A Revista | Assine já! | Edições Anteriores | Expediente | Contatos
:: Seções
:: Busca

Procure pelo site:


Todas as palavras
Qualquer palavra
Frase inteira

Apoio cultural:


109 - Maio de 2008

COQUEIRO-DA-BAHIA - Cocos nucifera

Palmácea benfazeja

Por Mylton Severiano

Além de rico alimento, a Cocos nucifera fornece matéria-prima para óleo, sabão, cosmético, escova, capacho, corda, estofado, bijuteria, tecido para sacos. Substitui o xaxim. Este coqueiro veio do oriente, mas nos damos tão bem que é como se fosse nosso.

Na minha terra natal, meio século atrás, coco não faltava; e olhe que Marília, ainda “cidade menina”, crescia mais de 2.500 quilômetros ao sul dos coqueirais nordestinos. Mas naquela terra de migrantes, boa parte vindos do Nordeste, tinha que ter coco. Em casa, ele aparecia na tapioca, nos ensopados de peixes e frutos do mar, no manjar branco, na cocada, no quindim. Meu pai, vereador comunista, era alagoano e, com ele, minha mãe italiana tinha aprendido a preparar vários pratos da culinária nordestina. Assim, quando Jorge Amado apareceu na cidade em 1954, candidato do Partido Comunista a deputado federal, os companheiros o recepcionaram levando- o para almoçar em nossa casa o famoso “camarão com leite de coco da dona Julieta”. Não era o leite de coco que hoje você compra envasado. Minha mãe ralava a polpa do coco maduro, enrolava num pano de prato, ia torcendo as duas pontas e recolhendo o leite numa vasilha. Era outro gosto! Depois do escritor baiano se regalar e acordar da sesta, autografou os oito livros dele que eu tinha. Devo agradecer a feliz lembrança também aos antepassados africanos e portugueses que para cá trouxeram a palmácea, já no século 16. Há evidências históricas de que matrizes deste coqueiro chegaram em navios negreiros portugueses em 1553, vindos de Cabo Verde, arquipélago da costa noroeste da África, ao largo do Senegal. Estudiosos afi rmam que seu berço é o sudeste da Ásia, especialmente as ilhas entre os oceanos Índico e Pacífi co. De lá o levaram para o leste da África; e, depois que o navegador Bartolomeu Dias descobriu o cabo da Boa Esperança, em 1487, o coqueiro vem para o oeste africano. É daí, então, que segue para os nossos trópicos. Deu-se bem no litoral nordestino, principalmente baiano, daí que o chamem coco-da-bahia ou coqueiro-da-bahia. E tão bem se deu, que muito brasileiro acha que é nosso. Mas nessa terra em que se plantando tudo dá, é como se fosse nosso mesmo. Não é só gente que, aqui recebida de braços abertos, tão à vontade fi ca que acaba se sentindo em casa. Em nosso segundo hino nacional, Aquarela do Brasil, Ary Barroso sacramenta-o em seus versos: Ô, esse coqueiro que dá coco, Oi onde eu armo a minha rede Nas noites claras de luar, Brasil... Brasil.

Verde ou maduro?

Sempre me perguntei se a água que gostosamente mata a sede vem do mesmo coco que se rala. Explica meu consultor para assuntos baianos, José Frazão (ver Cacau, ALMANAQUE de julho/2007): a água vendida vem mais do coqueiro anão, aqui introduzido na primeira metade do século 20. Chega aos quatro metros e seu coco verde fornece a água e a fi na polpa que se come de colher. Quando amadurece, diz Frazão, o pé em geral não segura a penca. Os cocos caem, inaproveitáveis. Já o coqueiro-da-bahia, com cinco séculos de Brasil, que sobe a 30 metros, além da água do fruto quando verde, dá o coco maduro, da casca marrom. Com este é que preparamos delícias como moqueca, arroz- de-coco, cuscuz. Frazão ensina: pela cor da palha em cima da penca, o nordestino é capaz de distinguir o coco pururuca, maduro mas ainda tenro, com o qual se faz a cocada mais macia. Para saber se o coco maduro está bom, bata com uma moeda na casca. Se o som for oco, a água já minguou e azedou, a polpa está rançosa. Dispense. Se for estridente, pode levar.

O que é que o fruto tem

Tem proteínas, gorduras, ferro, vitaminas A, B e C. A água, rica em sais minerais e potássio, combate desidratação, diarréia, artrite, cistite, úlcera gástrica, inchaço nas pernas. Evita colesterol, pressão alta. Não faz mal aos diabéticos. A polpa, fortifi cante, cura anemia. Boa para digestão e funcionamento do intestino. Estimula a tireóide e acelera o metabolismo. Fortalece músculos e gengivas. O povo usa o chá da casca como diurético, vermífugo; contra doenças respiratórias, febre e enjôo na gravidez.

Com leite de coco, come-se areia

Câmara Cascudo sintetiza, com o ditado acima, a veneração do nordestino pelo leite de coco. Anota que, das várias regiões africanas, cada um trouxe um uso: no leste, faziam arroz-de-coco; em Moçambique, punham o leite na comida; no norte, passavam o óleo no cabelo; em Quelimane, fabricavam azeite “para luzes”. Aqui o coqueiro “fornece iluminação, casa, alimento, traje, vasilhagem, embarcação”. Tal que, conclui o mestre, a Cocos nucifera não teve noutras partes “a repercussão utilitária que teria na Terra de Santa Cruz”

SAIBA MAIS História da Alimentação no Brasil, de Luís da Câmara Cascudo (Global, 2004).

 

:: Novidades


Fique sabendo das atualizações do site e das novas edições da revista Almanaque Brasil. Digite seu e-mail aqui:


:: Enquete