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Escrito por Bruno Hoffmann   

A alma do povo

Yes, Nós temos Banana, Pirata da Perna de Pau, Chiquita Bacana, Touradas em Madri... Sem essas canções, os carnavais populares não seriam a mesma coisa. O artista, porém, colocava o talento em outras atividades, como temas infantis e cinema. Além de ser o letrista de Carinhoso, uma das mais executadas músicas da história. Suas composições – entoadas por Carmen Miranda, foliões de Carnaval ou pelo Maracanã lotado – retratam a alma do povo, tanto na alegria quanto na desilusão.

Ele morreu em 24 de dezembro de 2006, às vésperas de completar 100 anos. Sobre o caixão, a bandeira verde-e-rosa da Mangueira. Num cartaz, os netos escreveram: “Pela estrada afora costumávamos ir juntinhos. Agora teremos que seguir sozinhos”, em alusão à canção de Chapeuzinho Vermelho, adaptada décadas antes pelo artista.

Prestes a iniciar o enterro, os presentes começaram a entoar: Meu coração / Não sei por quê / Bate feliz / Quando te vê... Foi a derradeira retribuição à personalidade que soube retratar o povo em sambas, marchinhas e choros clássicos, que teimam em não morrer no imaginário dos brasileiros.

Carlos Alberto Ferreira Braga nasceu em março de 1907 numa família carioca de classe média. Pouco depois, muda para o bairro de Vila Isabel, onde passa a adolescência ao lado de um tal Noel Rosa.

Começa a esboçar as primeiras composições aos 16 anos. O pai – que era gerente da fábrica de tecidos Confiança – não tinha confiança alguma no filho se tornar músico. Achava coisa de desocupado, vagabundo. Só fica orgulhoso quando Carlinhos, como a família o chamava, entra na faculdade de Arquitetura.

Mal sabia que o garoto largaria o estudo pouco tempo depois para se dedicar exclusivamente à carreira artística, mesmo sem conhecimento formal algum. Compunha no instinto, quase pelo assobio. Ao lado de Noel Rosa, Almirante, Henrique Brito e Alvinho, forma o Bando de Tangarás. Para despistar o pai, adota um pseudônimo: João de Barro. Ironicamente, o pássaro arquiteto. Faz pequenas apresentações com o grupo, enquanto ensaia voos próprios.

Carinhoso
Uma das primeiras marchinhas que compõe é Linda Lourinha, feita para o Carnaval de 1934. Era uma espécie de resposta a Linda Morena, de Lamartine Babo. O sucesso o empolga, e Braguinha começa a produzir quase em escala industrial. São dessa década As Pastorinhas (com Noel Rosa), Yes, Nós Temos Banana (com Alberto Ribeiro) e muitas outras. A criação mais notória, porém, é um choro-canção feito em 1937.

A cantora Heloísa Helena pergunta se Braguinha pode pôr letra num choro de Pixinguinha. O compositor aceita o desafio e, em apenas um dia, entrega a encomenda. A música? Carinhoso.

Na mesma época assume a direção artística da gravadora Columbia. Durante a carreira, ajuda a projetar nomes como Radamés Gnatalli, Tom Jobim, Lúcio Alves, Dick Farney, Doris Monteiro, Tito Madi e Jamelão.


Tourada no Maracanã

A década de 1940 também é frutífera – e em diversas áreas. Torna-se roteirista e assistente de direção em filmes da Cinédia. Dubla temas musicais para a Disney, em filmes como Pinóquio, Dumbo, Bambi e Branca de Neve e os Sete Anões. Escreve, adapta e compõe histórias infantis, entre as quais Chapeuzinho Vermelho e Os Três Porquinhos. Faz Copacabana, um hino de amor ao bairro carioca – Copacabana, princesinha do mar...

Passa a ser conhecido internacionalmente pela voz de Carmen Miranda. As marchinhas carnavalescas também não param: Pirata da Perna de Pau, Tem Gato na Tumba, A Mulata é a Tal, Chiquita Bacana. Um dos momentos mais emocionantes da vida se dá em 1950, quando o Brasil enfrenta a Espanha pela Copa do Mundo.

A seleção goleia os europeus por 6 a 1 no Maracanã e, ao fim do jogo, os torcedores formam um dos coros mais impressionantes já vistos num estádio de futebol. Os 200 mil presentes entoam, a plenos pulmões, a marchinha Tourada em Madri, dele e de Alberto Ribeiro: Eu fui às touradas em Madri / E quase não volto mais aqui / Pra ver Peri / Beijar Ceci...

Só uma pessoa não cantou: o próprio Braguinha. “Vendo aquilo, a única coisa que consegui foi chorar.”

Yes, nós temos Braguinha


No começo dos anos 1960 as marchinhas carnavalescas entram em declínio no mercado fonográfico. Mesmo assim, lança Garota de Saint-Tropez, com Jota Júnior, alcançando relativo sucesso.

Volta à cena em 1979, quando Gal Costa grava uma canção de quatro décadas atrás: Ô, balancê, balancê / Quero dançar com você / Entra na roda, morena pra ver / Ô balancê, balancê...

Uma das últimas consagrações ocorre em 1984, na inauguração do Sambódromo do Rio. A Mangueira desfila sob o tema Yes, Nós Temos Braguinha e torna-se campeã do Carnaval.

O artista passa os anos subsequentes recebendo homenagens, tanto pela obra quanto pelo seu jeito leve e bem-humorado. “A vida só gosta de quem gosta dela”, ensinou o autor de quase 500 canções.

SAIBA MAIS
Yes, Nós Temos Braguinha, de Jairo Severiano (Martins Fontes, 1987).

 

 

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