Nossa casa, nossa cara

{janeiro de 2010}

“A casa é a fisionomia da cultura”, já disse Gilberto Freyre. O jeito como moramos – seja em casas de alvenaria, palha ou terra, sobre a água ou em morros – revela quem somos, nosso ambiente e nossa época. Neste Especial, casas destes e de outros tempos aguardam sua visita para mostrar seu valor.


Sabe o que quer dizer “lar”? É o lugar onde se acende o fogo – do latim lare. As habitações nasceram para abrigar a chama, que protegia de insetos e animais e ajudava no preparo de alimentos. Mas a verdade é que o lar, por dentro e por fora, ultrapassa funções práticas. “Uma casa incorpora fiapos de memórias, fragmentos de desejos e temores, ecos de fantasias, acenos de aspirações e todo o arsenal de sonhos de quem nela habita”, escreveu a antropóloga Maria Lucia Montes.
Para além das fachadas, os espaços internos também retratam o lugar da residência no tempo e no espaço. Nos tempos coloniais, nenhum europeu abria mão do alpendre – que hoje chamamos varanda –, desacostumados às altas temperaturas. A copa, por exemplo, apareceu como cômodo no início do século 20, e passou a reunir a família, em torno da mesa e do rádio. Mais tarde, os moradores seriam levados para a sala, atraídos pela televisão.
“A casa é fisionomia da cultura”, dizia Gilberto Freyre. Em livros como Casa-Grande & Senzala, A Casa Brasileira e Sobrados e Mocambos, o sociólogo pernambucano mostrou como cada tipo de construção representa um tipo de vida e seus valores. A casa-grande era símbolo da sociedade patriarcal escravocrata. Os sobrados, da soberania dos comerciantes, enquanto a choça de palha mostrava o espírito aventureiro dos bandeirantes. Do mesmo modo as casas operárias, só por serem assim chamadas, já revelam uma consciência de classe.
Não existe um modelo único de “casa brasileira”. Às moradias indígenas e dos colonizadores portugueses somam-se modelos das mais variadas origens: chalés suíços, bangalôs anglo-indianos, elementos da arquitetura alemã, italiana, polonesa, japonesa, síria. É para essa tradição mestiça que abrimos as portas nas próximas páginas.

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Herança árabe protegeu nossas donzelas

Nas casas do Brasil Colônia, a alcova (do árabe al-qubba) era reservada para as donzelas dormirem. Como as moças deveriam ficar “resguardadas”, o ambiente não possuía janelas. Também para proteger senhoras e senhoritas, as janelas de muitas casas possuíam muxarabis, espécie de balcão fechado por treliças ou gelosias – também influência árabe. Assim, as mulheres das casas podiam espiar sem ser espiadas. Logo que a família real chegou ao Brasil, porém, os muxarabis foram expressamente proibidos. A ideia era “europeizar” o clima oriental da colônia.

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Sem eira nem beira, sem pé nem cabeça


Em qualquer cidade histórica é fácil encontrar casas com ornamentos no beiral. Costuma-se explicar que as “ondinhas” chamam-se eira, beira e tribeira. As casas mais ricas tinham os três ornamentos; as mais pobres, “nem eira, nem beira”. Estaria aí a origem da expressão. Entretanto, não existe nenhuma referência a estas nomenclaturas nos tempos coloniais. A expressão pode ter nascido em referência apenas ao beiral – que as casas populares, de pau-a-pique, não possuíam. Eira, segundo os dicionários, é um terreno onde ficam os cereais depois de colhidos, e também poderia representar posse. Provavelmente as palavras “eira” e “beira” foram unidas na expressão por causa da rima.

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Pseudossobrados simulavam cômodos para fingir riqueza
No centro das cidades do Brasil Imperial predominavam as casas geminadas, “de porta-e-janela”. O engenheiro francês Vauthier, que esteve em Pernambuco no século 19, chegou a escrever a um amigo: “Quem viu uma casa brasileira, viu quase todas”. Mas havia diferenciação: quanto mais janelas e andares a casa tivesse, mais alta era a posição social do morador. Surgiam assim “pseudossobrados”, nos quais se disfarçava o porão ou o sótão como andar. Mesmo que o espaço fosse desnecessário e tivesse pé-direito praticamente nulo, colocava-se uma janela e inventava-se um cômodo.

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Gilberto Freyre dedicou um livro à morada dos quilombolas

Ao comentar sobre a semelhança das residências do Império, Vauthier não levou em conta as casas mais periféricas ou rurais, e talvez nem considerasse “casas” habitações populares como os mocambos.
Gilberto Freyre, por outro lado, dedicou parte de um livro a essas cabanas dos quilombolas, mestiços e mamelucos: Sobrados e Mocambos, de1936. Com os cipós fazendo “as vezes de pregos” e folhas “servindo como portas”, elas representavam o brasileiro rústico, que encontra adaptações a seu meio. “Seus traçados”, completa o sociólogo, “quando mais artísticos, se assemelham a uma arte da renda em que, com a palha, se consegue efeitos, além de funcionais, atraentes e até belos”.

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A casa que vem da terra
A taipa de pilão foi a técnica de construção predominante no Brasil Colônia. Taipais são espécies de formas em que o barro é colocado, com o auxílio do pilão, até secar, dando forma a paredes. Às vezes, no Brasil, usava-se revestimento de azulejo para conter a umidade. Por isso, em Portugal, as construções que também usam esse tipo de solução ficaram conhecidas como “brasileiras”.
Nas taipas de mão e de sopapo, comuns em habitações populares, o barro envolve uma estrutura feita de galhos ou bambus (pau-a-pique). Ou a argila é colocada com a mão ou, literalmente, sopapada – que quer dizer “arremessada”. Nesse caso, um taipeiro joga o barro na parte externa da estrutura ao mesmo tempo em que outro joga na parte interna. Cantigas ritmadas ajudam a sincronizar os sopapos dos dois lados: a cada tônica musical, um arremesso.

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Cidade suspensa
Tem na Amazônia, no Pantanal, em Salvador, em várias periferias do Brasil. Os “paus fixados” (em italiano, palafitta) que sustentam as casas em mangues, pântanos ou beiras de rios, são comuns em todo o mundo. Mas so no Brasil existe uma cidade inteira suspensa por palafitas. Todas as casas e ruas de Afuá, no Pará, ficam a pouco mais de um metro do solo. Lá moram 40 mil pessoas.

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No enxaimel brasileiro, saíram chaminés, entraram varandas

Enxaimel é técnica de construir com tábuas encaixadas. Foi trazida pelos germânicos, principalmente para o Sul do País. Hoje, mais do que para o tipo de construção, o nome é usado para o estilo de casa. As residências de origem germânica mantiveram aqui o teto pontiagudo, como se ainda precisassem escoar a neve. Mas repare que, para o novo clima, os lares perderam as chaminés e ganharam alpendres.

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Pernambucanos criaram a parede ventilada

Conhecido como “elemento vazado” em várias partes do País, no Nordeste se chama cobogó. Vem dos sobrenomes dos pernambucanos que criaram a peça, nos anos 1930: Amadeu Coimbra (CO), Ernest A. Boekman (BO) e Antônio de Góes (GÓ).

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Além da janela…
ÁGUA Cada plano do telhado
ALCOVA Ambiente sem janela (termo colonial)
ALPENDRE Varanda (termo colonial)
BALAUSTRADA Colunetas que sustentam peitoral ou corrimão BEIRAL  Prolongamento do telhado além da parede
CUMEEIRA Parte mais alta do telhado
GEMINADO Casas de paredes-meia, iguais entre si.
GELOSIA Grade de madeira que ocupa o vão de uma janela (em italiano, ciúme)
GUARDA-CORPO Proteção a meia altura que resguarda terraço ou vão
PAREDE-MEIA Parede comum a duas construções

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Há ocas para todas as tribos
Ao pensar em habitações de índios, qual a primeira imagem que vem à mente? Seja qual for, existem inúmeras outras além dessa. Algumas tribos, como a xavante, fazem ocas redondas para cada duas ou três famílias, que têm seu espaço delimitado por esteiras. As dos tupis-guaranis são retangulares. Além disso, há índios que levantam uma única construção, gigantesca, para a aldeia toda. Um costume frequente é, quando as casas ficam velhas, queimá-las para construir novas.

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VOCÊ SABIA?
Sapê vem do tupi iça-pe: que alumia. O capim-sapê, por ser brilhante, era usado pelos índios em fachos para iluminar os caminhos de noite. Além, claro, de ser um dos elementos de construção, como outros capins e folhas – de palmeira, pindoba, babaçu…

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Arquiteto enganou a prefeitura para erguer casa modernista

Para que a Prefeitura de São Paulo aprovasse o projeto da sua casa, em 1928, o arquiteto Gregori Warchavchik o entregou camuflado de ornamentos. Depois que conseguiu passar pela aprovação, fingiu que faltou dinheiro para fazer todos os enfeites e a construção ficou como ele queria. Foi considerada a primeira casa modernista brasileira. A beleza, diziam os modernistas, deve vir da racionalidade interior. Ao lado de linhas retas, Warchavchik usou as “tão decorativas e características telhas coloniais”. Rebateu os críticos: “Tentei criar um caráter de arquitetura que se adaptasse à região, ao clima e também às antigas tradições desta terra”.
Em 1950, a “casa de vidro” de Lina Bo Bardi, em meio à Mata Atlântica paulistana, seria a máxima integração moderna da casa com o ambiente.

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E as casas foram empilhadas
Foi com má vontade que a classe média das grandes cidades começou a trocar a casa pelo apartamento, com o crescimento dos centros urbanos. Mas pior mesmo foi a crítica dos artistas e intelectuais. Diziam que os prédios eram “estantes de burgueses”.

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De puxadinho em puxadinho
Os barracos nas favelas são como digitais: não existe um igual ao outro, já que vão sendo feitos continuamente, sem seguir projetos. Eles nascem como abrigos improvisados, feitos de madeira, latão ou mesmo papelão. Ainda que durem para sempre, não perdem sua condição de provisoriedade. Mesmo quando transformam-se em casas de alvenaria, há sempre uma reforma em andamento –
para abrigar mais um parente, um filho que nasceu, um inquilino. “A construção é cotidiana, continuamente inacabada”, observa a  urbanista Paola Berenstein Jacques. Ora surgem anexos – os famosos puxadinhos –, ora construções sobre lajes, o que acaba por configurar uma paisagem cada vez mais recorrente nas periferias: verdadeiros edifícios improvisados na favela.

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Invenções brasileiras
Lego tamanho real

O tijolo solo-cimento é uma invenção dos anos 2000. Composto por 70% de  areia, não é queimado no forno. Pelo contrário, adquire liga sendo molhado. As peças se encaixam, dispensando argamassa.

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Tijolo vegetal

Nem barro nem solo. O tijolo ecológico, inventado pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia em 2009, é feito de restos de casca de coco, castanha-do-pará e tucumã. Além de ecologicamente correta, a peça oferece proteção contra o calor amazônico.

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SAIBA MAIS

Clique aqui e leia matérias já publicadas sobre a proibição dos muxarabis e sobre Afuá, a cidade de palafita.

Arquitetura Popular Brasileira, de Günter Weimer (Martins Fontes, 2005).
Moradas do Brasil
, de Carlos Lemos e Rui Faquini (DBA, 2008).

Natália Pesciotta
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