Banner
Ana Elisa Siqueira E-mail
Escrito por redação   

"Escola pública não deveria ser só de crianças pobres, mas de toda a população. Isto é que seria uma escola verdadeiramente democrática."

A escola municipal Amorim Lima, na zona oeste de São Paulo, desenvolve projeto inspirado na Escola da Ponte, de Portugal, em que não há salas de aula, diferença hierárquica entre aluno e professor, currículo, exames finais. Num folheto da Amorim, lemos que a proposta "aprofunda a possibilidade de nos conhecermos e nos reconhecermos enquanto povo brasileiro". Também lemos palavras do educador Paulo Freire, em que defende uma escola "que é aventura, que marcha, que não tem medo do risco, por isso recusa o imobilismo". A criadora e animadora do projeto é a diretora Ana Elisa Siqueira, formada em Pedagogia pela PUC de São Paulo. Ela começou demolindo paredes e juntando professores e centenas de alunos numa proposta instigante, cujos resultados iniciais vêm contagiando alunos, mestres e pais de alunos.

Há críticas que desqualificam os CEUS [Centros Educacionais Unificados, criados pela Prefeitura de São Paulo]. Você as sanciona 100%?
Nem um por cento, o CEU é uma joia rara. Primeiro, entrar naquele espaço fantástico. E a potencialidade de educação, porque une a cultura, o esporte e a comunidade. Fora que está nas regiões mais periféricas e que não têm acesso à cultura. Até aqui, que não é bairro tão periférico, as crianças não têm acesso.

É um patrimônio conquistado?

É . Por exemplo, aqui atendemos 1.200 alunos. A gente não fecha sábado e domingo. Ganhamos um respeito diferente. Temos duas quadras de esportes e uma pista de skate. Temos capoeira. Isso já enche essa escola de gente, parece parque.

Por que certos professores não gostam?
Olha, existe uma prática de expulsão dos alunos, expulsão velada. Quando entrei aqui isso era muito forte. A negociação chegava num ponto que eu dizia: "Negocio tudo, menos tirar o aluno da escola e passar adolescente para o noturno." Não existe coisa pior. Você tira a possibilidade dele de ser cidadão. Um menino de 13, 14 anos indo para o noturno conviver com outras questões. Você vai desestruturar mais. É difícil lidar com isto, porque existe uma ideia de que dentro da sala de aula tem que ser uma santa paz. Não existe educação sem questões para a gente trabalhar. É conflito o tempo todo.

Como você chegou a esse projeto? Você estudou no Sion, colégio da elite. E optou por um lugar entre a favela e a Universidade de São Paulo, uma síntese do Brasil.
Eu queria ser professora. Estudei numa escola religiosa, depois fiz a Universidade Católica, PUC. Tem uma época que a gente se rebela por ter aprendido as coisas da Igreja. Mas tem uma coisa importante que fica, não no sentido de caridade, mas da constituição de valores. A questão de achar que existe perspectiva de educação para todos. Fiz Pedagogia e tive bons professores. Toda a formação da PUC é direcionada para a escola. Fiz o concurso da rede pública. Fui aprovada e comecei a trabalhar. Fui fazer Filosofia e me afastei por dois anos.

Em que ano foi sua volta?
Em 1988, 1989. Fui convidada a trabalhar no Butantã. Fui conhecendo a Amorim Lima. Adorava vir. Aqui é uma síntese do Brasil e o que é bacana é que todo o mundo vive junto. Há toda essa possibilidade de convivência que mostra que escola pública não deveria ser só de crianças pobres, mas de toda a população. Isto é que seria uma escola verdadeiramente democrática. Resolvi ser diretora porque queria fazer uma escola com a minha cara. Quando era coordenadora pedagógica, as coisas que eu fazia a diretora brigava. Uma vez saí da escola dentro do carro do NAE, Núcleo de Ação Educativa - a Coordenadoria de Educação de hoje. Tínhamos inventado um projeto em que as mães iam conhecer a escola. Uma vez por semana ficava uma mãe. Os professores foram reclamar. A supervisora me fez entrar no carro do NAE e ir até lá para dizer o que estava fazendo.

Mas o que era tão subversivo?
Nada! A mãe ia ajudar, colaborar. As mães queriam entender como as crianças aprendiam. Era impressionante como as mães começavam a falar, e acho que cometi um monte de equívocos. Mas a gente trabalhava o construtivismo com as mães, e elas começaram a questionar os professores.

Na Amorim esse processo também causou problemas com os funcionários?
Sim. As mães se sentiam com autoridade, porque viam quem não estava fazendo as coisas. Reparavam na fila do lanche, se os banheiros estavam limpos. Começaram a questionar. E tudo isso foi fortalecendo a participação. Percebi que tinha que abrir várias frentes. Os projetos foram se libertando da mão de todos, foram se consolidando. Tendo vida própria. Por exemplo, na festa junina antes era dança da garrafa, qualquer moda. Quando entrei, falei não. Cada festa passou a ter uma simbologia e o ritual. Isso, discutindo com a comunidade. Tivemos um projeto que incluía danças. Tinha oficinas brasileiras. Brincadeiras com as mães. Primeiro financiado pela Fundação Abrinq, durante dois anos, depois pela Camargo Corrêa.

O que você encontrou quando chegou?

A escola era toda engradada. No corredor tinha um monte de cadeiras velhas, para os alunos não circularem. Puseram duas grades, as crianças não podiam ter acesso ao resto do espaço. Para haver controle, não dar trabalho. A primeira coisa que fiz foi tirar as grades. Os professores ficaram bravos.

Isso era verbalizado nas reuniões?
Em todas. Mas acho que tem coisas que a gente tem que impor mesmo. Os alunos falaram: "Ainda bem que a senhora tirou a grade, porque a gente não é louco nem bandido para ficar preso." Cheguei em janeiro de 1996 e comecei a olhar aquela coisa horrível, um monte de papel velho. Embaixo do sofá tinha um monte de provas velhas. Decidimos melhorar a escola. Pintamos todas as portas de laranja. Antes tudo casava. O uniforme era cinza, assim como as paredes. E por que camiseta cinza? "Porque suja menos", e não era brincadeira. Depois começou essa coisa de aluno dar trabalho na sala de aula e "vamos expulsar".

É a tal cultura de que é mais fácil pôr pra fora.
Muitos alunos que saíram morreram porque se envolveram com droga. E a escola é o último vínculo. Se a criança perde esse vínculo com o social, com a escola que cria regras, que diz o que pode, o que não pode, que cria valor, perde tudo! Minha experiência mostra o quanto a escola é fundamental. Escola boa é fundamental para todo o mundo. 

Todas as nossas conversas, ao longo dos seis anos de ALMANAQUE, esbarram nisso: ou educamos nossas crianças de maneira adequada, ou não há saída.
Não há saída. Por isso começamos um trabal ho de olhar os conflitos numa outra perspectiva. Por exemplo, um professor não consegue dar aula porque estão brigando, desrespeitando. Como lidar com isso? Até hoje temos problemas. Precisamos ler com os professores todo começo de ano: "É proibido tirar aluno da sala e aluno ficar sem ter aula."

Como o projeto chegou até aqui?
A gente trabalhou com o Instituto Braxes, e depois o Pichou. A ideia era que todo o mundo estudasse a questão do grupo. O que é liderança positiva, negativa. Como a gente pode desfazer grupinhos que dificultam o trabalho do professor, enfim. Isso era com verba do Ministério da Educação: 6.500 reais anuais. Começamos a investir na formação da escola, dos educadores, dos pais. Tive grandes parceiros. Esse estudo deve ser coletivo. Depois que o trabalho estava aprovado pelo Conselho de Escola, a lei era que todo o mundo tinha que trabalhar nos grupos. Mas os professores não queriam. Então eu tinha que ficar com o livro de ponto e falar: "Se você não quer ir para o grupo, vou te colocar falta no horário coletivo."

E hoje? Os professores se envolvem mais?
Acredito que sim. Muitos foram embora nas remoções. Uma professora falou: "A gente já tirou um diretor e a gente tira você." Um jogo de braço. Depois veio a Rosely Sayão [psicóloga]. Eu tinha uma verba de mil reais, parte do MEC. Durante dois anos, uma vez por mês, trabalhamos com toda a comunidade: professores, pais, alunos do supletivo. Os pais foram se fortificando, começaram a falar: "Vocês estão falando que tem democracia, solidariedade, mas a gente não está vendo isso na prática." Percebemos que havia muitas faltas de professor. Os pais começaram a ficar assustados. No primeiro gráfico que organizaram, de 100% de aulas, os alunos tinham 13%. Uma lei impõe que, mesmo que o professor falte, o aluno é obrigado a ficar na escola. Imagine ficar aqui quatro horas com a mochila nas costas esperando uma aula. Professor de escola pública tem direito a faltar. Na lei diz que pode faltar, mas também diz que tem que repor. Mas não existe professor para repor. A Rosely fez o projeto. O Conselho topou. Um pai foi para a inauguração do CEU Butantã. Encontrou a secretária municipal de Educação, Cida Perez, e falou: "Queremos uma reunião." Apresentamos o projeto e ela topou.

Você falou que apareceu um monte de remoção. Era reação ao projeto?
Sim. A Rosely queria começar com o primeiro ano, depois segundo, terceiro... O Conselho de Escola falou: "Não, nós queremos primeiro e quinto, as duas pontas de ciclo." Ela aceitou. Tem uma coisa em educação: a gente só aprende fazendo. Em janeiro começamos. A gente lia um texto da Escola da Ponte e eu discutia com os pais. Teve pai que saiu correndo e foi lá para o NAE falar que não queria deixar o filho aqui. No início, a gente não pensava em derrubar parede. Um professor ficaria numa sala, outro em outra. E as crianças iam perambular pelas salas. Mas esse não era o projeto da Escola da Ponte. Os alunos e os professores trabalhavam em grupo. Então concluímos que tínhamos que derrubar as paredes. Os vizinhos pensaram que eu estava destruindo a escola.

Na Escola da Ponte também é assim?
É , eles têm espaços grandes, salas grandes, os alunos estão em grupo todo o tempo, mesmo os de anos diferentes.

A liberdade dá um trabalho danado, não é?
Dá trabalho e sabe qual é a tendência? A gente querer restringir a liberdade do outro. Para nós, educadores que estamos acostumados à organização, ave-maria, é uma tragédia. Agora vou explicar o projeto. A gente derrubou as paredes por quê? Porque queria que os professores e os alunos trabalhassem juntos. A primeira série trabalha das 13 às 17 horas; e a quinta das 8 às 12. O quinto ano fica na sala, com 105 alunos, que são os três antigos quintos anos. Quem fica nessa sala são três professores polivalentes. E à tarde a mesma coisa: os três antigos primeiros anos ficam juntos com as três professoras.

Depois disso, como ficou o currículo?
Há aulas de português, matemática, história, geografia - o currículo tradicional. Mas também circo, educação ambiental, música, jogos cooperativos, sala de informática, teatro e capoeira. Os alunos nunca ficam juntos o tempo todo. Os três professores nunca ficam com mais de 50 alunos dentro da sala.

Como funciona a dinâmica das aulas?
Os alunos escolhem quais os objetivos para cada semana. Dentro desses objetivos, têm uma série de atividades. Os professores têm condições de olhar como isso está se dando. Porque tem 25 na sala, para três professores, alunos sentados em grupo. E não só cada professor, mas também os colegas são uma possibilidade de ajuda. Uma vez por semana a gente tem a tutoria. Não só os professores, mas tem o oficineiro, tem eu, o assistente da escola, a auxiliar de período.

Essa tutoria significa o quê?
Significa que uma vez por semana sento com dez alunos e discuto o que estão fazendo, o que estão conseguindo aprender. Os resultados têm sido visíveis. A gente tem uma aluna, Janaína, que tem um milhão de problemas. Ela entrou na capoeira e o professor, mestre Alcides, percebeu que na roda os meninos não queriam jogar com ela. Eles iam contando e quem ia cair com ela mudava de lugar. Quando o mestre entendeu esse mecanismo, ele se punha no lugar, então ninguém sabia mais como fazer para não jogar com a Janaína. A Janaína hoje continua com as dificuldades dela, mas mudou muito. É maravilhoso pensar na Janaína do dia em que chegou para hoje. 

Por via da capoeira?
Por via da capoeira. Ela foi melhorando. Conseguiu se alfabetizar. O grupo começou a aceitá-la na capoeira. Porque não tem ninguém excluído na capoeira, por mais que jogue bem, jogue mal, todo o mundo joga.

É como qualquer esporte.
Uns podem mais, outros menos, e os alunos vão aprendendo. As crianças começam a se abrir para outras coisas. Começam a ser solidárias. Isso que é a vida que esse projeto traz, ninguém é perfeito, todo o mundo pode errar. Hoje posso estar muito bem, amanhã, muito mal. O grupo tem que discutir isso, ajudar. E é muito engraçado, porque no primeiro ano a gente não fica com esse discurso "você tem que ajudar o seu colega", mas no grupo eles mesmos sabem.

Como você vê as coisas daqui para frente?
Sou super otimista. Quero expandir o projeto, já no ano que vem, para a escola toda.Tem uma mãe que fala que a gente vai escrever uma nova página da educação brasileira. Porque é impressionante: todos os problemas que os professores reclamavam - de indisciplina, de boicote de aluno, de não conseguir lidar - acabaram. Os professores começam a construir uma rede entre eles. Porque o que nós queremos é que o aluno consiga aprender, não é gostar de mim, ou de você. O mais importante é que o aluno goste dele, dos colegas e do que veio fazer na escola. Os professores terminaram o semestre dizendo: "É a primeira vez que termino o semestre sem estar estressado!" Não estão faltando no primeiro e no quinto ano. Recuperaram o sentido de ensinar, e de aprender também, porque não está tudo pronto. É fácil abrir a cartilha e falar: "Vai, faz o que estou mandando." Agora, criar jeitos e formas de aprender por livre e espontânea vontade é outro papo.

 

Adicionar comentário

Seus comentários serão moderados e assim que aprovados serão publicados no site.