Historieta com falsa loira de nome falso

{julho de 2004}

Na inventada época em que se amarrava cachorro com lingüiça, lutei e consegui emprego de jornalista na redação de um matutino paulistano. A palavra lutar é correta. Tive de passar por uma prova de conhecimentos que nem de longe se comparava às exigências que hoje se fazem para oferecer trabalho com honestidade.
O aprendizado era feito de descobertas e novidades; havia prazer e emoção no enfronhar-me no ofício que viria a ocupar boa parte de minha vida. Só num único e mesmo jornal permaneci mais de vinte anos. Esse período permitiu conviver com numerosos colegas cujos destinos se cruzavam, tomavam caminhos paralelos ou simplesmente alteravam o curso.
Algumas figuras se tornaram sombras, nunca mais ouvi falar a não ser vagamente. Se a memória pudesse ser reavivada para livrar-me do azinhavre do tempo, tentaria recuperar a história do desaparecimento do capitão Vânio, companheiro de redação. Fiquei sabendo por alto, morreu nas masmorras do Chile, defendendo uma causa política, com suas idéias heróicas. Nunca soube com exatidão como foi o fim daquele oficial que parecia suave anjo de voz tranqüila.
Amenizando o passado, poderia também evocar a lembrança de outro colega, mais voltado para as conquistas do capitalismo prático, que largou o jornalismo e o trocou por uma agência de publicidade – onde os salários poderiam ser menos virtuosos, porém mais compensadores. E nesse meritório ramo desenvolveu grande capacidade criativa. O resultado mais notável foi uma frase que ajudou a vender a rodo a então ainda tímida cerveja Níger. A frase, aparentemente simples, cativava inteligências e paladares: Níger – nem doce nem amarga. Foi um sucesso estrondoso. Eu próprio, movido pela curiosidade do bordão, me tornei freguês do achado publicitário, se bem que nunca fui de abandonar as “loirinhas bem geladas”. A Níger era escura. Ou, se preferem, mulata. Questão de gosto, de paladar.
Foi nessa redação que aconteceu a chegada do famoso sino de bronze. Era mais simbólico que técnico, ficava suspenso sobre a cabeça da telefonista, Dona Glorinha, que ficava de olho no bronze, a ver se por desventura não lhe caía a peça sonora na cabeça morena. Dona Glorinha era bonita e amável. O sino soava em determinada hora. Marcava o prazo em que se podia descer a última matéria para a oficina. O sino foi um progresso. Quase tão importante quanto a descoberta do óleo de fígado de bacalhau no combate à anemia infantil.
Ocorre que uma bela noite não sei que diabo aconteceu a Dona Glorinha, sua presença foi substituída por uma jovem, tipo mignon, gostosinha, elétrica, que assumiu o serviço telefônico e ficou sob o sino de bronze. Não é minha intenção desmerecer Dona Glorinha, senhora virtuosa, meiga, um doce de pessoa. Mas sua substituta era mais produzida. E loira. Loiríssima. Sob seu reflexo o sino parecia badalar uma sinfonia. A redação inteira não desgrudava os olhos do sino. Aliás, da loira. Nessa noite, e nas seguintes, ninguém mais obedecia a horário algum. O sino, que antes parecia ter objetivos educativos e virtuosos, passou a ser olhado como ameaça de tentação para os olhos cúpidos da corporação.
Resultado: o sino foi desinstalado por inútil; a loira passou a trabalhar como secretária na seção interiorana do jornal; Dona Glorinha voltou a seu honroso posto, já agora sem bronze e sem badalo; e tudo voltou à rotina.
Mais tarde, bem mais tarde, descobrimos que se tratava de uma loira oxigenada. Na realidade era ruiva. Se não me engano, chamava-se Elpídia. Mas preferia ser chamada de Lídia.

9/7 é o Dia da Loira

Lourenço Diaféria
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