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José Miguel Wisnik E-mail
Escrito por redação   

"O futebol é um rito através do qual o País se enxerga."


Professor de literatura brasileira, ensaísta, músico e compositor, ele vinha há tempos arquitetando um livro sobre futebol. A juventude na Baixada Santista lhe permitiu assistir a dezenas de partidas na Vila Belmiro e acompanhar de perto os ecos da Copa de 1958, façanha que completa o primeiro cinquentenário em 29 de junho*. Arrematou a obra depois de uma temporada na Universidade de Berkeley (Estados Unidos), onde se viu diante de uma invejável biblioteca sobre futebol – encontrou até um autor italiano que comparava Garrincha e Pelé aos filósofos gregos Heráclito e Parmênides. Desse caldo nasceu o recém-lançado Veneno Remédio (Companhia das Letras, 2008), com reflexões sobre o mais brasileiro dos esportes.


Quando surgiu seu interesse de escrever sobre futebol?
Comecei a focar no assunto há muito tempo, não saberia datar. No começo dos anos 1980, um amigo me mostrou um texto do Pier Paolo Pasolini [cineasta italiano] sobre futebol. O texto é de 1971, logo depois da Copa. Ele dizia que o futebol pode ser jogado em prosa e poesia. E que sul-americanos, especialmente os brasileiros, jogam em poesia. Para mim, essa era uma definição precisa. Prosa é o futebol como um discurso linear, defensivo, com triangulações e cruzamentos para a finalização. O gol seria uma espécie de silogismo, como se fosse um raciocínio que você desenvolve e conclui. Pasolini diz que os brasileiros não jogam assim. Primeiro porque eles são monstruosos dribladores, a ênfase é o ataque. Criam espaços onde não há, por caminhos não lineares. Aquilo, para mim, foi um achado.

Como entender que o futebol tenha se tornado tão universal?
É mesmo incrível. A Fifa tem mais integrantes do que a ONU. Em todo o mundo, nas mais diferentes culturas, o futebol está presente. Há uma falha no império imaginário americano. Os esportes que interessam aos Estados Unidos não interessam ao mundo, e o esporte mundial não interessa aos Estados Unidos. A ESPN e a Nike pensaram que implantariam o basquete, como implantaram a calça jeans, a Coca-Cola. Mas o negócio não fechou. No livro, eu queria descobrir por que o futebol tem essa expressão mundial e por que aparece o Brasil. O futebol é um rito através do qual o País se enxerga.

Quando começa esse fenômeno?

Isso começa em 1938. É a Copa em que, pela primeira vez, surge a ideia de que o Brasil e o futebol foram feitos um para o outro. Para as Copas de 1930 e 1934, foram mandados quaisquer combinados. A maioria dos jogadores eram brancos, com alguns negros. Em 1938 foi a primeira vez em que a miscigenação foi apresentada ao futebol do Brasil. Era uma seleção boa, com dois grandes jogadores: Domingos da Guia e Leônidas. Na volta ao País, depois da conquista do terceiro lugar, os ídolos foram carregados no ombro da torcida. E esses ídolos eram mulatos. É da mesma época a Aquarela do Brasil: Brasil, meu Brasil brasileiro / Meu mulato inzoneiro… Éramos um País escravista e mestiço que tinha que se esconder de si mesmo. Então, finalmente, descobria-se que aquele segredo inconfessável se tornava um achado. Gilberto Freyre, que nessa altura já tinha escrito Casa Grande & Senzala e Sobrados e Mucambos, tomava em 1938 o futebol como exemplo da teoria dele. Era a prova de que uma civilização lusotropical tinha uma mensagem a dar ao mundo.

Mas na Copa seguinte, em casa, houve a traumática derrota diante do Uruguai…

Pois é. O Brasil havia construído nada menos que o Maracanã, o maior estádio do mundo, num desejo de potência misturado com o que o Nelson Rodrigues definiu como complexo de vira-lata. Nelson chama o Maracanã de Hiroshima Psíquica. Pode-se dizer também que é uma espécie de Titanic Caboclo: o maior navio do mundo que afundou na primeira viagem. Na Copa de 1950, depois de um começo mais ou menos, houve duas grandes vitórias, sobre a Suécia e a Espanha, em goleadas fenomenais: 7 a 1 e 6 a 1. Todos os jornalistas estrangeiros diziam que o futebol brasileiro era espetacular. Por aqui, todos achavam que o título já estava ganho. O Uruguai vinha de resultados inexpressivos, e o empate na final favorecia o Brasil. Mas o futebol é traiçoeiro.

Como o País salta de 1950 para a consagração de 1958?
Em 1954, havia ainda a ressaca de 1950. Então, em 1958, ninguém acreditava na seleção brasileira – fora Nelson Rodrigues. Ele dizia que, se o Brasil se despisse do complexo de vira-lata, não haveria adversário para ele. Existia a dúvida em escalar ou não Garrincha e Pelé, que não começaram jogando. Pelé, porque era muito jovem; Garrincha, porque era o próprio Macunaíma encarnado. Você apostaria no Macunaíma para ser o seu herói? Lendo-se a biografia do Garrincha escrita pelo Ruy Castro, você percebe que a trajetória dele é igual à de Macunaíma. Ele é uma espécie de bobo sabido, que parece não saber nada, mas no fundo é mais esperto do que todos. Nos primeiros jogos a seleção empatou em 0 a 0 e ganhou da Áustria; mas não foi grande coisa. Já contra a União Soviética, entraram Pelé e Garrincha. Segundo diversos depoimentos, os três primeiros minutos daquele jogo foram os três minutos mais impressionantes da história do futebol. Nunca se viu um negócio tão avassalador. O Garrincha infernizou os russos. Caía russo para tudo quanto é lado. Eles entraram em desespero.

A seleção de 1958 era a representação dessa nossa poesia no futebol, não?
O Garrincha dribla uma vez, dribla pelo mesmo lado, depois volta para driblar de novo; Didi dá uma folha-seca; Pelé dá um passe em curva. Isso tudo é o que eu chamo de princípio da elipse. O que o futebol brasileiro inventa é a elipse. Elipse é a não linearidade. Quando o jogador finge que vai e não vai, isso é um procedimento poético, uma espécie de paradoxo. De repente, os russos se viram dentro de uma cascata de elipses. Não achavam a bola em lugar nenhum. É uma linguagem criada por uma experiência coletiva que se traduz em algo que é, ao mesmo tempo, gratuito e eficaz. Era um recado do Brasil para o mundo.

As peladas também traduzem isso?

Sim. A pelada é um modo de jogar em que às vezes nem se visa o gol. O Chico Buarque tem uma formulação muito boa para isso, em um texto que escreveu na Copa de 1998: a diferença entre os donos do campo e os donos da bola. Os ricos são os donos do campo, eles pegam a bola, tocam e recebem, mas não têm ciúmes dela; enquanto os pobres são os donos da bola. A bola gruda nele, a relação é com ela, independe do espaço. A pelada é uma relação com a bola, o gol é um acidente. O craque, claro, domina as duas coisas. Uma folha-seca do Didi, um drible do Garrincha ou um lençol do Pelé são o dono da bola fazendo elipses com ela. A elipse é a supressão de um elo na cadeia discursiva, dando um efeito inesperado. Em 1958 surgiu um império da elipse. Foi um momento em que as potencialidades do Brasil puderam enfim se afirmar. Havia uma arquitetura de importância mundial, a bossa nova. O Brasil já não é mais o país de uma monocultura agroexportadora, um produtor de café. É um país que produz uma cultura de ponta, internacional.

Por qual razão isso tudo desemboca em 1958?

Isso é sempre misterioso. No período JK, havia a ideia de que o País daria um salto de modernização guiado pelos grandes artistas e intelectuais. Ao mesmo tempo, o País consagrou a bossa nova de João Gilberto e Tom Jobim, uma música de altíssimo nível, reconhecida nacional e internacionalmente. Houve um momento de criação com condições favoráveis de recepção, o que nem sempre acontece. Claro que com as contradições do Brasil. A esperança desenvolvimentista também gerou a dívida. Mais tarde, a ditadura militar implantou uma modernização conservadora, que não tinha como modelos esse grandes artistas e intelectuais. Houve uma retração na arquitetura oficial, na propaganda, em tudo.

Sua teoria das elipses vale para outras áreas?

Na música eu enxergo isso. O samba e a bossa nova são ritmos sincopados, em que se está sempre no contrapé. O ritmo não está acentuado na cabeça do compasso, mas fora dele. João Gilberto fez isso: radicalizou a batida do samba, dando a ela esse princípio. A acentuação não está no lugar em que você espera e, no entanto, isso soa inteiramente fluente e natural. Nesse sentido, eu vejo que a música popular e o futebol expressam elementos análogos nessa época.

Em um texto na revista Piauí, você fala da dualidade entre o bairro e o mundo, ao contar a história de quando encontrou Pelé buscando a irmã na escola.

Essas situações faziam parte do meu cotidiano. Também o vi durante o serviço militar, depois da Copa de 1958, em São Vicente. Estava lá o Pelé, de sentinela na porta do quartel. Ele também foi uma espécie de gerente-propaganda na loja A. D. Moreira, vendendo liquidificador e geladeira. Eram coisas totalmente provincianas e domésticas que, no entanto, ganhavam dimensão mundial. Foi o primeiro espasmo da localidade com a globalidade, através de Pelé. Tem outra história que eu também conto: depois da Copa de 1970, o Pelé estava em um posto de gasolina em Santos, cercado de pessoas, explicando um lance qualquer, quando um amigo meu pede licença, passa entre os populares e pergunta: “Pelé, por favor, você pode me dizer onde fica a rua Djalma Dutra?”. Ele queria saber se aquela mesma cabeça que fez o gol na final da Copa, vista por milhões e milhões de pessoas, continha acesso a uma informação local.

O que definiu o nosso triunfo em 1962, mesmo com a contusão de Pelé?

1962 é uma espécie de extensão de 1958. Garrincha tomou a responsabilidade para si e, em vez de só driblar e passar, fez gol de falta, de cabeça, lançamentos de 40 metros. Foi uma revelação. Justamente ele, que parecia ser irresponsável, um inconsequente, o Macunaíma. O sociólogo Leite Lopes faz uma analogia interessante entre Garrincha e Pelé e as táticas militares: Garrincha é a emboscada, Pelé é a cavalaria ligeira. Na Copa seguinte, nova derrota, mas em 1970 vem a consolidação. Novamente, a história de Macunaíma. O herói, em lendas populares, tem que lutar três vezes para obter o triunfo. No caso da Copa, a taça Jules Rimet é a muiraquitã. Macunaíma ganha a muiraquitã e depois perde, roubam dele. O Brasil conseguiu ganhar a Copa mais desejada, invejada por todo mundo, e não foi capaz de guardá-la em si. Guardou a cópia da taça, expôs a original e aquilo foi roubado e derretido. É o ciclo macunaímico do futebol brasileiro.

Por que o Brasil demorou tanto a ganhar outra Copa?

Em 1974 já começa o chamado futebol pós-moderno, uma grande mudança. O Brasil demorou a entender esse negócio. Voltava a história de que o futebol-arte não vale mais nada, que tinha de ser o futebol-força, coletivista, mais atlético. Surge o carrossel holandês, uma loucura. É uma nova época, em que a tática ganha uma importância que não tinha antes. Zagallo e Coutinho haviam transformado a seleção em um time retranqueiro, de administração de resultados. É a modernização conservadora da ditadura em campo. Só em 1982, com Telê Santana, há a retomada do futebol atacante, criativo. O futebol brasileiro recupera sua identidade. Ocorre uma outra derrota, mas dessa vez sem a melancolia de 1950. E aí volta o Parreira em 1994 com aquela coisa defensiva, querendo deixar o Romário fora. O paradigma tecnocrático e o paradigma dialético macunaímico foram se batendo durante esse tempo todo. Em 1994 tínhamos um time que era um centauro com um aríete genial: o Romário, inventando gols do nada.

O que muda de 1994 para 1998?

1998 é a primeira Copa em que não existe nada que seja gratuito. Não há ninguém que não seja contratado por alguém. É a globalização do futebol. E ainda assim o futebol brasileiro revela, em 2006, Ronaldinho Gaúcho, Kaká, Robinho. O Brasil está pulsando, mandando sinais. E o Parreira novamente com a mentalidade retentiva. Ele não escala Robinho, um jogador ao mesmo tempo antigo e moderno, que faz o jogo andar, dá eletricidade. Houve a opção por dois centroavantes estáticos. A concepção de futebol do Parreira é pessimista, prosaica. Os jogadores foram acusados de serem mercenários. O Tostão diz que não: na verdade, eles foram muito comportados. Obedeceram demais ao técnico.

Ronaldo é um símbolo do apogeu das marcas?

O Ronaldo é o jogador mais importante desse momento da futebolização do mundo e da mercantilização sistemática do futebol. Num momento em que a Nike sacou que tinha que sair do basquete, apostou no Ronaldo. Na Copa de 1998, Zidane era representante da Adidas. E Brasil e França chegaram à final. Havia ali algo emblemático e sintomático: o grande embate extra-campo. A convulsão de Ronaldo é desses episódios de que só a literatura trata, porque não tem explicação. A cabeça do cara que é o número um entra em convulsão. Na final de 2006, vem à tona novamente a cabeça do número um, agora com Zidane. O número um não suporta a pressão e pira. O acontecimento mais significativo da Copa de 2006 é a cabeçada no zagueiro italiano. Não é um gol, uma jogada, mas a cabeçada. Isso diz mais daquela Copa do que qualquer jogo.



*Matéria publicada em junho de 2008

 

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