PAULO VANZOLINI

Não sou capaz de tocar nem tamborim

{setembro de 2008}

Paulo Vanzolinni

Ele é reconhecido pela comunidade científica mundial. Títulos internacionais, livros traduzidos para várias línguas. Mas não foi a ciência que o tornou popular, e sim o samba. Vanzolini é o autor de Ronda. Para quem acha que se trata de uma música romântica – uma mulher à procura de um homem para declarar o seu amor –, ele esclarece: “O que ela quer é descarregar o pente no pilantra”. Sucesso semelhante foi Volta por Cima, que deu até origem à expressão. E Praça Clóvis, em que narra a história do sujeito que tem a carteira roubada – com 25 cruzeiros e o retrato da amada – mas julga que, para se ver livre de seu “atraso de vida”, saiu barato: Vinte e cinco francamente foi de graça.

Quando você se interessou por zoologia?
Quando eu tinha uns 10 anos, meu pai me deu uma bicicleta. Um dia pedalei até o Instituto Butantan. Fiquei fascinado pelas cobras que, junto com os lagartos, vieram a ser os temas das minhas pesquisas por toda a vida. Ia três vezes por semana ao Butantan, religiosamente, só pra ver se chegava alguma cobra nova.

E por que preferiu cursar medicina?
O curso de zoologia, naquela época, era muito ruim na área de vertebrados. Um amigo do meu pai me deu a sugestão de cursar medicina para, depois, me especializar em zoologia. Dizia que, ao fazer as cadeiras básicas da medicina na USP, teria mais facilidades no doutorado em países como a Inglaterra ou os Estados Unidos. E foi o que aconteceu. Tornei-me doutor pela Universidade de Harvard sem ter que fazer um curso sequer, apenas com a tese. O período nos Estados Unidos, de 1949 a 1951, foi uma bela época. Os norte-americanos foram bons comigo como ninguém nunca foi.

Quando você começou a trabalhar no Museu de Zoologia da USP?
Em 1945, e me aposentei em 1993. Fui diretor do museu durante 30 anos. Depois da aposentadoria, continuei a freqüentá-lo para realizar pesquisas próprias. Ainda vou toda semana à faculdade, mas num ritmo bem menor. Afinal, já estou com 84 anos. Tenho direito a trabalhar mais devagarzinho…

E como passou a fazer música?
Eu era estudante de medicina, mas não saía da Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Estava quase toda noite no Centro Acadêmico XI de Agosto pra jogar snooker e fazer música. Alguns membros do XI de Agosto faziam parte de uma caravana artística que percorria o interior. Tornei-me speaker desse pessoal. Era um grupo de música regional muito bom, mas a grande finalidade mesmo era tomar cerveja de graça pelo Estado todo. Era uma farra.

É verdade que você nunca aprendeu música?
Meu grande amigo Paulinho Nogueira sempre disse que eu não sabia a diferença de tom maior e tom menor. E não sei mesmo. Não sou capaz de tocar nem tamborim. Todas as minhas músicas foram feitas na cabeça. Depois, dava para algum violonista tocá-la. Sambas meus que têm co-autor é porque me atrapalhei com a melodia, entrei num beco sem saída e pedi pra algum amigo me salvar. Sempre tive ótimos parceiros, como o Eduardo Gudin, o Luiz Carlos Paraná e muitos outros. Todas pessoas da maior qualidade e grandes amigos. Só houve um que era sem-vergonha. Mas não quero falar quem é porque já estou muito velho pra ficar arrumando polêmica à-toa. A única coisa que exijo das pessoas é que sejam direitas. Aliás, é assim que divido a humanidade: pessoas direitas e não direitas. Nenhum dos meus 60 e poucos sambas tem a palavra “malandro”. Eu tenho raiva de malandragem.

Paulo Vanzolini

Ronda foi o seu primeiro sucesso. Qual é a história da música?
Compus Ronda em 1945, quando estava servindo o Exército. Às vezes, dava patrulha do meretrício e, sabe como é, sambista está sempre atrás de temas. Eu via aquelas mulheres indo de bar em bar, como quem procurasse algo. A música é uma piada, uma brincadeira. Vou iludindo o ouvinte, que pensa que é uma música romântica, de uma mulher que pretende encontrar o amado. Aí, no fim, o que ela quer mesmo é descarregar o pente no pilantra. Na verdade, não acho essa canção grande coisa. É meio piegas.

Ela só foi gravada anos depois, não é?
A gravação só veio em 1953, e foi quase sem querer. Eu e minha primeira mulher éramos muito amigos da Inezita Barroso. Um certo dia, ela foi ao Rio gravar. Nós fomos junto, apenas para fazer companhia. Mas, na hora da gravação, ela percebeu que não havia nenhuma canção para o lado B. Era um sábado de manhã e não dava tempo pra pedir autorização a outro compositor, só a mim. Ela gravou muito bem. A Inezita é uma das maiores cantoras de samba de todos os tempos. Já vi o morro do Salgueiro chorar ao ouvir ela cantar músicas de Noel Rosa.

Praça Clóvis também é dessa época. Qual foi a inspiração?
Eu pegava o lotação na Praça Clóvis, na região central de São Paulo, pra ir ao museu. Às vezes, demorava 15, 20 minutos para o carro lotar. Pra passar o tempo, eu me divertia vendo os batedores de carteira em serviço. A polícia pegava, dava a volta no quarteirão, soltava e dizia: “Vai trabalhar, vagabundo!”.

Você nunca encarou a música como profissão?
Nunca. Música para mim sempre foi um hobby, uma diversão entre amigos. Também nunca compus para gravar. O mercado de música era uma droga, muito sujo. O primeiro sambista profissional que conheci foi o Ismael Silva. Aí eu perguntava: “Essa música não é sua? Não foi você que fez?”, e ele respondia: “Eu fiz, mas vendi para o Francisco Alves. Então é dele”. Sambas maravilhosos eram vendidos por 20 mil réis, uma mixaria.

Você ganhou dinheiro com as suas composições?
A única que rendeu muita grana foi Volta por Cima. Doei todo o dinheiro para que o Museu de Zoologia comprasse novos livros. Quando a Globo lançou a música Cuitelinho numa novela, também caiu algo na conta. O meu parceiro nessa canção, Antônio Xandó, já havia morrido. Procurei seu filho e entreguei a metade do valor depositado. Era a minha obrigação.

Qual a importância do Jogral, bar que você freqüentava nos anos 1960?
Lá era o grande ponto-de-encontro dos intelectuais e músicos.
O dono era o grande compositor e amigo Luiz Carlos Paraná. Quando ele ia inaugurá-lo, sugeri: “Faça do Jogral um bar diferente. Não ponha microfone”. O bar era pequeno, e o cantor se sentava às mesas e perguntava às pessoas o que queriam ouvir. Foi um bruto sucesso. Lá foram lançados Jorge Ben, Martinho da Vila, Trio Mocotó… Aliás, o nome do trio surgiu lá. Jorge Ben era vidrado numa mulher bem gorda que freqüentava o bar. Sempre que a moça aparecia, ele gritava: “Olha o mocotó da mulher!”.

Você e Adoniran Barbosa são considerados os dois mais importantes sambistas de São Paulo. Havia rivalidade?
Ele era muito meu amigo. Um dia fizeram a mesma pergunta para ele, que respondeu: “Não há rivalidade… O Paulo é erudito e eu sou pitoresco”. Sempre tomávamos uma cachacinha juntos. Ele só teve um problema sério na vida: metade do Adoniran se chamava Osvaldo Moles, que era produtor da Rádio Record. Um dos primeiros sambas do Adoniran, Tiro ao Álvaro, não é dele, mas do Moles, que deu pra ele gravar. Ele inventou um personagem para um programa de rádio, chamado Charutinho, em que Adoniran era o protagonista. Só que Adoniran se tornou Charutinho por toda a vida. O personagem entrou de tal forma nele que, muitas vezes, Adoniran não sabia mais quem era o personagem e quem era ele de verdade.

Paulo Vanzolini

Você também tinha uma relação próxima com a família Buarque de Holanda, não?
Sim. O Sérgio Buarque de Holanda era diretor do Museu do Ipiranga, e éramos grandes amigos. Estava quase toda noite na casa deles. Adorava o Serjão e toda a família. O Chico sentou muito neste colo… Desde pequeno ele era um menino fabuloso e superinteligente. Um dia me mostrou uma música que havia acabado de compor. Era Pedro Pedreiro. Fiquei impressionado como aquela canção era perfeita. Chico é a única unanimidade que existe no Brasil. Pode-se discutir a respeito de qualquer pessoa, menos dele. A partir do Serjão, também conheci outras grandes personalidades, como Vinicius de Moraes, uma das melhores pessoas que encontrei na vida. Só tinha o defeito de fazer samba nas coxas, de uma noite pra outra, quase só com a emoção. Em geral, o resultado era ruim. Vinicius foi um dos maiores poetas da língua portuguesa, mas um péssimo sambista.

Fazer samba é trabalho mais intelectual do que emocional?

Claro. Apenas com emoção não dá certo. Escrever letra dá um trabalhão. Tem que ser bem produzida, escolher as palavras perfeitas. Conhece coisa mais inteligente que os sambas de Noel Rosa?

E o samba de uns tempos pra cá?
Dos atuais, os melhores são Chico e Paulinho da Viola. O Zeca Pagodinho também me agrada muito. Ele é um malandro do bem. Tenho certeza que é um ótimo pai de família… Mas conheço pouco outros nomes mais recentes. Ouço muito samba em botequins, e posso dizer que anda se fazendo música de alta qualidade.

Quais cantoras você gosta de ouvir cantar as suas músicas?
Tem várias. A minha mulher (Ana Bernardo), a Inês, a Claudia Morena, a Márcia, a Maria Marta, a Inezita, a Cristina Buarque. Além do Chico, do Eduardo Gudin… Há um monte de cantores de primeira que já gravaram minhas canções.

Há um jeito apropriado de interpretar as suas obras?
Eu sou absolutamente contra cantores excessivos, cheios de emoção e firulas. Meus sambas já têm muita emoção na letra. Se meter mais, lambuza tudo, fica uma coisa piegas. Sempre digo que se deve cantá-los com cara-de-pau. Mas nunca interfiro. Sou a favor do cantor ter total liberdade. Por exemplo, todo mundo canta um dos versos de Ronda errado. O certo é “Porém, com perfeita paciência / Sigo a te buscar”. Todos cantam “Porém, com perfeita paciência / Volto a te buscar”. Alguém errou e, desde então, só se canta a música dessa forma.

Quando saiu o primeiro disco exclusivamente com as suas músicas?
No começo dos anos 1970. O publicitário Marcus Pereira atendia a um banco que queria dar algum brinde aos clientes no Natal. Aí me convenceu a gravar Onze Sambas e uma Capoeira. Alguns anos depois, gravei o único em que canto, Paulo Vanzolini por Ele Mesmo. O disco foi feito de cabeça pra baixo. Cantei sem acompanhamento, porque o violão me atrapalha. A música foi posta depois.

Seu último trabalho artístico foi Acerto de Contas, lançado em 2003, certo? É uma caixa com quase toda a sua obra...
Tivemos total liberdade da gravadora, tanto para a escolha das músicas quanto para a dos intérpretes. O resultado final ficou exatamente como desejei. Além disso, há o crédito de todos os músicos participantes. O que é o mínimo, né? Muitos discos por aí não põem quem tocou o violão, o pandeiro… É um absurdo.

Este ano você se apresentou em São Paulo. Foi uma loucura, não?
Foi na Virada Cultural. Enchemos o Teatro Municipal. Havia uma fila que virava o quarteirão. É bonito, né? Eu adoro meu público. Quando faço shows menores, é a mesma coisa. Sempre aparecem ex-funcionários do museu: “Vai lá, doutor Paulo!”. Pra essa turma, mesmo no palco, ainda sou o doutor Paulo. É bem divertido.

Nunca houve preconceito no meio científico por você fazer música?
Nada disso. Eles sempre acharam engraçadíssimo, tinham orgulho. E o mais divertido é que, para o público, tanto a música quanto a profissão quase se fundiram. Outro dia saiu um artigo científico meu num jornal de São Paulo. No crédito, estava desta maneira: “Paulo Vanzolini, zoólogo e sambista”. Agora sou sambista mesmo quando falo de ciência!

Você pretende continuar fazendo shows?

Sim, sempre que chamarem. É gostoso, mas faço principalmente pelos músicos que me acompanham. Em geral, ganha-se pouquíssimo em apresentações em bares e restaurantes. O pagamento é quase em cerveja e pizza. Fico revoltado com essa situação. Nos meus shows exijo que todos recebam com dignidade.

E as composições? Ainda estão saindo?
Não mais. Meu último samba foi Quando Eu For, Eu Vou sem Pena. Um belo dia, já quase com 80 anos, perdi totalmente a vontade de compor. Não haverá mais músicas minhas. Quem viu, viu. Fiz mais de 60 sambas. Já tá bom demais.

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