O que pode haver de mais fascinante num livro que tem uma boa história, bem contada e documentada? Em A Longa Viagem da Biblioteca dos Reis, de Lilia Schwarcz, Paulo Cesar de Azevedo e Angela Marques da Costa, a protagonista é uma biblioteca destruída por terremoto, reconstituída e, mais tarde, transportada em caravelas a outras terras, além-mar. Ainda seria disputada pelo antigo dono, a ponto de aparecer em segundo lugar na relação de Conta dos objetos que Portugal teria direito de reclamar ao Brasil. A Biblioteca Real foi um dos itens mais caros de nossa independência: 250 mil libras esterlinas, ou 12,5% da indenização total que o Brasil pagou a Portugal (2 milhões de libras).
O livro conta a saga em detalhes, com histórias da biblioteca e do mundo português da época. Revela posturas curiosas, como a de pessoas do século 18 que usavam óculos para parecer que eram ávidos leitores. Trabalho de fôlego: três anos de pesquisas e muitas viagens entre Brasil e Portugal. Teve a participação de um saudoso colaborador do Almanaque, Paulo Cesar de Azevedo, que em breves contatos relatava as fascinantes descobertas que vinha fazendo. Paulo morreu em agosto, pouco antes do trabalho concluído.
A Biblioteca chegou ao Brasil em três levas até 1811. Tinha 60 mil volumes. Viria com a família real portuguesa em 1808 se, na confusão do embarque, não fosse esquecida, encaixotada, no cais de Lisboa. A atual Biblioteca Nacional, instalada no Rio, é uma das mais importantes do mundo. Um dos poucos tesouros que Portugal não levou do Brasil.
O TESOURO QUE PORTUGAL
NÃO LEVOU EMBORA