Não tinha 20 anos quando arrebatou o Brasil ao interpretar Arrastão, de Edu Lobo e Vinicius de Moraes. Aconteceu no I Festival de Música Popular Brasileira, da TV Excelsior, em 1965. Considerada entre as maiores cantoras de todos os tempos, imortalizou inúmeras canções: Como Nossos Pais, de Belchior; Romaria, de Renato Teixeira; Travessia, de Milton Nascimento; Águas de Março, de Tom Jobim. As interpretações apaixonadas, o temperamento explosivo e a morte prematura, aos 36 anos, fizeram dela um mito. Gilberto Gil definiu:
“Sua voz será de todas as canções, sua alma de todos os corações.”

SEIS PEDIDOS DE BIS
A carreira de Elis Regina de Carvalho Costa começou aos 11 anos, no Clube do Guri, da Rádio Farroupilha de Porto Alegre, cidade onde nasceu em 1945.
A gauchinha tímida deu lugar a mulher de personalidade forte, quando chegou ao Rio em 1964. Participou de festivais e movimentos político-musicais, como a Passeata Contra as Guitarras, pela preservação das raízes da MPB contra a invasão estrangeira. Em 1968, no Olympia, em Paris, voltou ao palco seis vezes atendendo aos pedidos de bis. Mas a carreira internacional não vingou porque não suportava ficar longe do Brasil.

CARA FEIA É BODE
Declarações bombásticas e contraditórias eram comuns. Elis desprezou a bossa nova, mais tarde gravou com Tom Jobim e Roberto Menescal. Falou mal da Tropicália, mas gravou Caetano e Gil. Chamou os militares da ditadura de “gorilas”, mas cantou na Olimpíada do Exército de 1972. Tinha língua afiada:
“Cara feia pra mim é bode. Sou mais ardida que pimenta!”
Relacionamentos amorosos conturbados. Do primeiro casamento, com o compositor Ronaldo Bôscoli, dizia que só levou de bom o filho João Marcelo e certo amadurecimento pessoal. Com o pianista e arranjador César Camargo Mariano teve dois filhos, Pedro e Maria Rita. O relacionamento com o advogado americano Samuel MacDowell de Figueiredo durou seis meses, até a morte da cantora.

GRAÇAS À VIDA
Elis gravou os melhores compositores ou transformou em obras-primas canções banais de compositores medianos. Para festejar dez anos de carreira, gravou com Tom nos Estados Unidos o histórico Elis & Tom. Em 1976, o show Falso Brilhante levou ao Teatro Bandeirantes, em São Paulo, mais de 280 mil pessoas em 257 apresentações. O show Transversal do Tempo, de 1977, excursionou por capitais brasileiras, pela Itália e Espanha. Sobre Buenos Aires, foi categórica:
“Enquanto meu disco [Falso Brilhante] continuar proibido pela censura argentina, não me apresento lá.”
A justiça interditou o disco por causa da música Gracias a la Vida, de Violeta Parra, proscrita pelos militares golpistas chilenos.

TRISTE FIM
Em 1979, gravou de Aldir Blanc e João Bosco O Bêbado e a Equilibrista, que virou “hino da anistia”. Estreou Saudades do Brasil, misto de teatro com música, onde falava da cultura brasileira.
“Não se trata de saudade de alguma coisa que acabou ou pessoa que morreu… saudade do que está aí, vivo, solto, e nunca deixou de existir. Se não temos acesso a isso, é por falta de uma batalha maior.”
A dedicação à produção do show Trem Azul ocupou Elis durante 1981. Cheia de planos, na manhã de 19 de janeiro de 1982 morreu em seu apartamento em São Paulo, vítima de overdose de cocaína. Uma camiseta com a bandeira brasileira, onde se lia “Elis Regina” no lugar de “Ordem e Progresso”, vestiu o corpo da cantora, velado no Teatro Bandeirantes. No dia seguinte, muros do País amanheceram pichados:
Elis vive.


PIMENTINHA GENIAL
Ela era como Midas, rei que
transformava em ouro tudo o que tocava: qualquer música que gravasse, virava clássico. Geniosa, se dizia “mais ardida que pimenta”. Mais que geniosa, genial.