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109 - Maio de 2008

Cachoeira

Rouquidão da história

Texto e fotos de Heitor e Silvia Reali


O RIO DIVIDE E ESPELHA AS DUAS CIDADES IRMÃS, UMA EM CADA MARGEM – CACHOEIRA E SÃO FÉLIX.

É de sopetão que invade o encantamento. Assim, zaap! A magia reside na localização de Cachoeira, ponto fi nal das águas navegáveis do rio Paraguaçu. Logo adiante ele vai cabriolar em cachoeiras, fazendo jus ao nome do lugar. O rio divide e espelha as duas cidades irmãs, uma em cada margem – Cachoeira e São Félix. O Paraguaçu ainda duplica as colinas que envolvem os povoados. Estes foram se espraiando lado a lado das águas ou se encarapitando nas encostas de contornos suaves. Cachoeira situase no Recôncavo Baiano, a 116 quilômetros de Salvador. Os índios foram os primeiros a sentir a energia do lugar. Os colonizadores mandaram os índios para os quintos e se apoderaram daquelas terras, ideais para o cultivo da cana-deaçúcar. Riachos próximos serviam para trazer a cana da roça para os engenhos, e de lá o açúcar chegava com rapidez a Salvador pelo Paraguaçu. Assim surgiu a aldeota que em pouco tempo foi elevada a Vila de Nossa Senhora do Rosário do Porto da Cachoeira de Paraguaçu.

Nos séculos 18 e 19, graças à sua excelente posição, a cidade foi uma espécie de empório para todo o Recôncavo. De suas margens partiam barcos lotados de produtos da região, como fumo, açúcar e couro, além do ouro em pó e do algodão de Minas. Cachoeira se embelezou. Em um documento de 1810, lê-se: “A vila cresceu a um ponto tal que não será fácil encontrar-se outra, em todo reino do Brasil, que a iguale em comércio, riqueza e população”.

Acervo único


NA IGREJA DO CARMO, ORNAMENTOS DOURADOS, MOTIVOS ORIENTAIS E ESCULTURAS FORMAM CONJUNTO ÚNICO DO ACERVO BRASILEIRO.

O convento e a igreja do Carmo foram erguidos em 1773, tanto para servir seus moradores, quanto para evangelizar os índios e acolher os “devotos pretos”. Sua imponente fachada em estilo barroco possui acabamentos como tocheiros e “cristado de chamas” em estilo rococó. O conjunto abrigou a Irmandade do Senhor da Paciência e batalhões de voluntários da Pátria, em trânsito para a Guerra do Paraguai. Já a Ordem Terceira do Carmo era uma associação religiosa de leigos que praticavam atos de caridade. Mas somente pessoas de “qualidade comprovada” podiam pertencer a ela. Em seu interior, um extraordinário labirinto de ornatos dourados recobre o altar-mor. Na sacristia existe ainda um singular armário, todo pintado com motivos orientais, que abriga esculturas da Paixão de Cristo. As imagens em madeira policromada, que retratam o sofrimento do Senhor, possuem rostos com olhos puxados. São tidas como únicas no acervo sacro brasileiro.

Espanto merecido

Por toda a cidade pontilham imponentes sobrados residenciais, a Casa de Câmara, a cadeia e um pelourinho. Por todo esse esplendor, Pedro I se referia à cidade como a “Nobre Cidade do Paraguaçu”. Atendendo aos apelos do povo, conta-se que o imperador deu um jeito para que uma ponte de ferro fabricada na InGlaterra, e pronta para seguir para o Nilo, fosse desviada para Cachoeira, pondo fi m aos desastres que ocorriam em épocas de cheias do rio. Apesar de generoso, o Paraguaçu quase destruiu a cidade, com suas enchentes que ocasionavam ainda cólera e febre amarela. Em 1980 fi nalmente começou a ser construída uma barragem. Mas o fator decisivo da decadência de Cachoeira foi a abertura de rodovias, deixando o porto em segundo plano. Trate de se espantar caso esteja ouvindo falar pela primeira vez dessa cidade. Tombada em 1971 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), ela é tida como o segundo maior conjunto arquitetônico e histórico preservado do Brasil, depois apenas de Ouro Preto. Com a criação da Universidade do Recôncavo, que ocupará as antigas instalações da Fábrica de Charutos Leite Alves, Cachoeira espera ver renascer seu espírito cultural. E novamente será muito difícil “encontrar outra que a iguale em todo o reino do Brasil”.

CACHOEIRA TEM MAIS

Capela Nossa Senhora da Ajuda

A ermida, que foi a primeira construção de cal e pedra de Cachoeira, possui características medievais. Em sua entrada, um inusitado alpendre apoiado em colunas. Durante as recentes obras de restauro, foram encontrados vestígios de pinturas sobre pedras, uma raridade encoberta por camadas de tinta a óleo.

Casa de Ana Nery

Ana Justina Ferreira Nery, a heroína baiana que serviu como enfermeira na Guerra do Paraguai, nasceu em 1814 em um belo sobrado de esquina, que em breve servirá de sede para seu memorial. Ele tem uma característica que o diferencia das outras edifi cações da cidade: o andar tErreo, geralmente utilizado para o comércio, era ocupado como residência, com dois acessos independentes

Companhia Brasileira de Charutos Dannemann

Localizada de frente para as águas do rio Paraguaçu, na cidade de São Félix, a fábrica conserva suas amplas instalações, onde ainda hoje dezenas de mulheres enrolam a mão, com zelo e delicadeza, os charutos e cigarrilhas feitos com fumo brasileiro, de excelente reputação no mercado europeu. O imóvel também abriga o Centro Cultural Dannemann, que apóia e divulga artistas locais.

Preste Atenção

Signifi cativas edifi cações de Cachoeira já foram restauradas pelo Programa Monumenta, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. No entanto, ainda resta muito trabalho a ser feito. Ao todo, são cerca de 1.200 imóveis tombados. Vale caminhar pelas ruas e reparar nos detalhes arquitetônicos dos imóveis enegrecidos pela umidade. Muitos estão em ruínas, como os casarões do Quarteirão Leite Alves, onde será instalada a Universidade do Recôncavo e o Cineteatro.

Não deixe de ver

Estando na região, não dá para não visitar a Fundação Hansen Bahia. Karl Heinz Hansen nasceu em Hamburgo, na Alemanha, em 1915. Foi marinheiro, escultor e combatente na Segunda Guerra Mundial. Chegou à Bahia em 1955, terra em que fez renascer o artista que as lembranças da guerra quase mataram. Como prova dessa aliança, a uniu a seu nome para sempre: Hansen Bahia. No alto da ladeira de Santa Bárbara, sombreada por centenárias mangueiras, se localiza sua casa/ateliê, com prensas, objetos pessoais e o acervo de 13 mil xilogravuras, doados pelo artista a São Félix e a Cachoeira. Entre as gravuras com múltiplos grafi smos, se destaca a série de cangaceiros, unidos como unha e carne a seus cavalos, que lembram delgados centauros.

Prata da Casa

Aiyê Orun


UNIFORMIZADAS, AS MULHERES HOMENAGEIAM NOSSA SENHORA DA BOA MORTE.

A Irmandade da Boa Morte, uma das mais ricas manifestações culturais do País, reúne religião, música e culinária. Era uma sociedade secreta, fundada por mulheres negras em 1820. Provavelmente foi a primeira agremiação feminista do Brasil. A festa da Nossa Senhora da Boa Morte, que remonta 200 anos, é uma cerimônia em que se fundem história e magia. Muitos de seus princípios permanecem imutáveis, como o de somente participarem da confraria mulheres descendentes de escravas e com mais de 40 anos. O culto a Nossa Senhora da Boa Morte, no qual se realiza o enterro da Virgem, era uma devoção dos portugueses, apropriada pelos escravos africanos. Era uma forma de esconder o movimento abolicionista criado por mucamas alforriadas, conhecidas como negras do partido alto. Elas vendiam quitutes nas ruas para comprar a carta de alforria de seus fi lhos, irmãos e maridos, além de dar proteção aos fugitivos. A celebração, composta de procissões, missas, vigílias noturnas, ceias e samba-de-roda, é realizada desde o início do movimento abolicionista. Todo dia 13 de agosto, em Cachoeira, tem início um cortejo que anuncia a morte de Maria. As irmãs se vestem de branco – símbolo de luto na cultura africana – e usam contas singelas. Mais tarde, oferecem a Ceia Branca, composta de pão, vinho e peixe. No dia seguinte, vão às ruas anunciar o enterro. Usam suas melhores roupas: saias rodadas e, nos ombros, carregam panos conhecidos como da costa ou beca – em cada face, uma cor: vermelho e preto. Na cabeça, um lenço e, sobre ele, o bioco, que é para lembrar os negros da religião muçulmana. Nos pés, calçam uma espécie de chinelo, os chagrins. No dia 15 uma alvorada de fogos anuncia a Ascensão de Nossa Senhora ao céu. As irmãs se vestem com toda pompa. Usam muitos e longos colares, anéis e pulseiras. E tratam de oferecer uma feijoada, lembrança da comida dos negros nas senzalas. No dia 16, tem cozido e sambade- roda. E para fi nalizar, no último dia de festa se aplaca a fome com caruru, feito com quiabo, camarão, gengibre, castanha e muito azeite de dendê. No encerramento da festa, as irmãs se recolhem em uma cerimônia privativa. Ao preservar a cultura dos ancestrais, estabelecem o elo entre Orun (o céu) e Aiyê (a terra).

SERVIÇO

Como chegar

A TAM oferece vôos diários para Maceió, partindo das principais cidades brasileiras. Confira em www.tam.com.br

Onde ficar

Pousada Paraguaçu Localizada na margem do rio, em São Félix. Tel.: (75) 3438-3369. Pousada La Barca Localizada num casarão histórico em Cachoeira. Tel.: (75) 3425-1070.

Onde comer

Restaurante Rabuni A comida é servida em sistema de buffet. O lucro mantém a creche de Cachoeira. Tel.: (75) 3425-3178. Restaurante Ferroviário Localizado em São Félix, ao lado da Igreja dos Passos, serve pratos da culinária baiana, como maniçoba, feijoada e moqueca.

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