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109 - Maio de 2008



Por Joel Rufino dos Santos

O olhar de Ana

Ana Cristina César, a poeta de A Teus Pés, certa vez foi a Roma com o pai (Valdo César, também escritor). Esta é dela: As mulheres e as crianças são as primeiras que desistem de afundar navios. (Cartilha da Cura) Valdo e Ana Cristina subiram ao Monte Aventino, como todo turista. Súbito, Ana se desgarrou do grupo, sumiu de vista. Procura daqui, dali, Valdo se afl igiu. Com meia hora, foi achála espiando, pelo buraquinho de um muro, as ruínas lá embaixo. O que olhava Ana? Por que preferiu aquele buraquinho, se do belvedere, acotovelada com japoneses fotografadores, podia ter uma visão panorâmica de tudo (o começo da Via Apia, a tumba de Nero, o Coliseu, a prisão de São Pedro) como os demais turistas? É que com a perspectiva larga, Ana só veria a História, teria lembranças de aulas e manuais. Olhando pelo orifício do muro, o olhar inventaria histórias: pessoas, criaturas. “Bichos da terra tão pequenos”, como escreveu Camões.

Está começando na casa do pretor (e sumo pontífi ce) Júlio César a festa da Bona Dea, uma das deusas da fecundidade. Culto exclusivamente feminino, homem não entra nem assiste. Mistérios. Preside Pompéia, esposa de César, ambos de família tradicionalíssima. Um malandro, P. Clódio, que se deitava com as próprias irmãs, queria, agora, conquistar Pompéia.

O que fez? Vestido de mulher, um longo branco, debruado de seda carmim, coque à macedônia, se infi ltrou na cerimônia. Uma criada, Laurissela, que a mulher de César trouxera da Farsália, desconfi ou, deu alarma. De nada adiantou Clódio lhe enfi ar na mão moedas de ouro. Pompéia ignorava o plano do sedutor? Já passara algo entre eles? Foram imediatamente suspensos os ritos, Clódio expulso. Dia seguinte, foi só o que se falou nos mercados, no recesso dos lares, nos banhos públicos, entre os pedreiros do grande teatro que se construía no sopé da Rocha Tarpéia, nas escadarias públicas e privadas (nenhuma cidade antiga teve mais escadarias que Roma, 18,5% das quais não conduzia a prédio algum). Até a um crucifi cado na estrada que sai para Óstia foram incomodar com a malícia: “Ei, estás ouvindo? Precisas saber da última...” César repudiou Pompéia, triste. Não quis testemunhar no processo, embriagado, ele tão infenso a libações. No vão central da pretoria, apertando os lábios fi nos, ditou estas palavras para o futuro: “Repudiei minha desejável Pompéia porque a mulher de um grande homem além de honesta tem de parecer honesta”. Do seu buraquinho no muro sobre o Aventino, a poeta Ana Cristina César sorri.

Joel Rufino dos Santos é escritor e historiador.

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