O País que não cabe na fábula

{agosto de 2007}

Nesta edição centenar, bem que poderíamos arriscar 100 lugares deslumbrantes dessa nossa terra de encher os olhos. Como não há espaço, vamos flutuando aos sabor das águas; correndo os quatro cantos por igapós, rios frágeis, secos ou caudalosos. Vamos por mar, que varanda melhor para o Atlântico não existe. Viva os Brasis, que Brasil um só, não há.

As cataratas do Iguaçu, com suas 275 quedas, compõem uma verdadeira sinfonia.

Se é possível decifrar a natureza de um país, o Brasil é daqueles que não se entregam. Senão, vejamos. No litoral Nordeste, praias de areia marfim, coqueiros e águas turmalinas. No Norte, quilômetros adentro, o oceano é doce. Na maré baixa fica a impressão de que o mar pediu as contas e se mandou. As praias chegam a ter quatro quilômetros de largura. E para seguir nos contrastes, vamos descendo até o extremo sul: atravessar a Praia do Cassino, no litoral gaúcho, só mesmo de carro. São 240 quilômetros de extensão, a maior praia contínua do planeta.
A Floresta Amazônica é fantástica, só vendo. E mesmo vendo é difícil acreditar. São rios de águas escuras que não se misturam com os de águas barrentas – labirintos de igarapés e igapós no meio de mata fechada. Naveguemos. Um insólito arco-íris de uma única cor, escarlate, corre solto contra um céu ultramarino. São os guarás vermelhos, aves dos trópicos que antecipam o pôr-do-sol na ilha Canela, no litoral bragantino do Pará. Com o pouso desses pássaros, as árvores no interior do mangue – antes de um verde absoluto – parecem agora enfeitadas para o Natal.

Floresta adentro
Vamos seguindo pelo rio. Ao acordar numa das margens do Amazonas, num certo dia de junho, a gente pode pensar que surtou. Ou, na melhor das hipóteses, se acredita daltônico. A camisa canarinho da seleção brasileira é vermelha; as garrafas de coca-cola são azuis, vejam só. Não, não estamos adentrando um dos contos de realismo mágico do nosso Murilo Rubião. É dia de festa em Parintins, que nessa época do ano fica tomada pelos imiscíveis azul e vermelho dos bois-bumbás rivais.
Provas não faltam para legitimar os permanentes encantos da Amazônia, onde os fenômenos da natureza transbordam. É o caso da pororoca, ou poroc-poroc, que no idioma tupi significa estrondo. São as marés do Atlântico que, tomadas de uma força impressionante, invertem a correnteza do Amazonas e avançam a velocidades de até 25 quilômetros por hora. As ondas se elevam a 3,5 metros. Barulhão por barulhão, essas águas só perdem para as Cataratas do Iguaçu e suas 275 quedas. Verdadeira sinfonia.

Sedução turística do litoral alagoano.

Do sertão ao mar
Vamos seguindo. Agora por terra, que a paragem é seca, como já alertou João Cabral em O Rio, personagem que, como os homens, insiste em ir a caminho do mar:
Por trás do que lembro, / ouvi de uma terra desertada, / vaziada, não vazia, / mais que seca, calcinada. / De onde tudo fugia, / onde só pedra é que ficava, / pedras e poucos homens / com raízes de pedra, ou de cabra.
Mas não se espante ao deparar com turistas europeus passeando pelo sertão nordestino. Virou moda. É destino turístico sedutor, com atrações que vão do verde improvável ao marrom seco da terra castigada. Dos achados arqueológicos às mais singulares produções artísticas de mestres artesãos.
Terra abaixo, vamos bater num recanto aninhado entre a exuberância tropical da Serra do Mar e as águas tranqüilas da baía de Ilha Grande, quase na divisa Rio-São Paulo: Parati, brincadeira do tempo. Tudo remete aos séculos 18 e 19. Poucas centenas de quilômetros dali, nas cidades históricas de Minas, o tempo também arrasta o pé. O passado se mistura ao presente. Uma história vai e outra vem, nestas que foram as cidades mais ricas do Império.

Terra tutti-frutti
Ir para o próximo destino exige mais do que uma viagem por estradas. É preciso viajar também no tempo. Memórias de um século mais próximo, quando gente de outros cantos da Europa atravessou o Oceano e veio bater por aqui. E eis que, desde então, encontramos brasileiros com cabelos cor de pinhão, ou de cidra, pele de neve, olhos de mar e bochechas parecendo ferro em brasa.

Os labirintos de Igapós da Amazônia.

Essa terra tutti-frutti é de se admirar. Plantações de uvas, bananas, repolhos, o céu refletido nas águas dos arrozais. Flertar com tantos jardins floridos, saborear a gastronomia farta, deter-se em queijarias, destilarias, vinícolas. No inverno tem aquele Sol querendo entrar em cena, no meio da névoa. Aquece menos que lâmpada de geladeira. Esse lugar, tão bem batizado como Vale Europeu, reúne 18 municípios ao redor de Blumenau, Santa Catarina. Veio todo o mundo pelo mar. E pelo mar podemos arriscar uma viagem longa pelo Atlântico. Chegamos ao Maranhão. Nos Lençóis, a natureza das águas prega peças. O lugar se transfigura conforme a estação: a das chuvas, de fevereiro a maio, e a das vazantes, de agosto a dezembro. Numa os Lençóis ficam encharcados com lagoas de cores cintilantes e cachoeiras entre dunas de até 40 metros. Na outra, o sol faz até a sombra se esconder.

Não é fábula
E toca de novo para o sertão, agora no cerrado. Palmeiras desgrenhadas por ventanias, banal vegetação rasteira formada por arbustos com troncos e galhos retorcidos, solos pobres e enormes paredões de rochas. A paisagem ali parece ainda estar na primeira dentição. Mas sob as matas secas do cerrado goiano corre uma natureza exuberante: as cavernas do Parque Estadual de Terra Ronca, no município de São Domingos. Muitas delas escondem rios subterrâneos, galerias e salões decorados com estalactites, estalagmites, cortinas ou paredões dobrados; ninhos de aeólitos ou pérolas, travertinos ou degraus de piscinas; flores de aragonita e calcita.
Enfim, a impressão que fica de nossa natureza é a de que vários esboços de paraíso foram aqui feitos pela mão do Criador. Há muitos Brasis. E há que descobri-los. Não é à toa que os bandeirantes que se aventuraram pelas matas e rios do território brasileiro relataram descobertas quase inacreditáveis em suas cartas ao Rei. Eram descrições tão fantásticas que eles acharam por bem acrescentar: E isso não é fábula.

PRATA DA CASA
QUAL A CARA DA NAÇÃO?

O Brasil é o homem que tem sede

Ou o que vive na seca do sertão?

Ou será que o Brasil dos dois é o mesmo
O que vai é o que vem na contramão? (…)

O Brasil é uma foto do Betinho
Ou um vídeo da Favela Naval? (…)
Quem vê, do Vidigal, o mar e as ilhas
Ou quem das ilhas vê o Vidigal?
Brasil encharcado, palafita?
Seco açude sangrado, chapadão?

Ou será que é uma Avenida Paulista?
Qual a cara da cara da nação?

A gente é torto igual a Garrincha e Aleijadinho
Ninguém precisa consertar
Se não der certo a gente se virar sozinho
Decerto então nunca vai dar

(A Cara do Brasil, de Vicente Barreto e Celso Viáfora)

Heitor e Silvia Reali
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