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Radamés Gnatalli E-mail
Escrito por Bruno Hoffmann   

O arquiteto da música

Foi um dos mais respeitados maestros do País. Transitava entre a música erudita e a popular com a mesma facilidade com que produzia arranjos. Descobriu e incentivou novos talentos (alguns, porém, tremiam a sua frente). E, mesmo com mais de sete décadas dedicadas à música, dizia-se incapaz de defini-la. “É uma arquitetura de sons que não dá pra explicar.”

O pai, italiano, tocava piano, bandolim e contrabaixo. A mãe, gaúcha, era virtuose ao piano. A paixão do casal pela ópera e pela música clássica era tanta que batizaram os três filhos com nomes de personagens de Verdi: Ernâni, Aída e o nosso ilustre brasileiro, Radamés.

Nascido em janeiro de 1906, em Porto Alegre, mostrou propensão aos instrumentos musicais desde bem pequeno. Com apenas 6 anos já estudava piano e violino com a mãe. Aos 9, conquistou o primeiro prêmio, concedido pelo cônsul da Itália, após fazer os arranjos e reger uma orquestra infantil.

Na juventude entrou para o Conservatório de Porto Alegre. Dava aulas particulares e acompanhava ao piano filmes mudos no Cine Colombo. Também enveredou pela música popular, em rodas de boêmios e sambistas. Diante da impossibilidade de levar o nobre piano, empunhava o plebeu cavaquinho.

Em 1924, apresentou-se no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Na partitura, um concerto de Tchaikovski. Viola em mãos, criou o Quarteto Henrique Oswald, com o qual viajava pelo interior gaúcho tocando Mozart e outros clássicos. Definiu esse momento como fundamental para a carreira. “Foi um período importante. O grupo de cordas é a base da sinfônica. Quem sabe trabalhar com ele sabe usar a orquestra.”


Nove arranjos por dia
Radamés voltou ao Rio – de forma definitiva – no início dos anos 1930. Na cidade, estreou como compositor ao apresentar Rapsódia Brasileira, interpretada pela pianista Dora Bevilacqua. Mas, com dificuldades financeiras, passou a trabalhar com música popular em orquestras que animavam bailes e programas de rádio.

Em 1936, torna-se o regente da recém-inaugurada Rádio Nacional, cargo que ocuparia ao longo dos 30 anos seguintes. Os arranjos para os diversos programas eram criados num ritmo alucinante. Foram mais de seis mil durante as três décadas. Somente para o programa Um Milhão de Melodias, transmitido a partir dos anos 1940, chegou a montar nove arranjos diferentes num único dia. Era considerado o melhor arranjador do País. Conquistou prestígio entre o público e personalidades da cultura nacional. Mário de Andrade o definiu: “Apesar da mocidade, já domina a orquestra como raros entre nós. É a maior promessa do momento”.

Em 1954, havia um programa chamado Quando os Maestros se Encontram, dedicado a descobrir novos talentos. Entre os participantes, um promissor jovem de 27 anos, que confessou ter tremido de nervoso quando sentou-se ao lado do maestro veterano.

Não era à toa. Radamés tinha um temperamento difícil. Avesso a homenagens, às vezes se irritava com os inúmeros pedidos de entrevistas que, para ele, não passavam de falta de assunto da imprensa. Era também impiedoso com quem considerava mau músico. Num certo dia, perguntado sobre a possibilidade de reorgarnizar uma orquestra numa pequena cidade, respondeu: “Claro que sim. Basta mudar todos os músicos”.


Descobridor de talentos

A partir de 1967 trabalhou como arranjador e regente da TV Globo, emissora na qual ficaria até 1986. Durante os anos 1970 – além de várias composições para violão e piano –, voltou a investir na descoberta de jovens instrumentistas. Entre os achados, Raphael Rabello, Mauricio Carrilho e Joel Nascimento, integrantes do grupo Camerata Carioca.

Mesmo com mais de 70 anos, quase todos dedicados à música, confessava ter dificuldade de definir seu ofício. “Música é o maior mistério que existe. Não dá pra explicar com palavras. E assim é a composição musical. É uma arquitetura de sons, como numa sinfonia. Não dá pra explicar. Só ouvindo para entender.”

Em janeiro de 1983, recebeu o Prêmio Shell na categoria de música erudita. Foi uma das últimas homenagens em vida. Em 1986, sofreu um derrame que deixou o lado direito do corpo paralisado. Dois anos depois, um novo derrame. Morreu em 13 de fevereiro de 1988.

Entre os que não o esqueceram, estava aquele jovem – já um músico consagrado – que tremera diante dele em 1954. Cinco anos após sua morte, dedicou-lhe um poema: Quero homenagear o meu amigo e falar da minha saudade / Meu amigo Radamés é coisa melhor que tem / É um dia de sol na floresta, é a graça de querer bem / Radamés é água alta, é fonte que nunca seca / É cachoeira de amor, é chorão [...] Alô Radamés, te ligo / Aqui fala o Tom Jobim / Vamos tomar um chope / Te apanho na mesma esquina / Já comprei o amendoim...


SAIBA MAIS

Centenário de Radamés Gnatalli
, com dois CDs, lançado pela InterCD em 2006.
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