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Nei Lopes E-mail
Escrito por redação   

"Vinte é o dia da Consciência, da razão; Treze é o dia da Alma, da espiritualidade e da emoção."

Ele costuma se intitular assim: Nei Lopes, poeta negro, artista do povo. Para nós, confessa-se "politicamente um negro" e, no afeto dos seus, "um crioulinho, carioca da antiga e muito de bem com a vida".

Nasceu no Irajá, subúrbio carioca, em 1942, caçula de 11. Desenhava na areia. Aos 12, na escola, destaca-se também como orador e escritor. Mas fica mesmo fascinado é pelas escolas de samba.

Chega à tradicional Faculdade Nacional de Direito e se liga aos movimentos políticos e culturais. E eis que, em 1963, um grupo da aguerrida comunidade negra que o mulatinho frequentava leva-o à escola de samba do Morro do Salgueiro. Era o carnaval inovador de Chica da Silva, que deu à escola seu primeiro título.

A parceria com Wilson Moreira renderia sambas-enredo antológicos e incontáveis sucessos, como Goiabada Cascão, Samba da Antiga, Gostoso Veneno e esta, gravada por Zezé Motta:

Abre as asas sobre mim / Ó senhora Liberdade / Eu fui condenado / Sem merecimento / Por um sentimento / Por uma paixão

Senhora Liberdade
foi cantada como hino na campanha Diretas-Já (1984) e nos comícios do futuro presidente Lula (1989). Com o parceiro, ajuda Candeia a fundar em 1975 o Quilombo, núcleo alternativo de samba e cultura negra. Sambista, intelectual, boêmio, religioso, ativista da cultura brasileira afro-descendente, pai de família e avô, Nei Lopes conversou com o ALMANAQUE BRASIL pela internet, a propósito justamente da razão central de suas preocupações vitais, no mês em que se rememora o herói Zumbi.

Aliás, uma das questões propostas foi: 20 de novembro de Zumbi ou 13 de maio da Princesa?

O que acha da lei que obriga a pôr negros na universidade, as chamadas cotas?
A exclusão do afro-descendente na sociedade brasileira é um dado hoje inquestionável. Os espaços de excelência dessa sociedade - aliás, muito bem representados nos saguões dos aeroportos em todas as cidades brasileiras, onde raramente se vê um preto, a não ser quando "artista" ou atleta - refletem essa exclusão. Abra você, agora, um suplemento dominical de jornal de grande circulação e procure a foto de um negro destacado, como líder, pensador, formador de opinião. Não vai achar. Mas esses negros existem, que eu conheço. A exclusão e até mesmo a invisibilidade que recai sobre nós é fruto de uma dívida histórica. André Rebouças, por exemplo, pensou uma reconstrução da sociedade brasileira após a abolição, com base na concessão de terras e implementos aos recém-emancipados. Entretanto, seu discurso soou no deserto. Aí, vindo a República, ele se exilou junto com a família imperial; e acabou morrendo em circunstâncias não esclarecidas na Ilha da Madeira. Na época dele - e ele próprio era um exemplo disso - por incrível que possa parecer, os afro-descendentes tinham mais mobilidade dentro da sociedade brasileira. E, nos primeiros anos da República, tivemos até presidentes mulatos. Então, é preciso, sim, pensar em ações afirmativas para benefício das populações negras, principalmente na área de educação. É preciso compensar o desequilíbrio e reparar o prejuízo. Agora, sobre os mecanismos jurídicos, isso é assunto para especialista, o que não é o meu caso.

Como deve comportar-se professor ou professora quando criança branca zombar de alguma forma da criança "de cor"?
Acho que o professor, dependendo da idade e do nível da criança, deve mostrar a ela que a espécie humana é uma só; que a Humanidade nasceu na África; que a partir dessa origem houve migrações sucessivas, por milhões de anos, para lugares cada vez mais distantes; e que essas migrações, por adaptações climáticas e miscigenações repetidas, é que foram determinando a aparência de cada grupo. Acho que isso não é difícil de mostrar.

Uma análise pessoal: preto, negro, afro-descendente, afro-brasileiro, crioulo, gente "de cor", como lhe batem tais qualificações?
O composto afro-descendente é, por enquanto, o que me parece expressar maior exatidão. Mas isso também é uma questão de escolha. Eu, por exemplo, embora não saiba nada de minha genealogia (é quase impossível ser um Alex Haley no Brasil), imagino que tenha algum europeu na minha ancestralidade remota. Mas gosto de ser um afro-descendente, principalmente por afeto e afinidade para com o "continente negro" e seu continuum nas Américas. Agora: politicamente, eu sou um negro. E, no afeto dos meus, eu sou um crioulinho, carioca da antiga e muito de bem com a vida.

Você faz parte da legião dos que desprezam o 13 de Maio da Princesa e só aceitam o 20 de Novembro de Zumbi?
A gente não deve desprezar e muito menos negar a tradição: nossos mais velhos nunca deixaram de comemorar o Dia da Lei Áurea e de Nossa Senhora do Rosário. Para mim, então, as duas datas são válidas. Inclusive, já escrevi na canção Jongueiro Cumba, em parceria com Wilson Moreira, isto aqui:

O dia é tanto
Treze quanto Vinte
Avia
Que o negócio é o seguinte:
Um é feriado novo
O outro é de todo esse povo
Vamos os dois festejar!


O Vinte é o dia da Consciência, da razão; o Treze é o dia da Alma, da espiritualidade e da emoção.

Muitos ainda hoje falam em complexo de escravidão para explicar mazelas nossas: faz sentido isto?
Por todas essas razões que a gente já falou aqui, existe de fato uma baixa auto-estima no conjunto dos afro-brasileiros, principalmente diante da sociedade abrangente. E isso gera, sim, uma timidez, um acanhamento, um medo que muito nos prejudica e é preciso curar.

O ex-ministro da Fazenda Rubens Ricupero, em entrevista a Veja faz uns dez anos, diz que a escravidão está entre os principais fatores da nossa péssima distribuição de renda. Você tem a mesma visão?
O que eu acabei de dizer, e que é uma constatação de ordem psicológica ou psicanalítica, é referido também como "síndrome da senzala". Quanto à relação entre escravidão e distribuição de renda, que é uma questão econômica, é claro que ela também existe. O pós-abolição, no Brasil, caracterizou-se pelo alijamento do elemento africano e afro-descendente dos ambientes, centros e meios de produção, em favor dos imigrantes, principalmente europeus. E esse é o grande nó da questão. Aí, voltamos aos espaços de excelência a que já me referi antes. Observe os sobrenomes nesses espaços: são majoritariamente de origem europeia ou asiática - até mesmo nos elencos das telenovelas e nas passarelas da moda. E isso remete a 1888, é claro. O Brasil chegou a adotar medidas legislativas explicitamente antiafricanas após a abolição. Só que a pretendida arianização da sociedade brasileira saiu pela culatra. Mas, em termos de distribuição de renda, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) comprova que segmento populacional dos "pretos e pardos" continua a ser o menos aquinhoado.

Por que não se consegue corrigir tais mazelas?
A composição das casas legislativas, do Poder Judiciário e até mesmo do atual Executivo (apesar do presidente metalúrgico), reflete uma dominação que vem de longe. Os "herdeiros do poder", como diz o título de um livro do genealogista Francisco Dória, são os de sempre. Então, nunca há muito interesse em mudar.

Pra você, é plausível a tradicional explicação de que o africano foi mais útil aos portugueses porque os ameríndios eram arredios ao trabalho pesado imposto pelos colonizadores europeus?
Essa explicação deixa sempre aquela ideia de que o índio é naturalmente indômito e o africano é um covarde. Mas a coisa, hoje eu sei, é muito mais complexa do que tentaram me impor no velho curso ginasial. E a explicação vem dos estágios sociais em que se encontravam índios brasileiros e africanos nos séculos 16 e 17, uns mais afeitos à produção de bens, outros não.

Gilberto Freyre, em Sobrados e Mucambos, na tese da mestiçagem como boa, diz que no início do século 19 a classe parda e preta era já aquela mais sôfrega para se impor pelo número como o verdadeiro Brasil Independente. Melhor para nós antes mestiços que "puros", como por exemplo a Argentina?
Essa falácia da exaltação do "Brasil mestiço" também precisa ser mais bem pensada. Nos Estados Unidos, a segregação fez com que o povo negro, já no século 19, tivesse suas próprias igrejas, escolas, universidades e até mesmo seus negócios. Aqui, até hoje ainda se diz que "a mulata é a tal", mas os índices do IBGE mostram uma realidade barra-pesada para os descendentes de africanos. No século 19, o Brasil chegou a ter, sim, uma "elite mulata", de políticos, literatos, cientistas. Mas quando os imigrantes começaram a chegar em massa, a se multiplicar e enriquecer no fértil solo brasileiro, a festa acabou. Então, o mito da "boa mestiçagem" caiu por terra, jogando os "de cor" para escanteio. Quanto à Argentina, no meu entender, é o melhor exemplo daquilo que se tentou aqui e não deu certo. No carnaval lá, a cultura negra é representada simbolicamente, nas comparsas lubolas (lubolo é o nome de um povo africano) por brancos pintados de preto.

No mesmo livro de Freyre, nosso gosto por cores "fortes" teria vindo com os africanos; e esta pérola na página 598, 9ª edição: O pé caracteristicamente brasileiro pode-se dizer que continua, em largos trechos do País, o pé pequeno que o mulato tem certo garbo em contrastar com o grandalhão, do português, do inglês, do alemão. O pé ágil mas delicado do capoeira, do dançarino de samba, do jogador de foot-ball pela técnica brasileira antes de dança dionisíaca do que de jogo britanicamente apolíneo. O mestre de Apipucos envereda por caminhos certos?
O "mestre de Apipucos", do alto de sua varanda colonial, de onde fazia ecoar sua enorme e enfatuada erudição, às vezes era bastante interessante. Até de pé de mulato ele entendia!

Lemos em seu blog que há um festival carioca de hip-hop chamado Hutus. Você liga isto a uma ameaça de certo fascismo negro pop de proporções internacionais. Pode dar mais detalhes?
Quem me passou essa informação foi o escritor João Carlos Rodrigues, biógrafo do João do Rio e autor de O Negro no Cinema Brasileiro. Eu, por mim, acho que é apenas alienação. No mesmo nível, já vi, aqui no Rio, pichações associando aquela famosa foto do Guevara a facções do narcotráfico... É a tal da rebeldia sem causa. E sem noção de nada.

Por falar em rap, podemos dizer que nos apropriamos do gênero e já o transformamos em coisa nossa - não nos esquecendo do desafio nordestino e do precedente "Deixe que digam, que pensem, que falem", do Jair Rodrigues?
Eu acho que o gênero é que está se apropriando de nós. Apesar de termos muitos Cajus & Castanhas, jovens, em plena forma, com seus cocos altamente elaborados; e toda uma tradição de emboladores, até mesmo meninos, pulsando de brasilidade e originalidade - como vi, noutro dia, num documentário na TV Senac. Quanto aos "manos", aqueles bonés de pala pra trás, aquelas calças largonas, aquelas jaquetas, aqueles tênis, aquele gestual, é tudo igualzinho, no mundo inteiro. Acabo de saber, inclusive, que já tem até índio, no Brasil Central, de camiseta do Chicago Bulls, arranhando disco de vinil e se sacudindo todo daquele jeito.

"Que bom poder ser moderno sendo africano, ser internacional sem deixar de ser brasileiro; e carioca até a raiz de meus cabelos bantos", diz você no blog: é a sua síntese? Poderia detalhar ponto por ponto?
Eu acho que sou moderno porque, ao contrário do que muita gente pensa, estou a par de tudo o que está acontecendo e sei me colocar dentro deste contexto. Sou africano porque cultuo Ifá (o orixá iorubano da sabedoria e do conhecimento), que me dá certeza e força em tudo o que faço. Sou internacional porque interajo, estudando e conversando, com a diáspora africana nas Américas, do sul dos Estados Unidos até o Prata, chegando até a cultura afro-boliviana - que muita gente nem sabe que existe! Sou brasileiro porque não me deixo levar pelo engodo a que nos induzem as grandes corporações que estão tomando este grande País para si, patenteando nosso princípio ativo e até nossa cachaça; exterminando, enfim, os últimos resquícios de nossa nacionalidade. Sou carioca por uma razão histórica: porque minha família é "da gema", meus pais tendo nascido no Rio ainda no século 19, sem terem ancestrais, ao que se saiba, originários de outra província que não a do Rio de Janeiro. E digo que tenho cabelos bantos porque, na filosofia banto (Congo, Angola, Moçambique etc.), os cabelos brancos, como os meus, são sinônimo de dignidade e respeito.

Por que, como você diz na entrevista para o Jornal da Comunidade, de Brasília, a dicotomia morro-asfalto já era?
Por acaso ontem, chegando ao Rio de avião, observei de novo como aqui, hoje, a extrema pobreza das favelas fica encostadinha, roçando mesmo, nas altas mansões das encostas, com suas piscinas azuizinhas. E isso não tem mais nada de simbólico, não! É realidade concreta. E é preciso saber viver dentro dela, respeitando quem tem de ser respeitado, não humilhando nem menosprezando ninguém. E principalmente deixando de hipocrisia - como gente por aqui que consome prazeres ilícitos, de roupa preta, contribuindo para o aumento da ilicitude, e depois vai para a rua, de roupa branca, fazer manifestação contra a violência.
 

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