Oswaldo Cruz

Líder de um povo vacinado

{agosto de 2009}

Ele enfrentou quebra-quebras e ameaças de golpe por defender um conceito diferente de saúde. Foi o “vilão” de uma das mais marcantes revoltas populares do Brasil. Patrono do nosso templo da ciência, descartou técnicas ultrapassadas para combater doenças. Foi pioneiro ao observar a saúde além dos pequenos limites da capital federal. Perdeu batalhas. Mas ganhou a guerra.

Oswaldo Cruz

No começo do século 20, acreditava-se que o ar proveniente de lugares sujos ou com água parada era a causa de epidemias. Por isso, destruir cortiços e moradias populares parecia a solução ideal para o Rio de Janeiro – “túmulo de estrangeiros”, uma cidade doente, com alta mortalidade por febre amarela. Assim que assumiu a Diretoria Geral da Saúde Pública, Oswaldo Cruz rejeitou as práticas vigentes e apostou na teoria de um especialista cubano: os mosquitos são os verdadeiros transmissores e devem ser exterminados. Além disso, passou a escrever a coluna Conselhos ao Povo nos jornais e a distribuir folhetos educativos sobre a doença.
Depois foi à caça de ratos para combater a peste bubônica. Chegou a instituir funcionários públicos para comprar os pequenos roedores capturados pela cidade – e é claro que alguns espertinhos logo trataram de criar seus próprios ratos para vender ao governo. Era chamado de “czar dos mosquitos”, entre outras ironias, e contava com poucos recursos. Tornar obrigatória a vacina contra varíola foi a gota d’água. Ninguém queria “perder o direito à liberdade”, “ser espetado à força”, “receber um líquido desconhecido nas veias”. Insuflada, a população saiu às ruas, virou bondes, quebrou lampiões. Era a Revolta da Vacina, uma das mais marcantes revoltas populares do Brasil, ocorrida em 1904.
O médico sanitarista certamente se sentiu injustiçado. Ele que, apesar de terríveis náuseas, tinha ido de navio a 30 portos do País
estudar as doenças que chegavam pelo mar ou pelos rios. Mas as insatisfações refletiam a situação geral da cidade. O presidente Rodrigues Alves promovia uma reforma apelidada de “bota-abaixo”. Para fazer da capital uma metrópole moderna, brigadas do governo destruíam cortiços e bairros pobres sem preocupação alguma com o futuro dos despejados, que iam ajeitando-se pelos morros.
A oposição política e a Escola Militar, interessadas num golpe, engrossaram a massa desconexa de revoltosos. O governo controlou a rebelião, mas teve que revogar a lei da imunização. Apesar disso, o Diretor Geral da Saúde foi mantido no cargo. Chegaria o dia em que receberia os devidos créditos por seu trabalho.

Início de carreira
Oswaldo Cruz sempre foi interessado e entusiasta de novas técnicas. Quando nasceu, em 5 de agosto de 1872, o pai Bento era um jovem médico em começo de carreira. Aos 14 anos, o filho ingressou na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Tornou-se doutor aos 20, no mesmo dia em que Bento morreu. Dedicou a ele a tese sobre microrganismos aquáticos. Depois pôde conhecer mais sobre microbiologia com incentivo do sogro, que financiou uma estada em Paris. Encantou-se com os laboratórios do Instituto Pasteur e estagiou numa fábrica de ampolas, provetas e pipetas para produzi-las no Brasil.
Entretanto, outra técnica de Pasteur foi essencial para a sua volta em 1899. A peste bubônica havia chegado ao porto de Santos com as pulgas dos ratos de um navio estrangeiro. O governo federal criou o Instituto Soroterápico e, com Oswaldo Cruz na direção técnica, o País passou a produzir um soro que até então era exclusividade da França.

Templo da ciência
Em 1903 foi nomeado para a cadeira correspondente ao atual Ministério da Saúde, mas não deixou a direção do Instituto. Lá formou uma bela equipe, trabalhou com outros sanitaristas à frente de seu tempo, como Carlos Chagas, Adolfo Lutz, Vital Brasil. Uns haviam diagnosticado a peste em Santos; outros, se submetido ao Aedis aegypti para provar que era ele que transmitia a febre amarela. Ainda hoje, com nome de Fundação Oswaldo Cruz, ou Fiocruz, a instituição é um templo da ciência e tecnologia da saúde. O primeiro diretor fez das precárias instalações de Manguinhos um castelo. Ele mesmo desenhou o esboço do prédio mourisco, que podia ser visto pelos navios que passavam pela cidade.
Em 1908, enquanto uma marchinha de Carnaval declarava o Rio “cidade maravilhosa”, o Instituto Soroterápico virava Instituto Oswaldo Cruz. Sinal de novos tempos. A febre amarela e a peste bubônica estavam praticamente erradicadas. Um ano antes o Brasil fora o único participante sul-americano do Congresso de Higiene e Demografia de Berlim. A delegação apresentou os estudos da equipe de Oswaldo Cruz e voltou aplaudida no porto, com medalha de ouro.

Saúde nos grotões
Oswaldo Cruz já era visto como herói, mas tinha dificuldades em aprovar seus projetos na diretoria da Saúde, como o combate à tuberculose, doença que matava apenas os pobres. Optou por dirigir só o instituto que levava seu nome. Foi à “ferrovia do diabo”, a Madeira-Mamoré, na qual os trabalhadores morriam infectados por malária. Supervisionou inúmeras expedições para lugares afastados dos centros: Tocantins, Ceará, bacia do Amazonas, do São Francisco. Nascia o Movimento Sanitarista, defendendo o saneamento nos grotões do País. Um dos líderes, Monteiro Lobato, até refez a imagem de Jeca Tatu. Ele não era preguiçoso. Estava doente.
Oswaldo Cruz também não andava bem da saúde. Sofria de nefrite, a mesma doença que matou o pai. Já tinha até escolhido o local de seu jazigo. Teve tempo ainda de ser prefeito de Petrópolis e traçar um plano de erradicação da saúva antes de morrer, em 1917, aos 44 anos. Se quase um século depois é comum que o brasileiro previna-se de doenças com uma injeção, um dia a ideia pareceu absurda. Oswaldo Cruz perdeu batalhas, mas ganhou a guerra.

 

SAIBA MAIS
Oswaldo Cruz, de Humberto Werneck (Fundação Oswaldo Cruz, 2003).
Site do Projeto Memória dedicado a Oswaldo Cruz:
www.projetomemoria.art.br
Clique aqui e confira o filme Oswaldo Cruz – O médico do Brasil (2003), de Silvio Tendler.

Natália Pesciotta
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