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Garrincha E-mail
Escrito por Diego Braga Norte   

Alegria do povo

Com dribles incríveis, fazia rir a gente sofrida e trabalhadora como ele havia sido. Gênio? Há quem ache pouco para qualificá-lo.


Deslumbrante país seria este, maior que a Rússia, maior que os Estados Unidos, se fôssemos 75 milhões de Garrinchas
, escreveu Nelson Rodrigues em 1962, após o Brasil bater o Chile por 4 a 2, em Santiago, pela semifinal da Copa do Mundo. Garrincha fez dois gols, apanhou o jogo todo e foi expulso ao revidar uma agressão. Levou ainda uma pedrada na cabeça quando deixava o campo. O episódio ilustra bem a carreira do craque Manoel dos Santos, amado pela torcida, temido pelos adversários. Fluminense de Pau Grande, nasceu a 28 de outubro de 1933, quinto filho de humilde família. Seguindo o pai, aos 14 anos foi trabalhar na América Fabril. Ainda na adolescência passa a beber. E dedica-se com afinco às mulheres. Teve muitas.


Pássaro alegre e selvagem
Foi a irmã mais velha, Rosa, quem lhe deu o apelido que o tornaria célebre. Garrincha é sinônimo para cambaxirra, pássaro alegre que não se adapta ao cativeiro, dotado de belo canto. Metáfora melhor seria difícil.

Apesar das pernas tortas, bem jovem já demonstrava maestria com a bola nos pés. Passou a jogar no Sport Club Pau Grande. Em 1952, foi vendido ao Botafogo por 500 cruzeiros - em valores atuais, cerca de 35 reais! Ao lado de Zagallo, Didi, Amarildo e Nilton Santos, fez parte de um dos maiores times de todos os tempos, que só encontrava poderio à altura no Santos de Pelé, Coutinho e Pepe.

Foi na Copa do Mundo de 1962, no Chile, que Garrincha viveu seu apogeu. Com Pelé machucado logo na estreia, sobrou-lhe a missão de conduzir o Brasil ao segundo título mundial. Marcou quatro gols, deu passe para outros e encantou o mundo com seus dribles improváveis e lances cômicos. Foi eleito o melhor jogador do torneio.

Na final contra a Tchecoslováquia, um show: Garrincha não se mexe. É de arrepiar a cena. De um lado, uns quatro ou cinco europeus, de pele rósea como a nádega de um anjo; do outro lado, feio e torto, o Mané. Por fim, o marcador do brasileiro, como uma única reação, põe as mãos nos quadris como uma briosa lavadeira. O juiz não precisava apitar. O jogo acabava ali. Garrincha arrasara a Tchecoslováquia, não deixando pedra sobre pedra, narrou Nelson Rodrigues.


Joelho ruim, coração bom
No final da carreira, as muitas injeções anestésicas permitiam a Garrincha jogar e não sentir dor.

Porém, a prática liquidou-lhe o joelho direito. Operado, não mais seria o mesmo. Traído pelas próprias pernas, o genial jogador não tinha mais o ímpeto ingênuo e furioso. Morreu em 20 de janeiro de 1983, quase miserável e escravizado pelo alcoolismo. Não tinha completado 50 anos. Foi um pobre e pequeno mortal que ajudou um país inteiro a sublimar suas tristezas. O pior é que as tristezas voltam, e não há outro Garrincha disponível, diria o poeta Drummond.

Mané Garrincha era apaixonado por passarinhos, carinhoso com crianças e generoso com adversários. Em 1959, num jogo entre Botafogo e o arquirrival Fluminense, ao ver um adversário caído e machucado, chutou a bola para fora para que ele fosse socorrido. Inventou, com o gesto nobre, uma jogada que se tornaria comum nos esportes coletivos.

O jornalista e técnico da seleção João Saldanha escreveu: Daqui a 300 ou 400 anos, quando falarem em futebol, vão ter que falar do Garrincha.

Houve quem lhe atribuísse a santidade, como o escritor João Antônio, que o chamou "São Mané Garrincha". E o cineasta Joaquim Pedro de Andrade, inspirando-se na Cantata 147 de Bach, Jesus, Alegria dos Homens, realizou em 1962 o mais emocionante documentário de nosso futebol: Garrincha, Alegria do Povo.


SAIBA MAIS
Estrela Solitária, de Ruy Castro (Companhia das Letras, 1995).

 

 

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