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Adoniran Barbosa E-mail
Escrito por João Rocha   

Ria e fazia rir da dor

"Mezzo" brasileiro, "mezzo" italiano, mudou de nome para cantar samba. Sintetizou como poucos os personagens do povo paulistano. Ria e fazia rir das dificuldades cotidianas. Deixou obra imortal.


O compositor que retratou São Paulo com mais propriedade não era paulistano, mas natural de Valinhos, então bairro de Campinas. Tampouco se chamava Adoniran Barbosa. Nasceu João Rubinato, em 1910. Os pais, imigrantes italianos, desembarcaram no porto de Santos em 1895.

João era o mais novo de sete filhos. Trabalhou desde cedo. Ajudou o pai a carregar vagões de carga da São Paulo Railway, entregou marmita, varreu fábrica, pintou parede, foi garçom.

A família chegou à capital em 1932. João arranjou emprego em loja de tecidos na Rua 25 de Março. Descobriu que no Largo da Misericórdia ficava o estúdio da Rádio Cruzeiro do Sul. Enturmou-se com artistas e radialistas. Em 1934, a emissora lançou programa dedicado a revelar talentos, Os Calouros do Rádio. João tenta a sorte. Mas como poderia o italianinho Rubinato fazer sucesso cantando samba? Abandona o nome de batismo. Adota Adoniran Barbosa, junção dos nomes de um de seus ídolos, o sambista carioca Luiz Barbosa, e de seu companheiro de boemia Adoniran Alves. Adoniran: senhor elevado, em hebraico.

No Calouros do Rádio, lutou para não levar gongo. Só foi aprovado quando cantou Filosofia, de Noel Rosa:

Hoje cantando neste mundo
Vivo escravo do meu samba
Muito embora vagabundo.


Italianinho vence carnaval Em 1934, ao lado de J. Aimberê, compõe a marchinha carnavalesca Dona Boa. Ganha o concurso organizado pela Prefeitura em 1935. Assina contrato com a Rádio São Paulo. Mas o carnaval acabou, foi dispensado. Tentou outras rádios, sem sucesso. Por anos se virou fazendo bicos. Em 1941, a Rádio Record o contratou. Foi se destacando como ator cômico. Construiu personagens memoráveis, como o moleque Barbosinha-Mal-Educado-Da-Silva, o motorista italiano Pernafina, o galã de cinema francês Jean Rubinet. A consagração como compositor viria em 1955, quando o conjunto Demônios da Garoa gravou Saudosa Maloca. Sucesso nacional. Surgia o programa de rádio História das Malocas, criado pelo parceiro e amigo Oswaldo Moles. Entre os personagens, Zé Conversa, que dizia: "Eu sô preto, sô brasileiro e passeio na Rua Direita quando quisé. Me batê ninguém vai!" O artista múltiplo se projetava. Passou a fazer filmes e telenovelas. Mesmo assim, não se sustentava. Armou picadeiros e lonas para apresentações na periferia da cidade.

Em todos os cantos
Em 1955, os Demônios lançaram Samba do Arnesto. E, depois, Vila Esperança, Um Samba no Bixiga, Pafunça, Malvina; e o maior sucesso do grupo e de Adoniran: Trem das Onze. Tornaram-se intérpretes fundamentais de sua obra e guardiões de um jeito de cantar samba legitimamente paulistano.

Muitos outros cantaram Adoriran. Elis, Gal, Clara Nunes, João Bosco. Levaram o samba, a gente e as cores de São Paulo para todo o Brasil. Perpetuaram paisagens e personagens que não poderiam ser criados em outro lugar, ou por outra pessoa.

Adoniran morreu em 23 de novembro de 1982, aos 73. Passou seus últimos anos construindo brinquedos com sucata recolhida nas ruas. Em suas mãos, o lixo virava arte. Assim como a vida humilde se transformava em poesia.

Deixou singular tradução da cidade em que viveu, cenário de 26 de suas músicas. A metrópole que "não pode parar", a "locomotiva do Brasil" ajustou seu ritmo para ouvir os excluídos. Personagens tragicômicos, como Adoniran. Alegorias, como ele, da dor transformada em riso.

SAIBA MAIS
Consulte a biografria Adoniran: Dá licença de Contar, de Ayrton Mugnaini Jr.
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