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Sócrates E-mail
Escrito por redação   

"Meu pai, tanto quanto eu, tem esse País na alma. E quis reforçar isso através do meu nome."

Médico, ex-jogador. Articulador do movimento Democracia Corinthiana, em plena ditadura militar. Capitão da seleção em 1982 e 1986. Cotado para o Ministério do Esporte, diz que prefere ajudar nos bastidores. Falamos de Sócrates, “O Doutor”. Sua atuação política não para. Diz que o sistema de formação de talentos hoje “não fica longe do regime escravocrata”. Acha que o futebol poderia servir como veículo para solucionar problemas nacionais. Seu nome, comprido como a lista de serviços prestados ao esporte, mostra que ele, como poucos, pode dizer que é brasileiro desde criancinha.


Sua geração ficou devendo a Copa de 1982. Naquele time não cabia individualismo e você sempre foi líder, aquele que pregava a participação de todos. Parece que em alguns momentos não funcionou.

É difícil estar num grupo de elite. Cada um tinha uma história, uma capacidade privilegiada. Conquistar um sentimento comunitário num grupo desses é difícil. Em Copa do Mundo sofre-se uma série de estímulos que não são comuns. Em determinado jogo, tínhamos ao nosso lado cerca de 150 jornalistas do mundo todo. Não há como não sentir-se meio deus em uma situação dessas. Isso provoca uma exacerbação do individualismo. Apesar de ser esporte coletivo, tem muita competição, luta por poder.

Em 1982, você diz que perdemos porque não deu tempo de consertar o que estava errado.
Houve muito equilíbrio. O time italiano jogou bem. Qualquer resultado seria natural. Tudo é possível. São minúcias que decidem um jogo de futebol. Às vezes você erra 50 vezes e não acontece nada. Em outras, você erra uma vez e provoca uma tragédia. O futebol é bom por isso.

Qual foi a sensação ao perder o jogo e a Copa?

É como perder a mãe. Você está com todas as forças voltadas para algo e isso acaba. Tem que começar tudo do zero. É um momento de inteligência zero.

Uma das características mais elogiadas de seu futebol é a frieza. Você teve que trabalhar isso?
Sou uma pessoa absolutamente emocional. Sou apaixonado pela vida. Se jogasse isso no trabalho, estaria perdido: reagiria de acordo com o público e não de acordo com aquilo que deveria fazer. Criei uma relação muito própria com o público. Racionalizava tudo e tentava explorar o potencial dele de participar no resultado. Procurava fazer com que o público fortalecesse meu time e diminuísse o do adversário. A partida entre Corinthians e Palmeiras, pela semifinal do Campeonato Paulista de 1983, é um exemplo. Duas grandes torcidas, um cara realizando uma função que, aqui no Brasil, é subvalorizada – a marcação individual. Usando esse “argumento cultural”, aproveitei um momento de bola parada e corri em direção à lateral onde estava a torcida do Corinthians. O marcador veio atrás. Era o que eu queria. Saí de campo e ele ficou olhando da linha lateral. Então abri os braços para a torcida – o coloquei no meio do palco. Desse jeito, não atingi só o jogador, mas o time inteiro, a torcida.

Você fez gol nesse jogo?
Cinco minutos depois que substituíram meu marcador, que era o Márcio. A situação ficou tão constrangedora que ele nem conseguia ficar mais perto de mim.

Você jogou na Copa de 1982 e de 1986. Qual foi a pior derrota?
Derrota nunca é ruim. Pelo contrário, é o momento em que aprendemos mais. Mas tem que se aproveitar isso. Vale como experiência de vida, como conhecimento, maturidade. É muito maior do que qualquer resultado de jogo.

Mas em qual Copa você depositava mais expectativa?
Na de 1982. O time era melhor. Estava montado havia muito tempo. Um time fantástico, incomparável. Em 1986 tínhamos muitos problemas.

Na história do futebol brasileiro, é raro o atleta excepcional que pensa, toma partido, tem opinião. Você assumiu compromissos e bandeiras. Queria que você falasse sobre a Democracia Corinthiana.
Foi uma coisa simples. Mas tudo o que é simples também tem uma força descomunal. Durante a Democracia Corinthiana, tudo era decidido pela maioria. Respeitando as particularidades de cada função, todos tinham o mesmo poder. Mas, de simples, a Democracia Corinthiana se transformou em algo extraordinário, em função do que o País vivia. Quem não viveu aquela época talvez não tenha consciência do quanto o movimento foi importante. Pregávamos o voto, a democracia, em um País em plena ditadura. Havia um povo ignorante, cerceado em sua liberdade, que passou a discutir o processo conosco.

Como surgiu a ideia de usar a camisa como instrumento político?
Naquela época foi aprovada a legislação que permite propaganda nas camisas. Em vez de propaganda comercial, fizemos a nossa, política. Toda ação política tem que ser corajosa. Principalmente quando se está brigando por uma coisa que requer mobilização. A Democracia Corinthiana foi o momento mais lindo da vida de todos nós.

Você já era filiado ao PT?

Não, só me filiei depois que encerrei a carreira, em 1993. Sempre achei que ação política tinha que ser apartidária. Tínhamos que juntar forças para tentar mudar o País. Estar juntos. Se lutasse por um partido especificamente, enfraqueceria o processo.

Você acredita que o futebol é meio para realizar mudanças?
Nada é mais popular que o futebol neste País. Se pudéssemos por meio dele discutir todas as nossas questões, os resultados seriam encontrados mais facilmente. O problema é que quem controla o sistema não quer discutir publicamente. Se por meio do futebol se passasse conhecimento, esse povão vinha atrás, porque de futebol ele entende. Não é à toa que o presidente Lula usa as metáforas do futebol.

Qual a sua maior preocupação em relação ao esporte hoje?
Uma das minhas lutas é mudar a legislação quanto à formação do jogador. Hoje ela só exige alfabetização e, na verdade, a maioria nem é alfabetizada. Deveria exigir-se que o jogador completasse o ensino médio. O futebol é a atividade profissional mais sonhada nesse País, principalmente para os menos privilegiados. Se o ídolo deles, um Ronaldinho, nunca estudou, para que ele vai estudar?

Qual a sua expectativa em relação ao governo Lula?
Excepcional. O governo está muito bem. Estamos preparando o País para um passo que deveria ter sido dado há pelo menos 50 anos. Não existia governo nesse País. Considero o Lula o primeiro presidente do Brasil, o cara que vai governar esse Brasil. Os outros passaram por lá e as coisas continuaram do mesmo jeito. Fernando Henrique deve estar com inveja. O Lula é um personagem mundial, não só por sua história, mas pelo que está provocando.

E o esporte nesse governo?
É cedo para afirmar. Essa é uma área que nunca foi trabalhada. E não é muito difícil, não. Temos que enxergar o esporte com propósitos educativos. É o meio educativo mais barato que existe. Com uma bola e um educador, você consegue muito. Mas nossas escolas de Educação Física não educam profissionais para esse trabalho comunitário, e sim para o fitness ou para ser personal trainner. Isso tem que mudar.

Como você vê o recém-aprovado Estatuto do Torcedor?
É a primeira vez que o esporte foi colocado na Constituição. Há avanços. O Estatuto é fantástico. Haverá mudanças brutais e consequências interessantes. Mas é um processo em maturação, porque ainda existe uma resistência muito forte.

O futebol pode se tornar exemplo de organização, sobretudo para os torcedores?
Claro. Mas quem está comandando o futebol não quer que ele progrida. Acho isso uma burrice. Se o cara está ganhando, ele deveria querer que o bolo crescesse. Só há essa reação contrária da sociedade em relação a essas figuras porque eles estão destruindo tudo. Eles não têm nem competência, nem compromisso.

No futebol existem personagens com os quais você não teve que contracenar. Você não teve empresário.
Não, mas já existia. Na verdade, em síntese, o que mudou foi o tamanho do negócio. Minha época foi de transição. O atleta nascia na rua, desenvolvia o talento dele com naturalidade. Ninguém punha a mão. Havia poucos empresários, porque não dava muito dinheiro. À medida que o futebol foi virando grande negócio, profissões começaram a ser criadas. Mas são para-profissões, sem qualificação. O jogador de futebol sem formação pode virar treinador, empresário ou dirigente. Mérito não existe. É uma questão de oportunidade e de ocupar o espaço. Temos os melhores jogadores do mundo e não conseguimos gerar nem um por cento do que gera esse negócio no mundo. Nossos jogadores estão sendo prejudicados, porque o grande talento tem a seu lado alguém sem nenhuma capacitação interferindo no seu desenvolvimento.

Sem falar na perversidade que envolve estes “gerenciadores de talentos”. Eles pegam os meninos e preparam para vender.
Não fica longe do regime escravocrata. Senhores de engenho e escravos. Eles manipulam tudo, os meninos não têm direitos. Isso em pleno século 21. Os campeonatos infantil e juvenil têm partidas no meio de semana. O moleque não tem nem chance de estudar.

Apesar disso, de tempos em tempos surge nova safra de jogadores excepcionais. Essa mina não seca?
Nossa capacidade de produção de talentos é enorme. Se eu passar um mês na Bahia, faço uns 50 jogadores. Lá eles têm o tipo físico adequado: mulato, cheio de ginga, cabeça fria. Mas uma coisa é diferente hoje em dia. Quanto mais pobre é o moleque, mais difícil é para ele chegar lá. Nos últimos anos a classe média tem começado a se interessar pela profissão. Nos anos 1960, jogador de futebol era profissão de marginal. Hoje, a classe média está induzindo os moleques a jogar.

Você, que é de família classe média, teve problema no começo?
Não. Mas nasci pobre e fui criado como classe média. Na verdade, nunca pensei em entrar no futebol. Puro acidente de percurso. Jogava no time do colégio. O treinador foi contratado pelo Botafogo de Ribeirão Preto e me chamou. Queriam me profissionalizar desde os 16 anos. Eu que não queria. Chegava domingo no treino depois do baile do sábado, porque ninguém é de ferro. Depois entrei na faculdade. Medicina; tem uma carga horária maluca. Só vim a fazer meu primeiro contrato depois do segundo ano. Fiquei quatro anos nessa loucura.

Já que a entrevista é para o Almanaque Brasil, qual é a história de seu nome – Sócrates Brasileiro?
O Brasil é paixão. Toda vez que ouço o hino nacional fico arrepiadíssimo. Meu pai, tanto quanto eu, tem esse País na alma. Ele sempre teve paixão pelo Brasil. E quis reforçar isso através do meu nome.

Você assumiria um cargo nesse governo?
É o meu conflito. Eu era o homem dele. Ele disse que eu seria o cara que ele consultaria primeiro. Sou um cara discreto, gosto do meu cantinho. Tenho uma paixão louca pela política, mas acho mais confortável ajudar pelos bastidores.

Você chegou a recusar o convite?
Não, ele nem chegou a me convidar. Convite presidencial não se recusa nunca. Muito menos o do Lula, que não é convite, é convocação. Ele sabe disso.


*Entrevista publicada em julho de 2003.
 

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