LUPICÍNIO RODRIGUES

Nos sambas, pedaços de seu coração

{setembro de 2010}

O sambista baixinho e sedutor cunhou a expressão usada até hoje: dor de cotovelo. Vítima de amores e desamores, de paixões avassaladoras e términos arrasadores, transportou para as canções a melancolia que lhe acompanhava. “As minhas músicas são biografias das páginas mais tristes da minha vida”.

A cena é clássica: o cidadão entra no bar sozinho e melancólico. Na cabeça, a amada, “aquela ingrata” que o abandonou. Pede chope ao garçom. Depois, passa para o uísque. Fica por ali durante horas, com os cotovelos sobre o balcão, remoendo a tristeza pela separação. Momentos como esse inspiraram Lupicínio Rodrigues a construir uma expressão – dor de cotovelo – e um repertório sem paralelo na música brasileira.
Mas não foi apenas na observação alheia que o gaúcho construiu sua obra. Boa parte das canções é autobiográfica. Sua vida amorosa cheia de desilusões serviu-lhe de inspiração para muitos sambas. São mais de 300. Depois de décadas de relações atribuladas, tinha algo para comemorar: “Eu tive muitas namoradas na vida. Umas me fizeram bem, outras me fizeram mal. As que me fizeram mal foram as que mais dinheiro me deram, porque as que me fizeram bem eu esqueci”.
Nascido em Porto Alegre, em 16 de setembro de 1914, era o quarto filho do casal Francisco e Abigail, que teriam 21 no total. A infância foi pobre, mas digna. Era o primeiro homem e o mais mimado entre os irmãos. Pôde estudar, mas os pais ouviam muitas reclamações dos professores. Diziam que o pequeno Lupi (apelido que lhe acompanharia vida afora) só queria saber de baderna, de briga e de cantarolar. Já na adolescência, foi parar no Exército, por ordem do pai, que queria garantir um bom futuro ao filho. Mas gostava mesmo era de passar noites em rodas boêmias, de fazer marchinhas para  blocos carnavalescos e de jogar futebol – décadas depois, inclusive, seria o autor do hino do Grêmio.
Com 16 anos, já no Exército, emplacou a primeira música num bloco: Carnaval. E muitas viriam na sequência, além de se apresentar como cantor em conjuntos. Mas nunca aprenderia a tocar um instrumento. Compunha assobiando.

Nervos de aço
O primeiro grande amor de Lupicínio foi Iná, moça que conheceu em Santa Maria, no interior do estado, quando servia o Exército. O namoro durou seis anos, tornaram-se noivos. Só que ela vivia a reclamar da vida boêmia do pretendente. Cansada, resolveu separar-se. Lupicínio ficou arrasado, mas seguiu a vida. Pouco depois flagrou a moça de braços dados com outro sujeito. O ciúme e a raiva fizeram nascer um clássico, Nervos de Aço: Você sabe o que é ter um amor, meu senhor / Ter loucura por uma mulher / E depois encontrar esse amor, meu senhor / Nos braços de um tipo qualquer. Iná ainda seria inspiradora de outras músicas. “Tudo o que eu canto é verdade”, revelaria Lupi.
O sucesso nacional demoraria. Porto Alegre era um lugar distante do coração do País. Chegava-se por aquelas bandas praticamente só pelo mar. E os marinheiros, que frequentavam as boates da cidade, foram os responsáveis por levar a produção cultural local para outras plagas. Foi pelos marinheiros que Cyro Monteiro, que vivia no Rio, descobriu, em 1938, Se Acaso Você Chegasse, de Lupicínio e Felisberto Martins. O samba estourou na voz de Cyro, e o Brasil começou a conhecer o tradutor da dor de cotovelo.

Viveu e morreu do coração
“É melhor brigar junto do que chorar separado”, costumava ensinar Lupicínio. Só tinha uma coisa que gostava tanto quanto as mulheres: a noite. Até abriu bares, a fim de combinar rendimentos com a vida boêmia. “Eu não sou músico, não sou compositor, não sou cantor. Eu sou boêmio”, dizia. Mas também engajou-se na causa dos compositores. Em 1946, fundou a Sociedade Brasileira de Autores, Compositores e Escritores de Música (Sbacem). E continuava a compor sem parar.
Os mais importantes divulgadores de sua obra foram Francisco Alves e, principalmente, Jamelão. O mangueirense dedicou discos exclusivos às canções de Lupicínio. Entre as escolhidas, Vingança, outro recado do gaúcho para uma mulher que o abandonou.
Sentimental e mulherengo, Lupicínio teve muitas outras paixões que lhe inspiraram sambas: Ela Disse-Me Assim, Volta, Felicidade, Dona Divergência. Numa entrevista ao Pasquim, perguntaram: “Você tem alguma música cujo tema não seja mulher?”. A resposta: “Se tenho, não me lembro agora”. Numa outra entrevista, confessou: “As minhas músicas são biografias das páginas mais tristes da minha vida”.
“Vinicius de Moraes emitiu uma verdade cristalina sobre os poetas e o ato poético: ‘todo poeta só é grande se sofrer’”, lembra o pesquisador musical Ricardo Cravo Albin. Para depois finalizar: “Nesse contexto, Lupicínio terá sido o maior dentre todos os poetas do cancioneiro. Porque ninguém exibiu – com tal opulência – os sofrimentos e as dores de cotovelo como o gaúcho baixinho, de voz mansa e olhos indecifráveis, numa estranha mistura de mel, sensualidade e carência afetiva”.
Talvez a mais importante confissão desse estado de espírito seja um verso de Ponta de Lança: Uma pessoa prestando atenção / Vê que as rimas dos versos / Que eu faço / Trazem pedaços do meu coração. Em 1974, aos 59 anos, Lupicínio morreu como viveu: do coração.

Saiba Mais
Clique e ouça clássicos de Lupicínio no site do Almanaque.

Bruno Hoffmann
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