BADEN POWELL

O País num violão

{agosto de 2010}

Desde menino, ele impressionava gente graúda como Pixinguinha. Nem por isso deixou de estudar violão um dia sequer na vida. Um dos principais parceiros de Vinicius de Moraes, é reverenciado entre os maiores violonistas do mundo. Soube traduzir como ninguém as referências brasileiras para um novo sotaque de seu instrumento.

Leia com trilha sonora

Ele só divide o milhão e meio de resultados para o seu nome no Google – muito desigualmente, ganhando por incrível vantagem – com um general britânico. Em 6 de agosto de 1937, quando nasceu na pequena Varre-e-Sai,
Rio de Janeiro, o pai escolheu o nome do fundador do escotismo, sua paixão, para nomear o garoto.
Além de escoteiro e sapateiro, seu Tic também tocava violão. Baden cresceu no bairro carioca de São Cristóvão, acostumado com sambadas e saraus, batucando ritmos em mesas ou armários. Quando Tic descobriu que o filho escondia um violão embaixo da cama, aos oito anos, resolveu ensinar-lhe o que sabia. O menino logo esgotou os conhecimentos do pai e passou a outros professores.
Na casa do músico Meira, além das aulas, participava de rodas com gigantes como Pixinguinha. Um dia,  Baden não tinha nem 10 anos, o professor o levou para um programa de calouros na Rádio Nacional. Quando chegou na emissora, menino franzino,
carregando aquele instrumento enorme para seu tamanho, ninguém deu muita confiança. Bastou começar a dedilhar, no entanto, para mostrar que, mais um pouco, o violão faria parte de seu corpo.

Metade
Passados quatro anos, Meira não tinha mais o que ensinar ao garoto prodígio. Baden era profissional, tocando na noite. Com seu charme, timidez e esperteza, formou-se no colégio paparicado pelas professoras, apesar de bastante ausente nas aulas. Integrou a orquestra da rádio onde um dia foi calouro. Era o violonista preferido do maestro Guerra-Peixe. Tinha um duo com o sanfonista Sivuca e era disputado por artistas como Elizeth Cardoso, Alaíde Costa, Cyro Monteiro.
Apresentando Baden Powell e Seu Violão, de 1959, registrou pela primeira vez em disco solo seu toque vigoroso, com som forte e delicado ao mesmo tempo, tão peculiar e vibrante. “O violão é minha metade”, já podia afirmar. Toquinho, outro excepcional violonista, costuma dizer que a mão direita de Baden tocava por duas, tamanha leveza e agilidade – talvez nem saiba que o amigo era canhoto.
Baden estudava horas com um peso amarrado no pulso. Mesmo quando já era um dos maiores, nunca deixou de trabalhar a técnica oito horas seguidas, todos os dias, sem falar nas apresentações e gravações. Tudo aliado à vida noturna. Naquele tempo, a bebida era apenas decorrência da boemia. Só no fim da vida, no fim dos anos 1990, tornou-se um problema, ao lado da depressão. Quando morreu, em 2000, havia se convertido a uma religião evangélica.

A bênção, Baden Powell
“Não há acorde mais brasileiro do que o de Baden Powell”, defende o diretor musical Fernando Faro. A mistura única de influências afro-brasileiras e regionais tinha raízes no avô, pai de Tic. Vicente Thomaz de Aquino regia uma banda de escravos que cantavam sua cultura. Além da herança, Baden dominava tanto valsas quanto sambas e choros. Quebrava barreiras entre erudito e popular. Vinicius de Moraes achava que o Samba em Prelúdio, melodia do amigo que ele letrou, era “o clássico que Chopin esqueceu de fazer”.
A dupla do Poetinha com o “parceiro novo, amigo novo”, a quem Vinicius reverencia antes de cantar Samba da Bênção, foi uma das mais importantes da nossa música. Além dos dois sambas citados, rendeu pérolas como Berimbau e Canto de Ossanha, coroadas no álbum Afrosambas, de 1966. A parceria começou com três meses de trabalho intenso na casa do poeta, tudo regado a garrafas e mais garrafas de uísque.
Baden tinha 20 e poucos anos, Vinicius passava dos 40. Décadas depois, o violonista faria o papel do amigo ao iniciar na boemia e composição o menino Paulo César Pinheiro. Outra grande parceria, da qual resultou Lapinha, Vou Deitar e Rolar, Samba do Perdão.

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“Estudava violão com um peso amarrado no pulso. Mesmo quando já era um dos maiores, aperfeiçoava sua técnica horas por dia.”

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Uma escola sozinho
No dia em que Vinicius completaria 80 anos, em 1993, fez-se um show grandioso na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Baden, na plateia, pediu aos organizadores a gentileza de não o chamarem ao palco. Quando seu nome foi anunciado, o público veio abaixo em aplausos. “Como é que, com um público desses, não me chamam pra tocar?”, provocou a um colega no final. Baden gostava de festa e reconhecimento, mas não era do tipo que se deslumbrava com o sucesso.
No mesmo ano do lançamento do Afrosambas, recebeu telegrama do saxofonista Stan Getz: “Venha imediatamente para tocar quinta-feira na Casa Branca para o presidente Johnson”. Respondeu: “Impossível, tenho show com Elis Regina no Zum-Zum”.  Nessa época, já tinha grande prestígio na Europa. Depois de uma apresentação na qual teve que voltar ao palco oito vezes em Paris, nos anos 1960, passou a morar na capital francesa, onde nasceram seus dois filhos, Philippe e Marcel, também músicos.
Além da expressão que conquistou no repertório brasileiro, o menino de Varre-e-Sai entrou para o rol dos violonistas mais importantes de todos os tempos, em todo o mundo. “É uma escola que começa e acaba nele”, declara o bandolinista Hamilton de Holanda, discípulo, como tantos outros jovens instrumentistas do País, da sensibilidade e do talento de Baden Powell.

Saiba Mais
Clique e ouça uma seleção de músicas do violonista.
O Violão Vadio de Baden Powell, de Dominique Dreyfus (Editora 34, 1999).

Natália Pesciotta
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