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Jaime Lerner E-mail
Escrito por João Rocha Rodrigues   

"Se não resolvermos as questões da cidade, não resolveremos o mundo."


Ele foi três vezes prefeito de Curitiba, duas vezes governador do Paraná. Como urbanista, desenvolveu projetos para várias cidades brasileiras e estrangeiras, em países como China, México e Coreia do Sul. Ainda que, de quando Jaime Lerner assumiu a prefeitura pela primeira vez para cá a população curitibana tenha triplicado, a cidade ainda é uma referência para o mundo. Possui a maior relação de área verde por habitante do País e um sistema público de transporte que flui, na contramão dos problemas enfrentados pelas demais capitais brasileiras. Para ele, que em 2010 foi nominado pela revista Time como um dos 25 pensadores mais influentes do planeta, não há cidade no mundo que não possa se transformar em um curto espaço de tempo. E para que isso aconteça, não é preciso Copa do Mundo ou Olimpíadas. “O evento mais importante que temos é o dia a dia. É esse evento que precisamos resolver.”


Há um certo consenso sobre a inviabilidade das grandes cidades. Elas estão mesmo fadadas ao caos?
Eu sempre discordei dessa visão pessimista e trágica em relação ao futuro das cidades, até porque ela tem sido usada como desculpa para não mudar nada. Eu tenho a convicção, depois de toda a minha carreira, que qualquer cidade pode melhorar sua qualidade de vida, começar um avanço considerável, em menos de três anos. E não há escala de cidade ou condição financeira que impeça isso. Essa visão fatalista das cidades compreende não acreditar no ser humano. Se um dia eu deixar de acreditar no ser humano, prefiro deixar de viver.

Por que, depois de tanto tempo em cargos públicos, você resolveu abandonar a política?

Larguei a política há oito anos porque queria me dedicar mais às coisas de que eu gosto, às coisas em que eu sinto que posso ajudar mais. Agora me dedico a fazer o que chamo de acupuntura urbana. O processo de planejamento da cidade toma tempo. Mas, às vezes, uma ação focada pode trazer uma nova energia para a cidade em um curto período, e isso ajuda o processo de planejamento. É o mesmo princípio da acupuntura: tem que ser rápido, senão a agulhada vai doer.

Nas cidades, essa pressa não pode traduzir-se em problemas?
Pelo contrário. Temos que ser rápidos para evitar a nossa própria burocracia. E também a nossa insegurança. É preciso começar. Inovar é começar. Traba- lhando com o que trabalhamos, temos que ter uma espécie de compromisso com a imperfeição. Você não pode ser uma pessoa tão prepotente, tão pretensiosa a ponto de considerar ter todas as respostas. Muitas coisas foram adiadas no mundo, ou simplesmente não aconteceram porque as pessoas não queriam correr risco algum.

Quais são os grandes problemas das cidades brasileiras?

Hoje em dia, todas as cidades do mundo têm problemas iguais. Mas há três desafios que serão fundamentais não só para a sua cidade, mas para toda a humanidade: mobilidade, sustentabilidade e tolerância à sociodiversidade. Em relação à mobilidade, todos estão angustiados porque não conseguem circular, cada vez há mais carros. Há soluções. Numa cidade como São Paulo, que está fazendo a quarta linha de metrô, 84% da população se desloca na superfície. Então, para o metrô funcionar bem, a superfície precisa ser bem operada.

Para que as cidades funcionem os carros têm que ceder espaço?

Sem dúvida. Mas eles vão continuar a ter o seu lugar: nas estradas, para o lazer... O fundamental é que o itinerário de rotina seja resolvido de outra maneira. As cidades vão ter que prover sistemas de transporte público melhores. E não adianta acreditar neste falso dilema: ou metrô ou automóvel. Nem uma coisa, nem outra. É tudo.

O metrô, então, não é a solução para todos os problemas?

As pessoas pensam que podem ter um metrô na frente da casa delas. Não podem. Rede completa não vai existir. Redes completas foram feitas em Londres, Paris, Moscou, Nova Iorque há 100, 150 anos, quando era mais barato trabalhar no subsolo. Hoje não é mais possível. É preciso fazer combinações com outros sistemas. Os franceses, por exemplo, conseguiram transformar a bicicleta num transporte público. Inspirado nessa ideia, estou desenhando um carro elétrico que já está no quinto protótipo, o Dock Dock. É o menor carro do mundo. Ele tem um quarto do tamanho do Smart, e ainda assim eu caibo nele. Um carro normal ocupa o mesmo espaço de seis Dock Docks. E ele pode ser usado em áreas onde queremos restringir o automóvel, alimentando o transporte público. Por exemplo: em Londres, restringiram o automóvel em determinado perímetro, mas não ofereceram alternativa. Não é que eu tenha me tornado um designer de carros, o que vale é o conceito.

Sobre a importância da sociodiversidade nas cidades, trata-se apenas de uma questão ideológica?
A cidade é feita de vizinhos. A convivência é importante. Há incorporadoras de grandes empresas imobiliárias que dizem estar fazendo condomínios sustentáveis. O simples fato de fazer um condomínio fora da cidade já o torna não sustentável. Morar perto do trabalho é uma das atitudes mais efetivas a favor da propalada sustentabilidade. A cidade é uma relação de funções, de renda, de idade. Quanto mais misturado for, mais humana e tolerante a cidade fica. A sociodiversidade é um componente fundamental. Não dá mais para viver em guetos de gente rica ou de gente pobre. A cidade é o último refúgio da solidariedade. Se não resolvermos as questões da cidade, não resolveremos o mundo.

Você falava da acupuntura urbana, de ações estratégicas que podem desencadear grandes mudanças nas cidades. Mas como saber por onde começar?
Quando começo a trabalhar em alguma cidade, costumo perguntar ao planejador ou ao prefeito quais são os problemas. Aí eles dizem: drenagem, esgoto, segurança. Num determinado momento, faço uma pausa e pergunto: “Qual é o seu sonho?”. Sonho que não esteja relacionado com a solução daqueles problemas. Um governante russo de um lugar próximo à Sibéria respondeu: “Meu sonho é que os jovens queiram continuar aqui, não queiram ir para Moscou”. Perguntei o que ele estava fazendo para isso. “Vou transformar este lugar na capital cultural da Rússia”. Não sei se ele conseguiu ou não, mas ele tinha um sonho. Para fazer algo acontecer é preciso apresentar uma ideia, um projeto que a grande maioria entenda que é desejável. Enfim, é preciso propor um sonho.

Quais são as barreiras que impedem que esses sonhos aconteçam?
O problema é que há sempre uma visão muito econômica. Nós temos as atividades econômicas e as pessoas. Sempre que se separa economia de gente dá em desastre. O mundo gastou 3,5 trilhões de dólares para sair da crise em 2008. E o que se fez? Investiu-se em bancos e montadoras de veículos. Se tivessem investido o mesmo valor em gente, dava para melhorar a qualidade de vida em todos os países do mundo, inclusive nos da África. E ainda geraria muito mais empregos.

Estamos prestes a realizar dois grandes eventos internacionais que demandam grandes investimentos em infraestrutura urbana, a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016. A população das cidades pode ganhar qualidade de vida com esses eventos?

Infelizmente, o Brasil vive muito com o deslumbre do momento. Agora é a Copa do Mundo. Estão derrubando estádios para construir outros. Vamos assistir a Costa Rica e Nicarágua, e depois fazer o que com aquele estádio? Não precisa... O problema do Brasil não é estádio. O grande problema para a Copa é logística aérea e mobilidade nas cidades. É um crime o que estão fazendo. Tem gente planejando ligações caríssimas entre o aeroporto e o estádio. Ora, como se os torcedores saíssem direto do avião para a partida... O que é preciso entender é que, em primeiro lugar, a cidade precisa ser boa para os seus habitantes. Se ela for boa para os seus habitantes, será boa para os turistas. O evento mais importante que temos é o dia a dia. É esse evento que precisamos resolver.

Pode-se dizer que, mais do que grandes somas de dinheiro, é preciso investir de maneira inteligente?
É preciso mesmo ter uma visão sustentável. Por isso, não desperdiçar é muito importante. Em Curitiba, por exemplo, nunca gastamos dinheiro fazendo canais. Engessando os rios, a água corre mais rápido, gera enchente. Nessa última onda de enchentes terríveis que aconteceu em muitas capitais, Curitiba passou em branco. Por qual razão? Por causa da política boa de drenagem. As calçadas têm grama. Não é como em São Paulo: asfalto, asfalto, asfalto. Lá não há permeabilidade. Há drenagem em São Paulo, mas ela não aguenta 15 minutos de uma chuva brava.

Você considera que as suas contribuições são maiores como político ou como urbanista?
Sinto que agora estou fazendo um trabalho mais rápido, porque posso trabalhar em muitas cidades. Isso está me dando uma alegria muito grande. Posso ir a uma cidade no México, me deparar com um problema, buscar uma solução, dar a minha contribuição. E isso pode acontecer na China, na Venezuela, nos Estados Unidos ou em Angola. Tem sido muito gratificante. Gosto de trabalhar em qualquer lugar. De repente, surge o prefeito de uma cidade pequena com um problema. Se eu sinto que o cara quer fazer, eu pego o trabalho. E também ocorre a situação oposta, como aconteceu com uma grande empresa que queria que fizéssemos o projeto de uma cidade – talvez o maior projeto imobiliário do País, cheio de condomínios. Não aceitei. Se eu não faria uma coisa dessas aos 25 anos, não vou fazer agora, com mais de 70.

Parodiando a pergunta que você costuma fazer para os políticos com quem trabalha, qual é o seu sonho hoje?
Meu sonho é fazer mais coisas. Estou meio cansado de fazer coisas que eu já sei fazer. O que quero é seguir a minha intuição, fazer coisas que ainda não fiz. Nos meus 70 anos, eu celebrei fazendo um pocket show para os meus amigos – e eu nunca tinha cantado na vida... A cada viagem, fazia uma música para um amigo diferente. E aí fiz um showzinho muito legal para umas 150 pessoas. Me diverti muito. Em um determinado momento, entrei sapateando – sem nunca ter sapateado na vida, é bom que se diga. Quando vi, estava o meu netinho, com uma cara de encantamento, batendo palmas... Foi a glória.

 

 

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