Lágrimas choram de alegria em Minas Gerais

{fevereiro de 2006}


Em Minas Novas, milhares de barraginhas seguram a água da chuva no solo. O que antes destruía a natureza contribui para revitalizar córregos, solos, e leva água até a porta das casas.

Barraginhas: solução simples, capaz de devolver o verde e mudar a vida de muita gente.

Nos caminhos para o Vale do Jequitinhonha, nordeste de Minas, a paisagem ganha aspectos de dureza com imensas montanhas de pedra e a vegetação seca do cerrado. Subidas e descidas levam a uma das regiões mais pobres do País. As histórias daquele povo vivem acesas na memória dos descendentes de escravos, lavadeiras, agricultores.
Minas Novas, a 520 quilômetros de Belo Horizonte, foi trajeto obrigatório para a extração de minerais. Agora parece cidade parada no tempo: igrejinhas, casarões, calçamento de pedra. Sábado, dia de feira, rural e urbano se reúnem. Agricultores vendem verdura, fruta, galinha. Dos 31 mil habitantes, 23 mil moram na zona rural. As dificuldades causadas pela falta d’água sempre foram tema nas conversas. Hoje a prosa mudou. Desde 2001, as comunidades contam com 2.500 pequenas barragens do Projeto de Captação de Águas Superficiais de Chuvas em Barraginhas.
Desenvolvido pelo engenheiro agrônomo Luciano Cordoval, da Embrapa Milho e Sorgo, na mineira Sete Lagoas, o projeto nasceu com o objetivo de amenizar a degradação do solo e levar água para comunidades, principalmente do semi-árido. As barraginhas são miniaçudes cavados com máquinas em diversos pontos do terreno do agricultor. Têm em média 20 metros de diâmetro por 2 metros de profundidade. Solução simples, servem como contentores da água da chuva que, ao cair, lavava o solo e se perdia nas enxurradas. Terreno e plantações voltavam a ficar secos em alguns dias. Hoje, as barraginhas trabalham como uma espécie de esponja. A água coletada infiltra o solo. O lençol freático recebe abastecimento e revitaliza os mananciais naturais.
No entanto, uma só barraginha não resolve. Para aproveitar melhor a água, elas trabalham em conjunto e em diferentes níveis. A água infiltra-se e desce para as barraginhas mais baixas até chegar aos córregos.
O projeto se desenvolve em etapas: o primeiro contato; visita à comunidade; informação sobre o projeto-piloto; palestras; acordo com prefeitura; treinamento; planejamento; e, enfim, a construção das barraginhas. Ao alcançar 50 miniaçudes na região, a comunidade passa a tomar conta do projeto e a andar com as próprias pernas. “Formamos multiplicadores na própria comunidade, então cortamos o cordão umbilical para que eles possam usar da criatividade para desenvolver outros braços do projeto”, diz Luciano. “As barraginhas são esculturas na terra e a realização do sonho de resolver os problemas daquelas famílias. Frutos conquistados com muita dedicação e amor.”

Riqueza Maior: Água que não durava 15 dias abastece o ano inteiro.

Árvore vale mais que dinheiro
Na Comunidade Inácio Félix, em Minas Novas, encontramos entusiastas do projeto. As famílias vivem na região há mais de cem anos. Lembram-se dos pais, dos avôs desmatando o terreno; e hoje falam “com dor no coração” do que perderam.
“Fiz carvão durante dez anos. Achava que riqueza era cortar mato. Hoje tenho riqueza maior: as barraginhas. Embaixo delas chora uma lágrima. A água mina”, poetiza José Valter Neto Alves, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais. E completa: “Um pé de árvore é muito mais do que dinheiro.”

Luciano (à esq.) com José Valter (de boné).

Para ter água na porta de casa, algumas famílias criaram os tais “braços do projeto”: colocaram mangueiras plásticas nas barraginhas. Foram além: criam peixes nos miniaçudes. A água que não durava nem 15 dias abastece o ano inteiro e revitaliza o Córrego do Rocha, que havia sumido da região. As barraginhas dispensaram os caminhões-pipa. Cada uma transfere para o solo o equivalente a 150 caminhões.
Todas essas experiências bem-sucedidas levaram o projeto a conquistar a certificação para compor o Banco de Tecnologias Sociais da Fundação Banco do Brasil. A partir de 2004, ele recebeu da Fundação investimento para a construção de mais de 4.200 barraginhas em 14 municípios de Minas. Agora, o projeto segue para o Piauí. De saída, serão construídas 300 barraginhas em cada um dos 12 municípios compreendidos pela nova etapa.
Em Minas Gerais, estima-se que existam 80 mil barraginhas em 300 municípios, o que vem revertendo o êxodo rural e melhorando a qualidade de vida dos agricultores.

Zezinho, do cansanção: manga, banana e milho

“É suja, mas é limpa”
“A água é o vapor que sobe da terra, coalha e desce.” Assim Zezinho Brandão explica, com linguagem singular, como a chuva cai no Cansanção. Distante 38 quilômetros de Minas Novas, o vilarejo sofria com a secura e dependia de um poço artesiano para abastecer mais de 2 mil habitantes. Tempos difíceis que só mudaram com a chegada de 30 barraginhas. Zezinho fala com brilho nos olhos experientes:
“Elas seguram a água aqui para todos.” Na casa dos compadres Rosa e Sebastião Brandão a alegria contagia: “Foi o melhor projeto que surgiu para cá”, diz seu Tião.
Arroz, milho, mandioca, banana, alho, manga e amendoim, nas palavras de Zezinho, ficaram “mais corados”. Os passarinhos voltaram, assim como o verde que revestia os morros. A época de dividir a água da cisterna com mais de 20 famílias ficou para trás. A nascente do rio, que havia secado, começou a ressurgir. A mangueira deu mais frutos.
Uma das dificuldades do projeto era mostrar aos agricultores que a água não “some”; ela corre para outros pontos do lençol freático e “brota” em locais mais baixos. Com treinamento e experiências pioneiras, os agricultores passaram a ver os benefícios da umidade da terra no maior crescimento das hortas e nos córregos revitalizados.
Uma descoberta: cada solo exige um tempo para absorver a água. No Vale do Jequitinhonha, ela se infiltra devagar, o que proporciona ao morador o orgulho de receber os visitantes e mostrar o “bonito lago” que tem no terreiro. É a satisfação como a de Zezinho, que emocionado diz:
“É lindo ver uma poça d’água como esta. É uma água suja, mas é limpa.”

PERISCÓPIO
Emoção na tela, transformação real

A revolução que as tecnologias sociais levam para o dia-a-dia das comunidades é o tema do Mobilização Brasil. Rea-
lizado pela Fundação Banco do Brasil em parceria com a TVE/Brasil, o programa já abordou o extrativismo alternativo para fabricação de borracha e papel; saneamento básico; alfabetização de adultos em comunidades quilombolas; coleta e processamento de materiais recicláveis.
Nos próximos programas, estarão em pauta as atividades artesanais desenvolvidas pelas bordadeiras do Seridó e
por presidiários de Porto Velho; hortas comunitárias nas
periferias das cidades; além de outras soluções sociais que garantem educação, renda e melhoria da qualidade de vida.  Saiba mais: www.fundacaobancodobrasil.org.br.

Mobilização Brasil: aos sábados, 8 horas, em todas as emissoras públicas e educativas.

Mariana Proença
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