36 – Março de 2002

Cacilda Becker
(1921-1969)

A MORTE QUE EMENDOU A GRAMÁTICA



Diva brasileira, Cacilda doou a vida ao teatro e do teatro saiu para a morte. Como epitáfio, Drummond escreveu que Cacilda “morreram”: “não era uma só, eram tantas”.

A moça pobre que queria ser bailarina integrou pela primeira vez um elenco teatral sem nunca ter visto uma peça. Ouviu do diretor polonês Zbigniew Ziembinski que “nunca seria atriz”. Tornou-se estrela maior, que renovou os palcos nos anos 1950.

Em Pirassununga, nasceu a paulista Cacilda Becker Yáconis. O pai abandonou a família. A mãe, professora primária, criou as três meninas.

Filha de pais separados, discriminada nas rodas de “moças de família”, encontrou acolhida no meio intelectual e boêmio. Fez amizades duradouras. Um daqueles amigos, o escritor Miroel Silveira, convenceu-a de que deveria trocar a dança pelo teatro. Indicou Cacilda para uma substituição na montagem amadora do Teatro do Estudante do Brasil, no Rio. A atuação chamou atenção de Raul Roulien, que a convidou para a companhia que estava montando.

Deu o estalo
Na época, costumava-se distribuir a cada ator apenas o texto que lhe cabia. Certo dia, Cacilda teve acesso ao texto inteiro. Levou-o para casa escondido. Estudou o personagem e intuiu, então, o que era representar. No ensaio, Roulien ficou boquiaberto:

“Deu o estalo?”

Cacilda passou a exigir os textos integrais. De volta a São Paulo, trabalhou como locutora e radioatriz. Fez teatro amador. Nova experiência com Bibi Ferreira. Não encontra espaço.

Em 1947, orientada por Ziembinski, participa no Rio da histórica remontagem de Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues, pelo grupo amador Os Comediantes.

Grande dama
A escalada ao estrelato se dá em 1948, quando o empresário Franco Zampari cria o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC). Um incidente a leva a protagonizar o espetáculo de estréia. Nídia Lícia recusa-se a beijar em cena, como pede o texto de A Mulher do Próximo, comédia de costumes de Abílio Pereira de Almeida. Abílio convida Cacilda.

“Aceitei diante de uma proposta: quero ganhar, eu não sou amadora.”

Até a saída de Cacilda em 1957, o TBC viveu período de ouro. Ela explodiu como o garoto Pega Fogo, de Jeles Renard. Tornou inesquecíveis seus papéis em Seis Personagens à Procura de um Autor, de Pirandello; A Dama das Camélias, de Dumas Filho; Gata em Teto de Zinco Quente, de Williams.

Teatro com nome dela
Cacilda Becker, Cleyde Yáconis, Walmor Chagas, Ziembinsky e Fredi Kleeman queriam um teatro brasileiro interpretado, escrito e dirigido por brasileiros. A nova geração nega o TBC, tachado de “estrangeiro”. Criam o Teatro Cacilda Becker. Estréiam no Rio com O Santo e a Porca, de Ariano Suassuna, em 5 de março de 1958.

Abril de 1964, golpe militar. Consagrada, Cacilda surge como voz respeitada e corajosa, denunciando a censura e defendendo a classe teatral. Abriga colegas perseguidos pela ditadura. Declara:

“Todos os teatros são meus teatros.”

Maio de 1969, São Paulo. Durante intervalo de Esperando Godot, de Samuel Beckett, Cacilda Becker passa mal. Vestida no terno surrado do personagem Estragon, levam-na às pressas ao Hospital São Luís. Fim de cena. Vítima de aneurisma cerebral, Cacilda morre aos 48 anos.

A morte emendou a gramática. Morreram Cacilda Becker. Não era uma só. Eram tantas, escreveu Carlos Drummond de Andrade.

Provocava paixões avassaladoras. Casou três vezes. Como intérprete, transcendeu todas as limitações físicas, para atingir raro grau de aperfeiçoamento. O mito resiste, mais de 30 anos após sua morte.

“Tinha a dedicação mais absoluta ao teatro, ao fenômeno do teatro, ao amor ao teatro”, testemunhou Ziembinsky.