5 de novembro – dia do Designer

O traço da bossa

João criou a batida; Cesar, o visual

{novembro de 2007}


Cesar Villela com as capas que fez para o elenco

O primeiro emprego do carioca Cesar Villela foi na loja de departamentos Mesbla. Consistia em dar baixa no estoque, preenchendo fichas de papel com a quantidade de parafusos, porcas e outros materiais vendidos. Um dia, entediado, ele começou a desenhar na parte de trás das fichas. Quando descobriu o passatempo do funcionário, o chefe ficou furioso. Mas, em vez de demiti-lo, ligou para o departamento de propaganda, para onde o garoto foi transferido. Villela trabalhou depois na agência de publicidade Standard e no jornal O Globo.

Por intermédio de João Donato, amigo de escola, conheceu em 1957 André Midani, assistente de Aloysio de Oliveira, diretor artístico da gravadora Odeon. Foi contratado para criar as capas dos discos. Cesar levou com ele o fotógrafo Francisco Pereira, colega da agência Standard, formando uma dupla que criou quase mil capas. Como o processo era artesanal e longo, Villela começava a trabalhar com bastante antecedência, às vezes até antes da definição do repertório. Observando os LPs nas vitrines das lojas, Villela notava que as capas “inclusive as dele” eram muito confusas. Pensando em formas de fazer com que os discos da Odeon se destacassem, começou a torná-las mais simples.

Aloysio saiu da Odeon e fundou em 1962 a lendária gravadora Elenco. Cesar e Francisco foram junto. A Elenco lançou discos fundamentais de artistas da bossa-nova como Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Nara Leão e Maysa. As capas que Villela criou para a gravadora ’simples, sofisticadas e de alto impacto visual

“são um capítulo fundamental da história das artes gráficas brasileiras.

Em 1959, Cesar fez uma inovadora capa “interativa” para o violonista Bola Sete. Tratava-se apenas de uma bola preta impressa, e mais seis bolinhas nas cores das de sinuca, soltas no plástico da capa.

Depois de quase 50 anos, o artista gráfico revela: a capa antológica do LP Oh! Norma (1959), de Norma Benguell, não é criação sua. Francisco Pereira fizera a foto da capa a pedido de André Midani, sem o consentimento de Cesar. Até a idéia das letras sinuosas da interjeição ‘Oh!” era de Midani. Contrariado, Cesar simplesmente “executou’ a capa concebida pelos colegas.

O único artista que reclamou de seu trabalho foi João Gilberto. Descontente com a ousada capa solarizada que Villela criou para O Amor, o Sorriso e a Flor, de 1960, o baiano telefonou para o designer às 11 da noite. Só desligou duas horas depois, após explicar a diferença entre “tristeza” e “tristezinha”, em um monólogo surreal que, até hoje, Cesar confessa não ter compreendido.

Aos 77 anos, ele tem se dedicado à pintura de telas e à preparação de um livro sobre seu trabalho na Odeon. Em 2004, para a capa do CD que celebra os 40 anos de carreira do Quarteto em Cy, encontrou uma solução gráfica genial: um símbolo de quatro retas que representa, ao mesmo tempo, o número 4 e a sílaba “Cy”. Orgulhoso, arremata: “Depois dessa, não tenho mais nada para fazer no design“.

SAIBA MAIS

A História Visual da Bossa Nova, de Cesar G. Villela (2AB, 2003).

Rafael Capanema
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