poesia igual à de Drummond no Brasil”, disse o jornalista Paulo Francis. Modernista que ultrapassou fronteiras, traduzido para línguas desde o inglês até o húngaro. Íntegro, generoso, humano, preservava sua intimidade. Mantinha um “distanciamento existencial”, como disse o poeta José Lino Grunewald:
“Não dava bola a nada, não puxava o saco de ninguém – recusou-se sempre a fantasiar-se de acadêmico.”
Não gostava também que o chamassem “poeta maior”:
“Eu me considero, no máximo, o maior poeta vivo da rua onde moro, onde, aliás, não me consta que exista outro poeta.”
Também recusou indicação para o Prêmio Nobel. Sua poesia ajuda a entender seu jeito de ser:

Quando nasci, um anjo torto
Desses que vivem na sombra
Disse: “Vai, Carlos! ser gauche na vida.”
(Poema de Sete Faces)

Em Itabira do Mato Dentro, Minas Gerais, no dia 31 de outubro de 1902, nasceu Drummond. Filho de fazendeiros, passou a infância e parte da adolescência na cidade, tema freqüente em sua obra, modeladora do caráter do menino:
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Em 1916 é interno do Colégio Arnaldo, em Belo Horizonte. Por problemas de saúde, volta a Itabira. Vai estudar com jesuítas em Nova Friburgo, Estado do Rio. É expulso por desentendimentos com um professor de Português.
Dois anos depois a família muda para Belo Horizonte. O jovem Carlos começa a colaborar com jornais e relacionar-se com escritores e poetas.
“Mas a vida exigia de mim uma definição prática. O pai me sustentava, eu não trabalhava, era vadio, e não ganhava nada.”
A família insiste e ele entra no curso de Farmácia. Jamais exercerá a profissão. Em 1925 casa com Dolores e vai tentar vida de fazendeiro em Itabira:
“Embora meus pais, meus avós, meus bisavós fossem fazendeiros, eu não era capaz de dizer o nome de um cavalo.”
Volta a Belo Horizonte para ser redator-chefe do Diário de Minas. Faz contatos com os modernistas de São Paulo, especialmente Mário de Andrade:
“As cartas de Mário de Andrade ficaram sendo o acontecimento mais formidável de nossa vida intelectual belo-horizontina.”

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
(No Meio do Caminho)

Em 1925 funda com amigos A Revista, porta-voz dos modernistas mineiros. Três anos depois, na Revista de Antropofagia, publica No Meio do Caminho, um escândalo nos meios literários: onde já se viu usar o verbo ter por haver?
É de 1930 seu primeiro livro, Alguma Poesia. Trabalha em órgãos públicos. Em 1934 o amigo Gustavo Capanema, nomeado ministro da Educação e Saúde de Vargas, convida-o para chefe de gabinete. Drummond segue para o Rio de Janeiro. Funcionário público, poeta e cronista, colabora com o Correio da Manhã de 1954 até 1969, depois com o Jornal do Brasil, até 1984.
Aposenta-se aos 60 anos. Livre da burocracia, instala sua sala de trabalho em casa, de onde observa o cotidiano que servirá de material para suas poesias e crônicas de jornal. A produção jornalística será publicada em livros nos anos de 1970-80.

Idade madura em olhos, receitas e pés, ela me invade
em sua maré de ciências afinal superadas.
Posso desprezar ou querer os institutos, as lendas;
descobri na pele certos sinais que aos 20 anos não via.
(Idade Madura)

Nos últimos anos de vida, menos fechado, Drummond dava entrevistas, aparecia na tv, discreto e bem-humorado. Em 5 de agosto de 1987 sofre abalo fatal com a morte da filha única Maria Julieta. Doze dias depois, chega a vez de Drummond.

De tudo quanto foi meu passo caprichoso
na vida, restará, pois o resto se esfuma,
uma pedra que havia no meio do caminho.
(Legado)


COM LICENÇA
DO POETA, O POETA
É O MAIOR
Drummond dava forma e voz às mais variadas e complexas manifestações da alma. Tinha “o sentimento do mundo”. Festejado como “poeta maior”, recusava esse tipo de honraria.
rummond foi o mais popular, lido e apreciado poeta brasileiro. “Ninguém nunca remotamente escreveu