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Paulinho da Viola E-mail
Escrito por redação   

"Eu não vivo no passado, o passado vive em mim."



Carioca de Botafogo, nascido a 12 de novembro de 1942. O pai, violonista César Faria, integrava o conjunto Época de Ouro. Paulinho conviveu com Jacob do Bandolim, Pixinguinha e outros gênios. Na década de 1970, grava um disco a cada dois anos, ganha prêmios, se apresenta mundo afora. Na de 1990, "mais sofisticado e maduro" segundo a crítica, lança Bebadosamba, cd e show. Seu trabalho é visto como elo entre tradições como samba, carnaval e choro, sem falar nas composições para violão e peças de vanguarda. Herdeiro de Cartola, Candeia, Nelson Cavaquinho, está sempre se renovando sem abandonar seus princípios, suas raízes.

*Entrevistadores: Arley Pereira (convidado), Elifas Andreato, Janaina Abreu e João Rocha. Fotos: Manoel Marques

Você diz que não sente saudade de nada. É verdade isso?

As pessoas confundem saudade com saudosismo. Reconheço que existe a saudade. Há um tempo, fui abordado por uma senhora que havia visto meu filme. Ela tinha acabado de perder uma pessoa por quem tinha um carinho especial e estava arrasada. Queria saber como era possível eu não sentir saudade de nada. Não sinto saudade por uma razão simples: tudo o que a gente vive, o que a gente já viveu, está em nós.

Você sente falta de sua avó?
Não, e foi uma das pessoas que mais amei. É como se ela estivesse presente. Todas as pessoas com as quais me relacionei, e foram preciosas, estão presentes. Vale também para música. A vida é isso. É tudo com o que você se relacionou, o que você leu, viu, ouviu. Isso não é idéia ou teoria, é uma coisa que sinto.
Quando ouço Pixinguinha, Carinhoso, sei que a música foi feita em 1917, que a história era outra, a vida. De lá para cá aconteceu um milhão de coisas. Mas a música é viva. Transportando isso para a cultura, não importa se determinada obra foi feita num período x, que teve contribuição num movimento y, depois uma reação z. Isso é para conhecermos um pouco da história. Mas não tem valor grande para mim. Tudo para mim é agora. O que não tem importância, não só para mim, mas para a humanidade, desaparece. Morre, é abandonado.

Como foi fazer Sinal Fechado? Tem o reconhecimento de sua importância até hoje.
Quando fiz Sinal Fechado, não pensava na importância que poderia ter para aquele momento ou para o futuro. Não tinha a pretensão de que atravessasse décadas e entrasse para a história como divisor de águas. A música foi feita num período da minha vida que parecia meio nebuloso, como se eu estivesse num sonho. A gente estava vivendo um momento difícil, mas não pensava em fazer música de protesto. Só algum tempo depois fui convencido que Sinal Fechado só poderia ter surgido naquele momento.
Havia muita dificuldade das pessoas falarem. Viviam angustiadas, sentindo aquela pressão enorme. Era uma coisa tão pesada, como se as pessoas não tivessem consciência do que estava por vir e do que estava acontecendo. Na música acontecia o Tropicalismo, que sacudiu muita coisa. Havia discussão. Havia o pessoal ligado à música mais tradicional, que abominava aquilo, que achava uma alienação. E havia o outro lado, que propunha um rompimento, questionando uma série de valores. Isso tudo no bojo de um processo político muito difícil.
Como isso pôde resultar numa música? Para mim, virou uma coisa simples: a impossibilidade de duas pessoas conversarem. Me lembro de como a música surgiu. O cenário era o Monumento dos Pracinhas, por onde passei muito, desde menino. Aquele lugar sempre foi especial para mim. Sempre achei aquilo muito bonito. Tinha a sensação de que estava num ônibus lotado. Eu via uma pessoa na frente e precisava falar com ela, e ela queria falar comigo. Mas não podia, porque o ônibus estava cheio. A pessoa descia e eu, desesperado, não conseguia falar. Ela me dava um adeus e o ônibus partia. Essa imagem ficou tão forte que me ensejou a escrever. E depois evoluiu para a ideia das pessoas se encontrando num sinal de trânsito.

O sinal surgiu como metáfora do tempo em que vivíamos.
Talvez, mas não tinha essa consciência. Foi uma coisa meio instintiva. Era uma angústia que se traduziu na letra. Tanto que, quando comecei, tinha forma de samba-canção. Mas eu queria uma coisa mais áspera. E para isso, fiz uma seqüência de acordes com certa dissonância, algumas inversões, usando o violão e fazendo arpejos - acordes pouco usados no meu trabalho.

Você está satisfeito com sua obra?
Não. E esse é um sentimento que muitos artistas têm. Tem músicas que ouço e acho que não mexeria. Mas em muitas acho que há coisas não resolvidas. Isso me angustiava. Sou muito crítico. Fico mexendo nas músicas, quero mudar tudo. Já tentei fazer um trabalho e ir para o estúdio com ele pronto, ou então entregar para um músico e dizer: Faz os arranjos que eu só quero cantar. Isso seria a glória, mas não consegui. Vou mexendo, até o momento que não dá mais. E aí o disco tem que sair.

Isso é perfeccionismo? Não é perfeccionismo. Não há obra perfeita. Muitos artistas têm consciência da sua impossibilidade, da insuficiência, da fraqueza. Pode ser que existam alguns que tenham enorme prazer em ficar remoendo. Eu não faço isso, primeiro porque é muito angustiante. Não é prazeroso.

Você tornou-se uma pessoa mais exigente?
Um pouquinho, mas ao mesmo tempo reconhecendo que é preciso deixar as coisas surgirem naturalmente.

Qual a música que mais lhe satisfaz?
Tem algumas, talvez pela simplicidade. Coisas do Mundo, Minha Nêga. Gosto muito desse samba. E acho que está bem resolvido. Como se fosse uma obra de um menestrel. Como se fosse um cordel, que vai contando uma história, fazendo uma declaração de amor, e ao mesmo tempo um reconhecimento dessa incapacidade. Isso está muito dentro do meu trabalho. E não é por nada, é porque sinto as coisas assim. Sinto muito, muito e vou ficando mais velho e sentindo mais a nossa fragilidade. Mas isso não está só no meu trabalho, está no trabalho de todo o mundo.
Outro dia me perguntaram qual foi a lição do Cartola. É a lição que todos vão deixando de certa maneira. A música O Mundo É Um Moinho é uma lição, um dever de casa que o professor passou. Claro que não é igual para todo o mundo, mas todos têm o próprio Cartola dentro de si: "Todos têm seu drama, só não sofre quem não ama." Não sei se isso é verdade, mas não deixa de ser um toque. Não sou cético. Tenho fé, esperança. A vida é uma coisa maravilhosa, apesar de tudo. Tenho uma fé enorme na vida e acho que vale a pena.

Muitos compositores e cantores, de qualidade inferior, estão ricos. E você não está. Isso lhe incomoda?
Não, absolutamente. Com toda a sinceridade do meu coração, fico feliz com a riqueza das pessoas, o sucesso. O que me entristece é a fragilidade, que muitas vezes não nos permite resolver questões simples. Você amadurece, luta e às vezes tem obrigação de chegar a um filho, a uma pessoa menos experiente, e dizer "cuidado com isso ou com aquilo". E às vezes isso não tem nenhuma importância. Principalmente nos tempos de hoje, que todo o mundo acha que já sabe tudo. E parece que já nasce sabendo. Também já tive a sensação que sabia tudo.

Quais suas primeiras lembranças de carnaval?
Quando era menino, com 10, 12 anos, não ia muito ao centro. Primeiro porque o carnaval nos bairros era muito forte. No meu, Botafogo, era fortíssimo. Fechavam a Rua Arnaldo Quintela e até escolas de samba desfilavam. O concurso do melhor coreto, em Campinho, bairrozinho em Jacarepaguá, perto de Cascadura, Madureira, perto da Praça Seca, pracinha pequena, mas que muitas vezes ganhou o carnaval. E tínhamos um bloco ali, na Vila Valqueire. Eu brincava muito no subúrbio, quando descobri a coisa prazerosa que era o carnaval. Minha tia morava numa rua de terra, em frente havia um terreno, quarteirão imenso. Então, para um garoto, aquela terra...

Você tem uma relação grande com o mar.
O mar para mim é uma grande metáfora. Tinha prazer de ir a praia, com meu pai. Gostava da água, mas gostava de ficar olhando. Algumas vezes fui sozinho, já adulto, para ficar olhando.
Pensava: o mar tem essa coisa da linha do horizonte, mas tem muita coisa que está no fundo e que a gente não sabe. Você vê em cima, uns barquinhos, às vezes está agitado, outras, calmo, mas o que está embaixo? Tem gente que precisa estar sempre no mar. Sou mais terra.

Em sua obra, a solidão é uma constante.
Talvez o samba mais bonito que escutei sobre solidão é Solidão, do Argemiro Patrocínio. Me impressionou muito. É uma maravilha. De uma precisão e de uma síntese do que é realmente a solidão.
Mas nós, autores populares, muitas vezes cometemos imprecisões. Se você perguntar para as pessoas o que é solidão, cada um vai armar uma historinha para tentar lhe dar a dimensão de algo que, muitas vezes, a pessoa nunca sentiu.
Não sou um ser solitário. Mas uma coisa que me fascinava no mundo do samba eram aqueles personagens que ficavam sozinhos. Vi muito gente cantando, bebendo, e alguns sempre sozinhos. Gosto muito de pessoas, de gente, sua diversidade. Procuro sempre observar, como exercício de vida, tentando tirar qualquer tipo de preconceito que possa ter. É um exercício que faço há muito tempo. Observava muito gente que ficava encostada, não dizia palavra, ouvindo, de olhos fechados. Esses seres silenciosos me fascinavam. Ficava pensando o que aquele sujeito estava sentindo, todo o mundo cantando, bebendo, e o sujeito ali no canto.
Fiz o samba 21 [Um Certo Dia para 21] assim, observando um cara, na Portela. Claro que tem um pouco da fantasia, mas é o resultado de observar. A gente devolve isso um pouco como cronista. Você quer ter um pouco essa pretensão, porque se sensibiliza com coisas que outros não estão muito ligados. Tudo isso talvez vai sensibilizando e fazendo com que você tenha um sentimento maior que essa carência nossa toda. Que já não é uma coisa pessoal, de um, de outro, que eu reconheço que é uma coisa humana, que pertence a todos. Por isso acho que a imprecisão do autor é falar na solidão. Para mim existem graus de solidão. A solidão absoluta não deve existir. Deve existir uma solidão terrível. Absoluta não, porque acho que o sujeito não suportaria.

No filme Partido Alto, do Leon Hirszman, de 1976, você colabora. O que chama atenção, já naquela época, é que você tão jovem era chamado de padrinho pelo pessoal da Velha Guarda da Portela, todos mestres. Como começou essa relação?
Em 1969, eu já era da ala de compositores da Portela. O pessoal da antiga estava um pouco afastado do dia-a-dia da escola. Alguns iam lá, mas não faziam mais sambas para a escola. Era o pessoal dos anos 1940, 1950. Alguns mais antigos costumavam se reunir aos domingos no bar do Nozinho. Como tocava violão, foi fácil me aproximar de alguns. Conheci figuras que eram lendas: Manacéa, Paulo Alvaiade, Candeia, Ventura, Caetano, João da Gente. Fiquei fascinado.
Naquela época, eu tinha um time que se reunia todo domingo para jogar. Jogava o João Araújo, pai do Cazuza. Um dia, no vestiário, ele comentou que tinha virado diretor musical da RGE e, se eu tivesse alguma ideia, para procurá-lo. Na hora, me veio na cabeça gravar o pessoal antigo. Aquilo tinha que ser registrado. João topou.
Saiu O Passado de Glória, primeiro disco da Velha Guarda da Portela, em 1970. Foi legal, porque a partir daí a Velha Guarda se juntou. Levei o grupo para vários lugares. Eu os apresentava, explicava a importância de cada um. Acabei virando padrinho deles.

Em 2003, você foi personalidade de destaque, graças ao filme Paulinho da Viola - Meu Tempo É Hoje.
Num encontro com João Salles [cineasta], disse que por essa relação com as coisas mais antigas da música popular - choro, samba - algumas vezes eu era tido como tradicionalista, conservador, agarrado ao passado. E saiu a frase: "Eu não vivo no passado, o passado é uma coisa viva em mim." Que depois foi reduzida a: "Eu não vivo no passado, o passado vive em mim."
João Salles interrompeu: "Não precisa dizer mais nada. O filme é isso."
papo_cabecapapo_cabecapapo_cabeca
 

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