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Telê Santana E-mail
Escrito por Bruno Hoffmann   

De fio da esperança a mestre

Por anos, ele teve de conviver com o incômodo apelido de Pé Frio. Disciplinador, fez história como jogador e treinador de clubes. Comandou uma das seleções mais encantadoras da história, ainda que derrotada na Copa do Mundo. Amante da bola, nunca abriu mão de botar em campo toda a beleza de nosso futebol.

Uma das seleções mais habilidosas das Copas do Mundo. Talvez a mais. O escrete canarinho de 1982 era a cara de seu comandante, que exigia jogo bonito, leal e ofensivo. A perda do Mundial, diante de uma retranqueira Itália, foi um baque. Quando voltava para o hotel, a delegação pôde ver uma faixa na estrada, em espanhol: “Força, Brasil. Nem sempre os melhores ganham”. Sem medo de errar, a palavra “Brasil” poderia ser substituída por “Telê”.

Nascido na cidade de Itabirito, Minas, em 26 de julho de 1931, Telê Santana vivia correndo atrás da bola nas ruas do pequeno município. Após belo início de carreira em equipes da região, transferiu-se para o juvenil do Fluminense. Estreou na equipe principal em 1951, como um ponta-direita rápido e observador, além de fazedor de gols. Mas recebia críticas pelo corpo franzino: não pesava mais de 57 quilos. Às vezes era chamado de Fiapo pelas arquibancadas.

O jornalista Mário Filho, fã de seu futebol, achava injusto que o habilidoso ponta ganhasse apelidos pejorativos. Pelo Jornal dos Sports, bolou um concurso para buscar um novo nome, sob o chamariz: “Dê um slogan para Telê e concorra a 5 mil cruzeiros”. As opções finalistas: Big Ben, El Todas e Fio da Esperança, este último em referência a um famoso filme da época. Foi o escolhido. “Fio” pelo corpo franzino; “Esperança” pela entrega em campo, pelas muitas vezes em que decidiu partidas nos minutos finais.

Telê fez história no Fluminense. Foram 555 partidas e 162 gols – é o terceiro maior artilheiro do clube. Uma carreira marcada pela lealdade. É um dos poucos jogadores a receber o cobiçado Prêmio Belfort Duarte, dado aos que passavam 10 anos sem ser expulsos de campo. A única lástima como jogador: nunca ter sido convocado para a Seleção. Também pudera: jogava na mesma posição de Garrincha.

O atleta ainda passaria por Madureira, Vasco da Gama e Guarani. No clube de Campinas, já veterano, foi contratado justamente pela liderança e por sua visão apurada do jogo geral. Criticado por pedir a contratação de alguém de idade avançada, o técnico Tim rebateu: “Preciso de um jogador que lá dentro instrua os outros para que façam o que eu mandei.”


O treinador perfeccionista
Com a despedida dos campos, começaria uma ascendente carreira como treinador. Já começou levando o Fluminense ao Campeonato Carioca de 1969. Chamou a atenção do Atlético Mineiro, que amargava um incômodo período sem títulos. No clube, não diferenciava craques consagrados de meros coadjuvantes. A atitude fez os medalhões suarem a camisa nos treinos. Resultado: Galo campeão mineiro de 1970 e, sobretudo, o primeiro campeão do Campeonato Brasileiro, em 1971. Entre idas e vindas, Telê foi o treinador que mais comandou o time. É também o único a ganhar títulos estaduais nos quatro polos futebolísticos do Brasil: Rio, São Paulo, Minas e Rio Grande do Sul.

No início dos anos 1980, foi convidado para dirigir a Seleção Brasileira, que se preparava para a Copa da Espanha. Com disciplina, mas extrema ousadia, trouxe só craques para o time. Mas ninguém tinha lugar cativo. Como no Atlético, 10 anos antes, só jogava quem estivesse entre os melhores.

Antes da Copa, a campanha foi quase irrepreensível: 31 jogos, 23 vitórias, seis empates e apenas duas derrotas. A terceira viria justamente no Mundial, no estádio de Sarriá, com três gols do inspiradíssimo Paolo Rossi. A Seleção foi despachada para casa.

A imprensa, sempre tão crítica, não conseguiu bater na Seleção. A revista Veja estampou: “A derrota do futebol maravilha”. Na entrevista coletiva após a derrota, Telê não culpou ninguém, como é costume dos treinadores. “A Itália jogou bem”, resumiu, elegantemente. Só ficou com a voz embargada quando os jornalistas do mundo todo, que lotavam a sala de imprensa, baixaram as canetas, gravadores e microfones para aplaudi-lo durante mais de um minuto, num dos momentos de maior emoção de sua carreira.


De pé frio a mestre
Ele voltaria a dirigir a Seleção em 1986. Teve episódios polêmicos, como o corte de Renato Gaúcho e Leandro por indisciplina. Em campo, novamente boas atuações, mas a eliminação pela França de Michel Platini lhe custou o penoso apelido de Pé Frio.

Depois de outros clubes, no início dos anos 1990 assumiria o São Paulo, que vinha mal das pernas. Mas Telê percebeu que ali havia craques. Bastava lapidá-los. Um dos que mais sofreram foi o jovem lateral Cafu. O técnico passava horas ensinando-lhe coisas básicas, como passes, domínio, cruzamentos. “Quando ele está na Seleção e faz um cruzamento todo errado, eu morro de vergonha. A culpa não é dele. A culpa é minha, que sou seu treinador.” Resultado dos longos e repetitivos treinos: Cafu é o jogador que mais atuou pela Seleção, além de ser o capitão do pentacampeonato, em 2002.

No São Paulo, Telê ganhou tudo o que podia: Paulistas, Brasileiro, duas Libertadores. O futebol era lindo, ofensivo, cheio de alternativas em campo. Nos Mundiais de 1992 e 1993, atropelou Barcelona e Milan, pondo o São Paulo no topo do mundo. A fama de pé frio foi para o espaço. Agora era apenas chamado de mestre. Mestre Telê.

Em 1996, após quase seis anos dirigindo o tricolor paulista, sofreu uma isquemia cerebral. Ainda tentou voltar ao futebol, mas o quadro se agravou. O maior técnico do Brasil se aposentava. Em 21 de abril de 2006, seu corpo franzino não suportou mais. Morria o Fio da Esperança, o ex-Pé Frio, o Mestre. No mesmo dia de outros dois heróis mineiros: Tiradentes e Tancredo Neves.


SAIBA MAIS
Assista ao lado ao trailer de um documentário sobre Telê.
 

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