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O alemão que descobriu um Brasil desconhecido E-mail
Escrito por João Rocha   

Ataques de mosquitos, brigas, malária, febre amarela, afogamentos. Comandados pelo naturalista Georg Heinrich von Langsdorff, cientistas e pintores se embrenham por rios e matas na mais ousada expedição científica realizada no Brasil, em pleno início do século 19.

Rio de Janeiro, abril de 1813. Um dos mais respeitados naturalistas do mundo desembarca, nomeado Cônsul Geral de Todas as Rússias no Brasil. Desde que, numa volta ao mundo promovida pelo czar russo em 1803, o diplomata alemão Georg Heinrich von Langsdorff pisou em Santa Catarina, maravilhou-se com o clima, a gente, a riqueza das plantas e animais.

"É um País dos mais admiráveis. A lembrança de minha permanência ali ficará indelével por toda a vida."

Era médico, zoólogo, botânico, antropólogo, navegador. Tornou-se fazendeiro. Na Fazenda Mandioca, Rio, recebeu alguns dos mais conhecidos cientistas da época. Transformou-a em centro de pesquisa. Aplicava novos métodos de trabalho, realizava plantações experimentais, desenvolvia projetos.

Mas seu sonho não estava realizado. Queria conhecer os pormenores do País, documentar o que dezenas de naturalistas estrangeiros haviam deixado de lado.

Do Rio a Cuiabá
1820. O cônsul arquiteta a maior viagem de exploração científica realizada no Brasil.

Objeto de meticulosa preparação, a Expedição Langsdorff mobiliza consideráveis recursos humanos e financeiros. Pretendia cruzar Minas e São Paulo; chegar ao Rio Amazonas; alcançar a Venezuela; passar pelas Guianas e províncias da costa leste do Brasil; e empreender a viagem de volta pelo litoral.

A expedição começa em maio de 1924. No grupo, os cientistas Nester Rubstov, russo responsável pelas observações astronômicas e elaboração de mapas; o alemão Ludwig Riedel, botânico; o francês Edouard Ménétriès, zoólogo; e o pintor alemão Johann Moritz Rugendas, que, ainda em Minas, abandona a viagem. De volta ao Rio, Langsdorff o substitui pelos desenhistas franceses Aymé-Adrien Taunay e Hércules Florence.

Em setembro de 1825, começa a segunda parte da expedição. Vão de navio a Santos, passam por São Paulo, de onde seguem pelo Rio Tietê. Navegam pelo Paraná, Pardo, Taquari e Cuiabá. Param de povoado em povoado. Registram a vida das comunidades ribeirinhas, fazem mapas, observações, desenham plantas e animais.

Em janeiro de 1827, a expedição alcança Cuiabá. Langsdorff envia para o Rio 11 caixas com minerais, sementes de plantas, centenas de desenhos e inúmeras anotações astronômicas, geográficas e meteorológicas, além de mapas sobre as viagens em São Paulo e plantas da região de Cuiabá e Santos.

De cuiabá ao Amazonas
A partir de Cuiabá, os pesquisadores dividem-se. Um grupo, com Langsdorff, Rubstov e Florence, segue pelos rios Preto, Arinos e Tapajós, até alcançar o Amazonas. O outro, com Riedel e Taunay, parte pelos rios Guaporé, Mamoré e Madeira para aguardar o resto da expedição. O ponto de reencontro é Santarém, Pará.

Em dezembro, o segundo grupo chega a Vila Bela, onde pretende ficar quatro meses. Dias depois, segue para uma excursão à fronteira com a Bolívia. Na volta, início de 1928, perdem-se em meio a um temporal. Taunay reencontra o Guaporé. Na ânsia de cruzar o rio, o jovem desenhista não espera o barqueiro. Lança-se às águas barrentas e morre afogado.

A notícia chega a Langsdorff dia 14 de fevereiro. A essas alturas, seu grupo está prestes a enfrentar a parte mais dura da viagem.

Em março as chuvas tornam a navegação entre Mato Grosso e Amazônia particularmente difícil. Das quatro canoas que restam, uma se arrebenta num precipício, outra sofre vários danos e uma terceira, com três remadores, é arrastada pelo redemoinho de uma cachoeira. Febres tropicais atacam praticamente todos os viajantes. E não poupam Langsdorff.

Em uma das paradas, o naturalista apaga. Fica inconsciente por dias. Sua última anotação é de 20 de maio de 1828:

"Nossas provisões minguam a olhos vistos. Precisamos apressar nossa marcha."

A doença agrava-se. Um dia Langsdorff acorda sem saber onde está, nem como chegou ali. A última lembrança data de 1825, três anos antes, ainda no Porto de Santos.

Do Amazonas a Belém
13 de junho de 1928. Os pesquisadores chegam à entrada da província do Pará. Encontram uma escuna que os conduz até Santarém. Depois, Belém.

A grande expedição chega ao fim. Somente em janeiro do ano seguinte os sobreviventes partem para o Rio de Janeiro. A conselho médico, Langsdorff volta à Europa para tratar-se. Melhora fisicamente, mas nunca mais recuperou o vigor mental. Morre em 29 de junho de 1852, aos 78 anos.

Ninguém deu muita atenção a suas pesquisas no século 19. O arquivo manuscrito da expedição ficou esquecido por décadas no Jardim Botânico de São Petersburgo, Rússia. Somente em 1930, cem anos depois do fim da viagem, as 1.500 páginas de seus diários foram encontradas.

O herbário teve outro destino. Até hoje é referência para estudantes e cientistas. São mais de 100 mil espécies recolhidas durante os anos de expedição, 12 mil delas de variedades diferentes, cerca de 15% de toda a flora brasileira.


SAIBA MAIS...
No Caminho da Expedição Langsdorff, vídeo de Maurício Dias reproduzindo a viagem do naturalista (Grifa Cinematográfica, 2000).
Os Diários de Langsdorff, volumes 1, 2 e 3, organizado por Danúzio Gil Bernardino da Silva (Ed. Fiocruz, 1997).
A Expedição do Acadêmico G. I. Langsdorff ao Brasil, de G. G. Manizer (Ed. Nacional, 1967).
 

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