a série de concertos Menestrel, na qual juntei música popular e erudita num mesmo programa, sem contudo misturá-las: Turibio Santos e Clementina; Aracy Cortes e Jodacil Damaceno com participação de Jacob do Bandolim; Aracy de Almeida com Turibio; Oscar Cáceres com o modinheiro Paulo Tapajós. E aí nasceu o Rosa de Ouro, com Quelé, Aracy Cortes, Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Nelson Sargento, Anescarzinho do Salgueiro, Jair do Cavaquinho - logo celebrizados pelo disco que saiu e, também, por terem sido a matéria-prima do LP Elizete Sobe o Morro.

Aracy Cortes, de quem se fala pouco hoje, andava meio esquecida nessa época, não?
Aracy, que era o diabo em figura de gente, me foi trazida pelo querido e saudoso Jota Efegê. Almoçamos no Zicartola, onde, num dado momento, ela simplesmente me perguntou se eu gostaria de apanhar ali mesmo no restaurante ou se desceríamos para eu levar umas bolsadas… Era a cantora mais musical que Jacob do Bandolim diz ter conhecido. Com o tempo, e os aplausos, foi temperando seu comportamento, até porque Clementina, que foi ameaçada por ela num de seus momentos de fúria, levantou a mão pra ela e disse a frase célebre: “Eu sou mulher de homem”; ou seja, era casada, tinha quem a defendesse. Aracy foi de uma importância vital para o Teatro de Revista, ela sucedendo Margarida Marx, depois deitando as raízes que se despejariam em Dalva de Oliveira, Ângela Maria e - numa outra escala - Elis Regina.

Cartola também esteve entre seus amigos/parceiros. Certa vez você se referiu à história dele, chamando-o de Fênix. Por quê?
Nas décadas de 1920 e 1930, ele saiu da obscuridade para brilhar nos repertórios de Aracy de Almeida, Chico Alves e outras celebridades. Depois, foi jogado na escuridão. Com esforços do Lan e do Sérgio Porto - e eu entro nessa história por conta do Sérgio - veio novamente à tona. Logo veio o Zicartola, que forneceu a ele apenas dois anos de brilho. Mergulhou novamente na obscuridade e, feito Fênix, renasceu das cinzas de novo com As Rosas não Falam, O Mundo É um Moinho, Acontece e outros clássicos. E aí vem a consagração, porém roída por um câncer que o tirou de cena. Há pouco tempo, no musical Obrigado, Cartola!, sua bela história foi contada para as novas gerações. E aí uma pendenga judicial e financeira tira a peça de cartaz… Em 2008 comemoramos seu centenário. Fênix volta e meia vai seguindo as tramas da lenda.

Ele comemorou o último aniversário em sua casa. Como foi?

O apartamento foi todo decorado em verde-e-rosa pela Lucinha, minha secretária há 30 anos. Mello Menezes ilustrou um poema de Cartola, que distribuí, impresso, entre os presentes - todos docemente proibidos de cantar qualquer música que não fosse do homenageado. De Elizeth a Beth Carvalho; de Paulinho da Viola a Neuma da Mangueira - ninguém faltou. Lembro que uma hora ele me chamou para um canto e disse: “Padrinho, foi o meu último aniversário”. Ele e Zica foram meus afilhados de casamento. Era um parceiro fantástico e generoso.

Que força - ou vocação - é essa que faz a música brasileira ter tamanha riqueza, mesmo diante das dificuldades que tantos artistas geniais sofreram?
Digo sempre que temos que nos espelhar na Europa, cuja música popular foi se descaracterizando paulatinamente - enquanto, no Brasil, houve uma revolução geral que resultou na renovação do quadro de compositores que surgiram depois da era de Ary Barroso, Lamartine Babo, Noel Rosa e Custódio Mesquita. A partir de Tom Jobim, um marco, surgiram mais de 30 ou 40 compositores importantíssimos - e isso se deve, sobretudo, a um elemento quase mágico (odeio vulgarizar ainda mais essa palavra), que só se explica num país de muitas geografias musicais, com uma profusão de ritmos e gêneros, de sotaques diferenciados que resistem à globalização imposta pelos supermercados industriais da cultura pasteurizada. Um deus chamado Mário de Andrade, que tem Pixinguinha como personagem de Macunaíma, explicaria melhor esse fenômeno.

É incrível a quantidade de material que os americanos conservam de seus artistas. O que nos faz tão diferentes?
A isso chamamos crime de lesa-cultura, quando não fazemos chegar à juventude o espólio que nos foi legado por dezenas, centenas de criadores importantes. Eu sempre cito a Escola Portátil de Música, que não trata a memória como velharia, mas como força dinâmica a alavancar toda uma geração desinformada pelos meios de comunicação - com as exceções de praxe. Sofro isso, pessoalmente, com as centenas de programas que deixei na TVE, e que me servem de matéria-prima para as oficinas que faço País afora sobre música brasileira. O material, agora, está sendo recuperado. Me mostraram no YouTube, outro dia, meu primeiro programa, gravado em 1976, o Água Viva, com a grande Isaurinha Garcia… É coisa de colecionador, essa raça bendita que não deixa esse material cair na obscuridade. E o que nos faz diferentes é, exatamente, essa falta de informação. Poderíamos ainda ser culturalmente mais ricos se os dirigentes culturais entendessem que esses acervos devem sofrer um processo de democratização, devem ficar disponíveis para a estudantada - que é, por natureza, atenta a esse tipo de informação.

Às vezes são os herdeiros que contribuem para que esse acervo se perca, ou não tenha a divulgação que merece. Um caso é o de Clementina (você já declarou ter desistido de fazer qualquer coisa com a obra dela). Há outros exemplos, não?

Sim. E, infelizmente, os maus exemplos proliferam. O Flávio Marinho teve que reescrever o Cauby, Cauby porque exigiram que retirasse o personagem da Dalva de Oliveira da trama. Durante 10 anos, não pude abordar os discos que produzi para Elizeth. O caso de Clementina é mais dramático. E falar dele me faz pensar numa das causas do meu infarto há cinco anos. Os herdeiros surgem como pragas, às vezes interferindo na história de pessoas com quem nem chegaram a conviver.

Como você vê a política pública brasileira na área cultural?
Confusa, num país que, como declarei no Roda Viva, é muito “complicadinho”. Volta e meia eu sou convidado - e, em seguida, gentilmente desconvidado - para fazer parte dessa política cultural cujas entranhas conheço bem. Na década de 1950, estava na Rádio MEC; na de 1970, fui defenestrado pelos militares. Fui para a Funarte, onde acho que desenvolvemos um bom trabalho. Fizemos os projetos Pixinguinha, Lúcio Rangel de Monografias, Almirante de Edição de Livros, Radamés Gnattali. Na TVE, gravei algumas centenas de programas, até ser colocado em disponibilidade pelo governo Collor. Agora fui convidado para ser curador do Projeto Pixinguinha, mas o pessoal da Cultura entrou em greve - justa, por sinal. Ainda não estou com ouvidos cegos nem olhos surdos, apesar dos meus 72 anos.

Outras questões para além da cultura te tomam também a atenção. A ecologia é uma delas, não? Você se considera um otimista ou um pessimista em relação ao tema?
Antes de ontem o meu querido Zé Luiz do Manguezal, da Colônia Z-10 de Pescadores, me telefonou dizendo que o Jequiá foi todo recuperado. Sou pessimista quando vejo que não existe um programa de esclarecimento sobre o desperdício da água, por exemplo. Mas sou otimista quando vejo os canteiros de minha rua, antes verdadeiros vasos sanitários a céu aberto, florescendo graças a uma iniciativa pessoal que tomei junto aos moradores da rua. Se cada um tratasse dos seus próprios canteiros e plantasse uma mínima árvore, já estaria de bom tamanho. Me recuso a ser totalmente pessimista.

Como você definiria sua contribuição para a música brasileira?
Sou apenas um operário da palavra em tempo integral. Para dar esta entrevista, tive que acordar às três e meia da manhã. Daqui a pouco vou para o Conselho de Cultura, ontem trabalhei o dia inteiro com Zezé Gonzaga. Amanhã Oscar Cáceres chega de Paris e lançamos um novo livro sobre Turibio Santos, uma fotobiografia que compartilhei com ele. Tenho meus parceiros novos, ex-alunos da Escola Portátil, que é meu xodó. Acredito nessa juventude, reparto com ela meus sonhos. Detesto ser chamado de “professor”. O máximo que me permito é “orientador”. Mas descobri que era mais um “desorientador”, um anarquista. Gosto disso. Sou um trabalhador obsessivo. Sou o tal workaholic, mas que não deixa de cultivar suas rodas de amigos - porque amigo é feito casa, como já esclareci num verso meu.

Qual a próxima briga sua de que teremos notícia?

Não durmo sem pensar na briga do dia seguinte. Deus me livre! E sou, aliás, bastante municiado pelos medíocres que atuam no mercado…

O que faltou perguntar que você gostaria de responder?

Sobre meu epitáfio: Não vim ao mundo para fazer gracinhas! Vim a trabalho. Poderia também plagiar minha querida Eneida, que ditou sua lápide: Essa mulher nunca topou chantagem.


SAIBA MAIS
Timoneiro, caixa com cinco CDs com canções de Hermínio, lançada em comemoração a seus 70 anos.
Timoneiro - Perfil biográfico de Hermínio Bello de Carvalho, de Alexandre Pavan (Casa da Palavra, 2007).
 

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