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Cícero Romão Batista E-mail
Escrito por Gilmar de Carvalho e Janaina Abreu   

"Padim" Cícero, santo do povo

Um dos mais populares personagens do nosso catolicismo, Cícero Romão Batista é idolatrado por milhões de fiéis. Eles vão a Juazeiro do Norte fazer e pagar promessas, reverenciar a imagem e reconfirmar o prestígio do "Padim". Um fenômeno ímpar de religiosidade.

Santo ou embusteiro? Para compreender Padre Cícero, é necessário romper com dualismos e superar preconceitos.

Cearense, nascido no Crato em 1844, Cícero Romão Batista trazia, segundo tradição, sinais de santidade: um anjo teria trocado o filho de dona Quinô por outro, de origem divina. Órfão de pai, foi educado pelo "padrinho", coronel Antônio Luís, que o manteve no Seminário em Fortaleza até a ordenação, em 1870. Chegou em 1872 a Juazeiro, povoado de casas de taipa. Sensibilizado pelo desamparo daquela gente, deu atenção. Ganhou fama de benfeitor. 

Na Semana Santa de 1889, dava a comunhão quando uma hóstia transformou-se em sangue. O povo falou em milagre. Acusado de estimular o fanatismo, foi afastado. Em Roma, explicou-se com o papa Leão XIII. A viagem só fez aumentar o renome do padre.


Poder religioso e político
Mesmo afastado, Cícero continuava ditando as regras políticas da região. Fez do médico baiano Floro Bartolomeu seu homem forte.

Em 1914, com a queda da oligarquia Acioli, o governo invadiu Juazeiro, com a desculpa de que o padre acoitava bandidos. As forças leais ao "Padim" saíram vitoriosas. Seu declínio acompanhou a decadência do cangaço, após a Revolução de 1930. Quase cego, morreu em 20 de julho de 1934. Ainda hoje, todo dia 20, a cidade se veste de luto.


Como foi o milagre
O falado milagre aconteceu com Maria de Araújo, nascida no sertão. Dedicava-se aos trabalhos da paróquia. Em 1889, ao receber a hóstia, sangue lhe jorrou da boca. Feridas romperam-lhe a pele. Milagres não aconteciam no sertão, menos ainda tendo como protagonista uma lavadeira negra.

A notícia correu. Legiões vinham de longe para assistir ao fenômeno, que se repetiu dezenas de vezes.

Padre Cícero creditou a manifestação aos céus. Um médico que examinou a mulher garantiu tratar-se de milagre. No processo movido pelo Vaticano, Maria foi chamada de "alma execrável", excomungada e forçada à reclusão domiciliar. Jamais se provou que a transformação de hóstia em sangue era farsa.


Ele está em toda parte
No início do século 20, Juazeiro do Norte era uma aldeota, com alguns casebres. Graças ao fluxo de romeiros, o distrito tornou-se importante centro. Em 1911, foi elevado a município, com Padre Cícero de prefeito.

Dois milhões de romeiros visitam a cidade durante o ano, em ônibus e caminhões que engarrafam as ruas. Entoam benditos, usam chapéus de palha, rezam o rosário. Comemoram aniversário (24 de março) e morte (20 de julho) de Padre Cícero; dia de finados (2 de novembro); Nossa Senhora das Candeias (2 de fevereiro); e Nossa Senhora das Dores (15 de setembro). 

Padre Cícero está nas narrativas orais, nos folhetos de feira, nos benditos, nas medalhas, em todas as modalidades do artesanato vendidos na cidade.

Juazeiro é a cidade mais populosa do interior cearense. O município tem quase 190 mil habitantes. Alia tradição a modernidade. Tem reisados e shopping centers; ex-votos e um aeroporto onde pousam jatos; faculdades e altos índices de desemprego e violência.

A força da devoção ao pároco é tão grande que, em 1969, Juazeiro inaugurou estátua do padre com 25 m de altura. Uma das maiores do Brasil, "um farol", no imaginário dos romeiros. 

A bibliografia sobre Padre Cícero envolve livros, teses, artigos. É personagem de documentários, filmes, peças; centro de um ciclo do cordel (biografia, milagres, exemplos e profecias a ele atribuídas), de xilogravuras, motivo para artistas do Cariri cearense, onde fica Juazeiro do Norte.

O "cearense do século", escolhido pelo voto popular em concurso promovido pela Rede Globo em 2000, só poderia "fundar" uma cidade mágica e surpreendente como Juazeiro do Norte.

"Quando o sol tostou as foia E bebeu o riachão Fui até o Juazeiro Pra fazer a minha oração

Tô voltando estropiado Mas alegre o coração Padim Ciço ouviu a minha prece Fez chover no meu sertão"

(Trecho de Légua Tirana, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira 


Você sabia...
...que no Nordeste a maioria das pessoas chamadas de Cícero ou Cícera têm estes nomes como homenagem ao "Padim Ciço" e geralmente como pagamento de promessa? E que em 1910 o Bispo de Olinda, Dom Luís de Brito, publicou circular na qual recomendava que os vigários não aceitassem tal nome, por ser sinal de "fanatismo"?
 

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