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Osvaldinho da Cuíca E-mail
Escrito por redação   

"Queremos a cuíca industrializada, que grita mais alto. É inevitável, irreversível."

Para celebrar o Dia Nacional do Samba (2 de dezembro), entrevistamos Osvaldo Barro, o Osvaldinho da Cuíca. Pesquisador do samba paulista, paulistano nascido em 1940, cresceu na época dos cordões e batuques. Presente em grandes momentos da música popular, seu trabalho como instrumentista, na preservação e difusão do samba de raiz, deu-lhe títulos como Primeiro Cidadão de São Paulo e Embaixador Nato do Samba Paulista. Atuou com Nelson Gonçalves, Ângela Maria, Adoniran Barbosa, Demônios da Garoa, Geraldo Filme, Germano Mathias, Ismael Silva, Nelson Cavaquinho, Cartola, Nelson Sargento, Zé Kéti, Elton Medeiros, Clementina de Jesus, Beth Carvalho, Ivone Lara, Toquinho e Vinicius, Paulinho da Viola, Martinho da Vila, João Nogueira, Zeca Pagodinho, Lecy Brandão, Eduardo Gudin, Gal Costa, Daniela Mercury. Recentemente, produziu o CD História do Samba Paulista, pelo selo CPC/UMES; e criou o Cordão Carnavalesco Saci, iniciando o projeto Samba Cidadão. Com mais de meio século de bagagem, Osvaldinho da Cuíca nos traz uma análise saborosa e esclarecedora sobre as transformações do samba, depois que "desceu" da Bahia, e passou a influenciar o gênero por todo o País.


Conte-nos a importância do samba em sua vida.
Nasci no Bom Retiro, na rua que nasceu Toquinho: Anhaia, antiga 123. Meu pai era descendente de italiano. Minha mãe, de cabocla do mato, de índio. Meus pais separaram quando eu tinha um ano. Ela foi ser empregada doméstica. Eu e minha irmã fomos morar com minha avó, perto de Mogi das Cruzes. Morei com ela até uns nove. Meu primeiro contato com a música foi com tribos de índios e negros vestidos de índios. Desfilavam no carnaval. Eu ficava fascinado. Minha avó fazia cateretê. Cantava músicas do interior, coisas fantásticas. Pegava duas colheres e punha no meio do dedo. Batia no joelho ou na lata. Eu aprendi.

Onde você começou carreira?
Na capital paulista, em 1949, montei um grupinho de batuque. Integrei o Cordão do Tucuruvi. Em 1957, comecei a acompanhar artistas. Na Rádio Victor Costa. Comecei acompanhando o Corisco, o Germano Mathias. Entrei para o Teatro Popular de Solano Trindade. Conheci Barbosa Lessa, que era gaúcho mas morava em São Paulo. Com Solano só cultura afro. Eu tocava bem percussão. Solava música no apito. O pessoal começou a me chamar de Osvaldinho da Cuíca e ficou.

Já ganhava dinheiro com isso?
Passava fome, mas vivia disso. Fui office-boy. Trabalhei no Banco Real. Mas fazia música paralelo e ia tocando. Quando fui engraxate, aprendi a batucar mais. De tanto pegar na graxa, limpar a mão do lado da caixa, ela fica lisinha e dá som de cuíca. Quando molha um pano para bater, ele estala: tchcatá, tchcatá. Onde tinha samba eu estava. Mas não podia tocar em qualquer lugar. Era proibido. Íamos presos todo final de semana. Juntávamos um grupo, saíamos pelas ruas. Entrávamos nos ônibus com surdo, instrumentos. Arranhávamos a roupa dos passageiros. Tinham medo da gente. Paravam no primeiro posto policial. Geralmente eu ficava na porta da gafieira no Tucuruvi, era jogo de bilhar. Conhecia batedor de carteira, malandragem, eram todos meus amigos.

Como foi participar dos Demônios da Garoa?
O Adoniran Barbosa era meu amigo, porque eu trabalhava na Record. Vinha o Jamelão, Risadinha, Blecaute. O Adoniran era contratado. Fomos gravar Mulher, Patrão e Cachaça. Me chamaram para pôr a cuíca. A música falava da cuíca rir, ela ria, falava dela chorar, ela chorava. Estourou no Brasil inteiro.

Quando você passou a se interessar pelo samba de São Paulo?
Quando José Ramos Tinhorão puxou minha orelha. Gravei pelo selo Marcus Pereira em 1974. Mas tive que gravar rápido. Tinhorão escreveu: Osvaldinho, apesar de ser um grande sambista, ritmista, enveredou para o caminho da mesmice. Não acrescentou nada à cultura paulistana, ao samba rural. Percebi que havia necessidade de fincar o pé no terreiro de São Paulo. Tinhorão tinha razão.

Como foi ir atrás do samba rural?
Primeiro, nas minhas lembranças. Onde ia por acaso nas batucadas mas não dava importância, achava que minha batucada carioca era melhor, refinada, com tamborins, cuíca. Eu gostava do estilo carioca, Herivelto Martins, Ataulfo Alves, Monsueto Menezes. A partir do puxão de orelha, comecei a prestar atenção e valorizar nossa questão regional. Procurar saber minhas origens. Em conversas com Geraldo Filme, Toniquinho Batuqueiro. Com os mais velhos. Onde aglutinava o negro, onde havia senzala.

Ocorreu um processo de sofisticação da batucada paulista?
O Vai-Vai estava mudando para escola de samba e ainda era um cordão batucada-pesada. Criei a ala de frigideira, tamborim, cuíca, ala de compositores, formei com todos os rituais e cerimônias do samba carioca. Já tinha trocado porta-estandarte por porta-bandeira; balizas pelo mestre-sala. Puxava samba com cavaquinho e pandeiro. Antes era no surdo, socado. Você era obrigado a acompanhar aquele ritmo de cordão. Tive participação em tudo que foi escola de samba. Não só compondo, como também batucando e levando um pouco dessa modalidade carioca.

Sabe-se que o samba nasceu na Bahia, foi para o Rio, que tem influência de Minas, ligação com São Paulo mais tarde. Como foi isso?
Primeira música brasileira é o lundu. Depois jongo, também em roda. Primeiro na Bahia, depois na descida para o Rio. E ele escapuliu. Não sou eu quem estou contando, é sabido e está escrito. O samba nasceu na Bahia, mas no Rio ele ganhou. O samba na Bahia é o que é o É o Tchan até hoje. A mesma levada. Passou a ter telecoteco. No violão, Noel Rosa já fazia levada mais moderna, e outros: Ismael Silva. Deu outro tempero. São Paulo é seis vezes maior que o Rio. O Rio acumulou tudo nos morros, no centro, nos terreiros. Em São Paulo, tinha fazendas de café, cana, Capivari, Tietê, Pirapora, Campinas, Jacareí. Hoje a cultura por lá é americana, country, música porcaria.

São Paulo é também mais rico. Tem cana-verde, um improviso de viola, pandeiro e cavaquinho, até sanfona. Tem todas essas danças impostas pelos jesuítas: folia-de-reis, festa do divino, que não veio totalmente de Portugal ou da África. São várias vertentes até chegar ao samba de bumbo. Não é zabumba, zabumba é nordestino. Bumbo é aquele largo que vinha das bandas, influência européia. O samba, principalmente campineiro, região forte, tinha muito negro ali, Capivari, cana, cafezais; em Pirapora, por causa da religiosidade, começou bem antes com Honorato Mice. Ele foi o criador do samba de bumbo lá. Supõe-se que seja mais ou menos há 100 anos. Porque a palavra samba já existia, mas não existia samba oficializado. O primeiro a fazer sucesso foi em 1914. Mário de Andrade já lamentava a transformação do samba de Pirapora há 80 anos.

Qual a raiz do samba de São Paulo?
Veio da zona rural, do interior. Dos negros, das plantações, e misturou com o caboclo.

O que separa o samba rural paulista do samba empurrado para os morros pelo prefeito Pereira Passos no Rio?
Totalmente diferentes. Por isso que eu, jovem ignorante, não gostava do nosso samba. Achava que o do Rio, que estava na mídia, era mais bonitinho. Vinha lá do Monsueto, Herivelto, com a camisa listadinha, chapéu de palha e dançando com um conjuntinho mais organizado. Era chamado também de escola de samba. Seis caras tocando e seis pastoras cantando e dançando. Já o nosso era aquele caipira, que o negro dançava com a cabeça para baixo, meio macumba, meio festa de São Benedito. Depois observei que a riqueza é muito grande. Em Pirapora, tinha verso da cana-verde no batuque. Nossa música era sertaneja, mas era considerada "o samba".

Qual o mais forte reduto?
Barra Funda, Largo da Banana. Pela concentração de negros que trabalhavam no Porto de Santos e aqui. Descarregavam e carregavam. Pegavam o trem para Santos. Era a Estação. Ficavam sentados em caixotes batucando e fazendo jogo de tiririca.

O que é tiririca?
Na linguagem tupi-guarani significa "mato que se espalha". A gente se espalhava no chão. Significava retrair. O cara jogava uma perna aqui e você caía retraído. Que nem capoeira angola. É uma dança disfarçada. Os dois contendores ficam dançando de frente, um olhando para o outro.

Isso é característica paulista?

Só tem relato de tiririca na cidade de São Paulo.

Por que não se vê mais?
Porque tudo foi substituído pelo samba carioca. São Paulo copiou totalmente.

A Vai-Vai foi a escola que incorporou o jeito de fazer do Rio?
Fundei o Cordão Ziriguidum, que tem o símbolo do saci, para devolver a identidade à São Paulo. Mas os primeiros retoques cariocas foi Nenê de Vila Matilde quem deu. Trouxe a bandeira, botou surdo de bateria. A primeira a manifestar enredo.

Trazer o pessoal do Rio acabou escondendo compositores daqui? Zé da Caixa, Xangô de Vila Maria?
Já estavam afastados. São Paulo nunca teve grandes compositores. Teve de MPB. De escola de samba teve Zeca da Casa Verde, Geraldo, Zé Dias, Carioca, Ideval, autor dos dois melhores sambas da Camisa Verde, antológicos. O Ideval é o único sobrevivente. Tem o Zeca, com a melodia que trouxe do interior, fazia guarânia, música sertaneja. E Geraldo Filme.

E o Henricão, o Pato Nágua?
O Henricão é a semente. Fundador do samba de São Paulo no Vai-Vai, em 1928, único compositor que conseguia projeção internacional [adaptou para samba a valsa mexicana Cielito Lindo, cantada até hoje nos estádios, nas despedidas]. Primeiro Rei Momo, ganhou prêmio em Sinhá Moça como ator, foi um artista completo. Assim como o Xangô da Vila Maria, que introduziu a macumba no teatro. O Pato Nágua nasceu no Bixiga. O nome era Walter Gomes de Oliveira. Ganhou o apelido porque nadava na lagoa. Veio para o Vai-Vai. Os concursos eram ganhos não pelo enredo e pela beleza estética, mas em disputa de bateria. O Pato Nágua ganhava todas. Foi o primeiro mestre-sala, puxador de samba, bom músico. As composições dele estão aí. Até gravei duas. Morreu no final dos anos 1970. Foi um dos maiores apitadores de bateria. Impunha ordem. Foi o maior líder de todos os tempos. Fazia grandes exibições no apito, batia em quem errasse. Nunca vi cara tão magro, era esquelético. Mas tinha uma estrutura óssea que, se encostasse nele, você se machucava, parecia ferro, parecia negro africano.

Quem faz samba paulista hoje? O disco de Geraldo Filme é boa referência?
O mais precioso está no grupo Cachuera. O CD Canto dos Escravos, do Geraldo Filme, é uma boa referência. Mas não tem o batuque de Pirapora. Não tem Morte de Chico Preto, que Clementina defendeu no Festival da Globo e é um verdadeiro samba paulista.

Você vê com bons olhos o movimento das periferias?
Vejo, mas falta muito. O Quinteto em Branco e Preto, o Samba da Vela, que saiu do Vai-Vai. Tem um grupo que é do Caçula. Vai ao Rio, estuda. Mas a imagem que têm é do samba de antigamente. O samba mais puro que já vi é do Espírito Santo. Lá tem aquela cuíca antiga. Não tem dinheiro, tudo feito à mão. Também está se acabando. O último lugar que fui ver samba autêntico foi Resende. Nunca vi tanto negro parecido com africano. O jongo lá é bom, bem puro. Está acabando. A televisão leva as novidades. O bumbo está com náilon. O samba de Pirapora foi distorcido. Vi há 30 anos o bacalhau, aquela varetinha de bater no bumbo. Isso é coisa de nordestino. O nosso aqui é na porrada, com a mão. Não pode mudar muito, senão vira tudo baião.

A que você atribui essa perda de referência?

Àquilo que aconteceu comigo: querer copiar o Rio, achar meu samba de caipira "feio". Queremos o náilon que bate mais forte, a cuíca industrializada, que grita mais alto. É inevitável, irreversível.

A ideia que se tem é que o Rio era capital, e a Rádio Nacional, rede de difusão. Nós ficamos fora. Os que não ficaram fora foram para lá.

Muito sambista paulistano se perdeu por falta disso, publicidade. Senão, teria sido projetado. É claro que não naquele estilo, mas em outra cultura, muito bonita. O samba de São Paulo cresceu pelo telhado, inchou. Não teve a estrutura cultural do Rio, dos terreiros e da religiosidade. Hoje ainda se vê a religiosidade. A porta-bandeira beija, respeita o pavilhão, tem que ter a cerimônia. São Paulo nunca teve essa cultura de religiosidade no samba. E o Rio também está perdendo isso. O sincretismo religioso é diferente. O do Rio é aquele baiano candomblé, com a influência que tanto está em Minas. Sofre influência do jesuíta, do português, com um dialeto que vem de Benguela. São Paulo teve sincretismo diferente, tanto da religiosidade dos padres de Pirapora, que sofreu o mesmo processo do Rio, como um pouco mais rica, do caboclo e outras vertentes, até de índio. Essa mistura deu numa outra cultura de samba. Somos tão ricos quanto o Rio, mas diferentes. O nosso samba tem que ser diferente. Mas infelizmente perdeu, porque a galinha do vizinho é mais gorda.
 

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