CARNAVAL

Histórias tocantes, chocantes, deslumbrantes

{fevereiro de 2006}

A maior festa brasileira reflete nossa riqueza multicultural, como gigantesca e colorida colcha de retalhos. Muitas histórias celebram a alegria de viver e o direito de, todo ano, cair na farra.

A FLOR E A PRINCESA

Princesa Isabel

Final do século 19. No Brasil, a camélia ainda era flor rara, como a liberdade dos negros. A planta traz sua procedência no nome científico, Camellia japonica. Do Japão, veio para ornamentar jardins de nobres e burgueses, que começavam a desabrochar para ideais mais humanistas.
José de Seixas Magalhães era um deles. Em sua chácara repleta de camélias, abrigava escravos fugidos. A camélia tornou-se símbolo dos abolicionistas. Homens usavam-na na lapela; mulheres, no chapéu.
Camélia? Carnaval? Em 1888, no clímax da campanha abolicionista, a princesa Isabel organizou festa inspirada em comemorações francesas, a Batalha das Flores. Objetivo: mobilizar a alta sociedade de Petrópolis – sede da família imperial – e arrecadar fundos para a Confederação Abolicionista.
No carnaval de 1888, 12 de fevereiro, a princesa, o marido, conde d’Eu, filhos e amigos percorreram a cidade em carruagem ornamentada com camélias. Recolhiam doações e retribuíam com flores. Sucesso entre os abolicionistas. Indignação entre os escravocratas. O barão de Cotegipe, escravista e presidente do Conselho dos Ministros Imperiais, caiu.
A 13 de maio de 1888, Isabel assina a Lei Áurea. Na solenidade, coube ao abolicionista José de Seixas Magalhães entregar à princesa um buquê de camélias, cultivadas pelas mãos livres de ex-escravos do Quilombo do Leblon.

Chuiquinha Gonzaga

CHIQUINHA GONZAGA ABRE ALAS
Ó abre alas
Que eu quero passar

Ousamos afirmar: quem nunca ouviu esta música nunca pulou carnaval. Ó Abre Alas, de Chiquinha Gonzaga, é tocada há mais de século Brasil afora. Mulher bela, de idéias vanguardistas, jamais passava despercebida. Casou, descasou, casou de novo. Mudou para o Andaraí em 1899. Os cordões do bairro atraíam multidões. Um dia, ao ouvir os ensaios do Rosa de Ouro, sentou-se ao piano e criou uma marcha em homenagem ao grupo – a primeira música composta para o carnaval.

Papangus em Pernambuco, susto e alegrias no carnaval.

PAPANGU ASSUSTA PEQUENOS E GRANDES
Em Pernambuco, a festa inclui máscaras e fantasias – os papangus – para assustar outros foliões. Alguns defendem que papangu vem do costume de comer angu no carnaval, prato à base de milho; outros dizem que angu, no Nordeste, é sinônimo de criança, e o termo designa aquele que “come” (e assusta) os pequenos.
Câmara Cascudo diz que o papangu tomava parte nas extintas procissões de cinzas, caminhando a sua frente, armado de um chicote de couro torcido, com que ia fustigando o pessoal que impedia sua marcha. Em 1831, a Câmara do Recife o proibiu. Mas os papangus não morreram. As máscaras eram de pano, papel e goma. Folhas de bananeira e cajueiro compunham a fantasia. Hoje, muitos fazem as máscaras de gesso, plástico ou borracha. A grande diversão consiste em não ser reconhecido por amigos e parentes.

Zé Pereira: precursor do carnaval.

VIVA O ZÉ PEREIRA!
Na primeira metade do século 19, o sapateiro português José Nogueira juntava amigos e saía pelas ruas do Rio cantando músicas folclóricas e refrões improvisados, acompanhados de percussão: bumbo, tambor, caixa, zabumba, surdo, tamborim.
Diz-se que os foliões o tratavam por Zé Pereira, e assim ficou; é tido como pioneiro no uso de percussão no carnaval. Na festa, aparece representado por um boneco cabeçudo, principalmente em cidades do paulista Vale do Paraíba, como São Bento do Sapucaí e Monteiro Lobato.

SAMBA NA AVENIDA

Depois do sucesso de Pelo Telefone (1917), de Mauro de Almeida e Donga, a Cidade Maravilhosa desperta para o samba. Polícia e elite não vêem com bons olhos. Mas o gênero ferve nos morros, transborda para o asfalto e logo determina as novas feições do carnaval brasileiro. O”tríduo momesco” carioca é celeiro de histórias.
De tristes a engraçadas.

CENAS DO MAIOR ESPETÁCULO DA TERRA

Ismael Silva (à esq.).

12 de agosto de 1928 Um grupo de bambas, que incluía Ismael Silva, Bide, Mano Edgar, Brancura e Baiaco, funda no bairro do Estácio de Sá o bloco Deixa Falar – perto da Escola Normal, o que origina o termo escola de samba. Assim se intitulou o Deixa Falar.

28 de abril de 1929 Cartola, Carlos Cachaça e outros transformam o mangueirense Bloco dos Arengueiros em Estação Primeira de Mangueira. Cartola escolhe as cores verde e rosa. Questionado, responde: “Mas como é que verde e rosa não combinam? Esperança e amor sempre caminharam juntos.”

O dominical Corso.

1932 Mário Filho, diretor do jornal Mundo Sportivo, cria o concurso de blocos e escolas. Não havia espaço na Avenida Rio Branco – os corsos passavam no domingo, os ranchos na segunda e as sociedades na terça. Solução: a Praça Onze de Junho.

7 de fevereiro de 1932 O público lota a Praça Onze para ver as 19 escolas. Cada uma podia apresentar três sambas. As delegações não chegavam a cem pessoas. A Mangueira vence o primeiro concurso.

Praça onze sendo destruída, em 1942.

1942 Fim da Praça Onze: por causa da construção da Avenida Presidente Vargas, perdeu espaço.

1946 Todas as escolas destacam o fim da Segunda Guerra Mundial nos enredos. Fim do verso de improviso – proibido -, assim como dos carros alegóricos motorizados ou puxados por animais.

1947-1951 Cisão na União Geral das Escolas de Samba, em 1947; algumas delas fundam a Federação Brasileira de Escolas de Samba. Entre 1949 e 1951, acontecem dois desfiles na cidade. Alvoroço para o público: o lado dissidente contava com as duas maiores escolas, Portela e Mangueira. A Império Serrano, que ficou na União Geral, levou todos os títulos.

Desfile da Salgueiro na Presidente Vargas.

1952 Com todos novamente concorrendo juntos, vem o tira-teima entre Portela, Mangueira e Império. Grandes mudanças. Surgem as duas divisões, principal e secundária, com regras de acesso e descenso. O grupo principal desfila na Presidente Vargas, com arquibancadas; o outro, no lugar onde um dia foi a Praça Onze. Sob chuva fortíssima, a comissão julgadora abandona o desfile. E todas as escolas sentem-se campeãs.

Abril de 1959 Para comemorar a vitória de Fidel Castro na Revolução Cubana, o país convida a Salgueiro para desfilar. Havana: primeira cidade estrangeira a receber uma escola de samba.

Ismael Silva

1964 As escolas conquistam as classes média e alta. Inchaço na avenida: algumas agremiações saem com mais de mil componentes.

1969 O ingresso para os desfiles, cobrado a partir de 1961, fica caro. Ismael Silva, um dos criadores das escolas, não tem dinheiro. O secretário de Turismo nem sequer o recebe: diz que nunca ouviu falar do sambista.

Beija-Flor, em 1976.

1976 Beija-Flor de Nilópolis, bancada por bicheiros, contrata Joãosinho Trinta. No primeiro desfile, vence com o enredo Sonhar com Rei Dá Leão, homenagem ao jogo do bicho. É a primeira vez, desde 1937, que o título escapa à trinca Portela-Mangueira-Império Serrano.

1978-1979 Em 1978, surge o palco definitivo: a Avenida Marquês de Sapucaí. No ano seguinte, Cartola, ícone da Mangueira e do samba, não vai. Indignado com a obrigatoriedade de desfilar em 80 minutos, diz: “Isso não é carnaval, é parada militar.”

Mangueira, na apoteose, em 1984.

1984 Com projeto de Oscar Niemeyer, a Sapucaí ganha arquibancadas definitivas, Praça da Apoteose, camarotes. O povo apelida de Sambódromo. Saem duas campeãs, uma para cada dia de desfile. Portela vence o primeiro. No segundo dia, a Mangueira arrasa e, depois de entrar na Praça da Apoteose, dá a volta e atravessa de novo a avenida. O público delira.

Cristo censurado, em 1989.

1989 A Beija-Flor traria o Cristo Redentor num carro alegórico. A Igreja veta. Joãosinho Trinta cobre o Cristo com um plástico negro e adiciona uma faixa: Mesmo proibido, olhai por nós.

Homem nu: polêmica.

1992 Pega fogo um carro da Viradouro que trazia enredo sobre ciganos. Coincidência: festa cigana sempre inclui fogueira. Um homem nu desfila pela Beija-Flor. Inédito. Disse que perdeu o tapa-sexo durante o desfile. Não colou. A escola perdeu pontos.

Unidos da Tijuca: Recriação das espirais do DNA.

2004 A comissão organizadora libera a reedição de enredos antigos. Quatro escolas aceitam. Unidos da Tijuca vence com samba-enredo original, O Sonho da Criação e a Criação do Sonho: a Arte da Ciência no Tempo do Impossível. Destaque: num carro, sambistas apresentam movimentos e danças coreografados, recriando as espirais do DNA humano.

CURIOSIDADE
Cordão, bloco, rancho, sociedade-escola
Os cordões nascem do Zé Pereira. Fundem-se em blocos e ranchos, mais organizados, gênese das escolas. As sociedades congregavam a elite.
Com o automóvel, surgem os corsos. Cordões, blocos e ranchos desfilavam espontaneamente. Os corsos dispunham de local e data definidos. O aguardado desfile se dava na terça-feira gorda, na Avenida Rio Branco, e recebia atenção oficial – samba e carnaval de rua eram considerados marginais. O panorama mudaria em 1932, com os concursos idealizados pelo jornalista Mário Filho, irmão do dramaturgo Nelson Rodrigues.

Diego Braga Norte
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