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Escrito por João Rocha   

Descubra o som das origens do samba.

Em 1982, o estúdio paulistano Eldorado gravou O Canto dos Escravos. Do Rio, trouxe Tia Doca (1932-2009), da Velha Guarda da Portela; e, em sua última gravação, Clementina de Jesus (1901-1987). Se juntaram a Geraldo Filme (1928-1995), de São Paulo. O LP ficou anos fora de catálogo. Agora é relançado em CD.

O repertório tem história. No fim da década de 1920, o pesquisador mineiro Aires da Matta Machado Filho depara com um tesouro em São João da Chapada, região de Diamantina. Ali se achava ouro no século 18. Aires encontrou "cantos de trabalho", ou vissungos.

No livro O Negro e o Garimpo em Minas Gerais (1943), Aires reuniu 65 partituras. Surpreendeu historiadores. Pensava-se que o único dialeto africano que se manteve no Brasil tinha sido o nagô, dos sudaneses de Ioruba, hoje Daomé, Togo e sudoeste da Nigéria. Vissungos eram cantados em banto (ou bantu) dos angolas, benguelas, congoleses. No Brasil, ganharam algumas palavras em português.

Geraldo Filme, Clementina e Tia Doca cantam 14 dos cantos recolhidos pelo pesquisador. Um trio de percussionistas os acompanha. Tocam enxadas, troncos, atabaques, agogôs, ganzás. Ecoam uma africanidade dolorida. "Ei lamba, quero me cabá no sumidô", diz o Canto 9ª. Em nota, Aires explica a letra: "O negro queixa-se do serviço duro (lamba) e pede a morte."

O CD traz encarte com texto do livro, letras com observações do pesquisador e perfis dos três intérpretes. Documento essencial para os amantes da música brasileira. E para os que buscam compreender os caminhos do samba, antes mesmo que fosse samba.
 

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