Para segurar o filho irrequieto, dona Fininha transformou-o em auxiliar de suas classes noturnas de alfabetização de adultos. O menino ajudava os camponeses a desenhar as letras, conduzindo-lhes as mãos calejadas. Tomou gosto pela educação.
Mineiro de Montes Claros, em 1942, aos 19 anos, Darcy seguiu para a capital paulista. Formou-se em Antropologia e aventurou-se num trabalho de campo. Passou meses entre os índios da nação Urubu-Kaapor. Escreveria vasta obra etnográfica e de defesa da causa indígena.
“Devo aos índios ter-me tornado um ser humano.”

PROFESSOR NO EXÍLIO
Numa palestra, conheceu seu mestre, o educador Anísio Teixeira. Trabalharam em ambicioso programa de pesquisa sobre o ensino público. Darcy recebeu a incumbência de organizar a Universidade de Brasília (UnB). Em 1961, tornou-se primeiro reitor da instituição, à qual se referia como “minha filha”.
Crítico da elitização do ensino, no governo João Goulart foi ministro da Educação e chefe do Gabinete Civil. Com o golpe militar de 1964, foi prestar serviços aos povos vizinhos. Lecionou Antropologia na Universidade do Uruguai. No Peru, encabeçou o planejamento do sistema universitário. Promoveu reforma na Universidade do Chile, no governo socialista do presidente Salvador Allende, a quem assessorou diretamente.
Educação era uma obsessão. Como vice do governador Leonel Brizola no Rio de Janeiro (1983-87), implantou ousado projeto: os Centros Integrados de Educação Popular, Cieps. No último ano de vida, organizou a Universidade Aberta do Brasil; a Escola Normal Superior; e a Fundação Darcy Ribeiro. O maior feito foi elaborar e ver aprovada a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, conhecida como Lei Darcy Ribeiro.
“A rica direita brasileira, desde sempre no poder, sempre soube dar a melhor educação a seus filhos. Aos pobres, dava a caridade educativa mais barata que pudesse, indiferente à sua qualidade.”

DERROTAS E VITÓRIAS
Com a anistia (1979), Darcy e Leonel Brizola fundam o Partido Democrático Trabalhista (PDT). Em 1986 candidata-se a governador do Rio de Janeiro: é derrotado por Moreira Franco. Elege-se senador em 1990. Candidato a vice de Brizola em 1994, perdem para Fernando Henrique Cardoso. Em 35 anos de vida política, Darcy ganhou e perdeu, mas não deixou de brigar.
“Sou um homem de causas. Vivi sempre pregando, lutando como um cruzado, pelas causas que comovem. Elas são muitas, demais: a salvação dos índios, a escolarização das crianças, a reforma agrária, o socialismo em liberdade, a universidade necessária.”
Escreveu Carlos Drummond de Andrade: “Darcy é um monstro de entusiasmo que nenhum golpe feroz arrefece.” Darcy parecia responder ao poeta, ao dizer:
“Na verdade, somei mais fracassos que vitórias em minhas lutas, mas isso não importa. Horrível seria ter ficado ao lado dos que venceram nessas batalhas.”

ÚLTIMO PEDIDO
Patrono de toda uma linhagem de antropólogos, Darcy deixou mais de 30 livros, publicados em dezenas de países.
Em 1992, transformou-se em imortal da Academia Brasileira de Letras.
Descobriu câncer no pulmão em 1974. Voltou do exílio para a cirurgia. Contra todas as probabilidades, respirou por mais 23 anos com o pulmão restante. Em 1995, outro câncer. Internado, foge do hospital para terminar O Povo Brasileiro. Escreveu furiosamente até a morte, em 17 de fevereiro de 1997, aos 74 anos.
“Gostaria de ficar na memória das pessoas pedindo que sejam mais brasileiras.”


UM MONSTRO
DE INTUSIASMO
Inseriu o indígena na agenda política. Semeou idéias. Apostou na democratização das escolas. Produziu obra indispensável para se compreender o Brasil.