2 DE MARÇO – DIA NACIONAL DO TURISMO

Muito além do Redentor

Roteiro mostra para estrangeiros o que o Brasil quer esconder

{março de 2007}

Turistas em Vila Canoas, beneficiada pelo Favela Bairrinho.

Nove horas do domingo. Três estonianos embarcam em uma van na porta do hotel em Copacabana. Acomodam-se ao lado de quatro franceses. A guia, que até o momento falava francês, informa que o passeio será em inglês. Cena convencional, o destino não muito: favelas da Rocinha e Vila Canoas, duas comunidades pobres e de realidades opostas.
O Favela Tour, roteiro de três horas de duração, é realizado diariamente há 14 anos. Apesar de inusitado, não há conotação de safári no passeio. Quem faz o trajeto, alternativo, busca uma visão mais ampla sobre as desigualdades sociais da cidade.
Em carro fechado, com orientação para evitar fotografar determinados locais e não usar binóculos, os turistas recebem informações sobre segurança e economia no Brasil.
Divulgado em guias internacionais, o Favela Tour é apresentado em folhetos e páginas na internet em inglês. A procura parte essencialmente de estrangeiros. Segundo o proprietário, Marcelo Armstrong, os turistas daqui ainda têm preconceito em relação ao morro. “Mas não há perigo. Havendo um por cento de instabilidade, o passeio é cancelado”, garante. O tour começa pela lagoa Rodrigo de Freitas, zona nobre. Ali, explica- se a origem das favelas pelo “bota-abaixo” promovido pelo prefeito Pereira Passos, de 1902 a 1906, que derrubou casas do centro, empurrando os moradores para os morros.
Depois, Rocinha, maior favela da América Latina. Na primeira parada, pausa para admirar a belíssima vista do mar. Crianças jogam capoeira, turistas filmam. Com um som portátil, Ivson Lima dubla as músicas do cd que gravou e vende ali. Cada cópia, pintada à mão, sai por 30 reais.
Da laje de um prédio, a guia mostra uma escola e fala sobre educação. Os turistas perguntam, querem saber como é o sistema de ensino, o transporte escolar. Reagem com preocupação.
No centrinho da favela, pausa para comprar tapioca. Apenas um se habilita. Os outros experimentam. No final, degustam cinco tapiocas, alguns pastéis e caldo de cana. Os moradores parecem não ligar para os forasteiros.
Já em Vila Canoas, brincadeiras amistosas não faltam: “Ô, gringo, bate uma foto pra levá nóis pras zoropa?”. Com apenas 2.500 habitantes, livre do tráfico e beneficiada pelo projeto Favela Bairrinho, que dá infra-estrutura e endereço para os moradores, ela é modelo na cidade. Foi lá que os primeiros passeios aconteceram, depois de uma conversa com os líderes comunitários. E é lá que funciona a ong Parati. Mantida pelo Favela Tour, que se responsabiliza por 80% do investimento na organização, ela oferece diversos cursos para os jovens.
No barzinho da comunidade, o rapaz alto, extremamente branco e desengonçado, mal acredita no que lê: pintada na parede, a saudação “bem-vindos!” está escrita em estoniano. Nada como o bom jeitinho brasileiro.


SAIBA MAIS
www.favelatour.com.br

Mariana Albanese
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