CHICO BUARQUE

O redator do meu primeiro ALMANAQUE

{agosto de 2007}

Para celebrar a centésima edição do ALMANAQUE, decidimos convidar queridos amigos que, de um jeito ou de outro, estiveram presentes ao longo dessas 100 edições. E eis que na lista pintou o Chico. Afinal, foi com ele que fiz o meu primeiro almanaque, em forma de capa e encartes de seu disco de 1981. Era, de certo modo, o embrião desta revista que o leitor tem em mãos. Mas o que fazer se o sujeito é tão avesso a entrevistas? Vamos então de papo-rápido, por e-mail, em que ele se lembra de histórias, dá palpites sobre a composição ministerial e, como sempre, dá um jeitinho de se gabar de seu dito “futebol vistoso”.

Entre as principais influências artísticas de muita gente da música brasileira está Vinicius de Moraes. Ele, amigo de seu pai, foi também importante na sua formação, na escolha de sua carreira?
Vinicius foi um grande amigo meu, mas no fundo nunca deixei de vê-lo como uma extensão do meu pai. Era uma espécie de meu pai mais doido que me acompanhava por aí, um papai de noitadas, bebedeiras e confissões exaustas. Era às vezes o meu pai em versão criança. E acabou sendo um meu pai mais íntimo. Mas muita coisa que vi no Vinicius já tinha aprendido com meu pai. Como achar graça de quem se dá importância, de quem se leva muito a sério.

Qual a sua primeira imagem de Vinicius?
Minha primeira lembrança do Vinicius vem de Roma, em 1953 ou 1954. Era o Vinicius lá em casa, cantando e tocando o violão da Miúcha, um violão chamado Vinicius. Eu me lembro dele cantando Quando Tu Passas por Mim e Cem por Cento. Depois que ele ia embora, o assunto Vinicius ficava mais uns dias rodando lá em casa. Minha mãe dizia que Cem por Cento tinha sido feita para a Tati, primeira mulher dele. E eu achava que o Vinicius tinha de casar de novo com a Tati.

O que te levou à música, em detrimento de tantas escolhas que se apresentavam?
Um compacto simples chamado Chega de Saudade, de João Gilberto, lançado em 1958.

Ao longo de seus mais de 40 anos de carreira, dezenas de discos, você se arrepende de alguma música que escreveu? Dizem que há um certo desgosto com as canções do Volume 4, de 1970…
Não passo muito tempo relembrando minhas canções antigas. Mas algumas me dão certa aflição, porque claramente feitas às pressas, desperdiçadas. Outras me parecem obscuras, não sei bem o que eu queria dizer com elas.

E, por outro lado, há alguma música da qual você mais se orgulha? Ou um álbum inteiro?
Não tenho muito isso, não. Na verdade, tenho gosto pelas músicas e pelos álbuns durante o processo de criação, em fase de ensaios, nas gravações.

Lembrança minha: nós em um carro, indo talvez para uma partida de futebol, e você deu um jeito de parar o carro, arranjar um telefone e ligar para o seu pai, perguntando quem, afinal, tinha chegado a uma ilha e queimado os navios para não mais poder sair dali. A história acabou entrando em Eu Te Amo, sua e do Tom, de 1980 (Se, ao te conhecer, dei pra sonhar, fiz tantos desvarios / Rompi com o mundo, queimei meus navios / Me diz pra onde é que inda posso ir). Mas o fato é que aquela idéia era tão avassaladora, tão urgente… É sempre assim seu processo de criação?
Não me lembro desse telefonema, mas é bastante crível. Só que a história de queimar os navios, que eu saiba, se passou com Pizarro na chegada ao Peru, para evitar que seus soldados pensassem na possibilidade de uma retirada. Se estou com uma idéia que me parece boa, fico assim mesmo, meio irrequieto. O Drummond dizia que, quando começava a escrever um poema, sentia um pouco de febre.

Uma confissão de inveja: há alguma música de alguém que você gostaria de ter feito?
Isso sim. Gostaria de ter feito milhares de músicas que outros fizeram. Quando estou distraído, só canto e assobio as músicas dos outros. Outro dia, num avião de volta ao Brasil, fiquei mole só de ouvir o Caymmi: Quem vai pra beira do mar, ai/ nunca mais quer voltar, ai.

Qual o seu próximo trabalho, um livro ou um disco?
Gostaria de escrever um novo romance, mas ainda não encontrei o caminho.

Como você interpreta as duas fases mais visíveis da sua produção, como músico e como escritor? Elas formam um conjunto ou são, realmente, duas facetas distintas?
São distantes, nem se falam.

O seu LP Almanaque, de 1981, foi o primeiro almanaque que fiz. É, de certo modo, um embrião deste almanaque que completa 100 edições…
Acho que o projeto gráfico ficou todo por sua conta. Que eu me lembre, colaborei com os textos, mas alguns textos como os de As Vitrines, espelhados, já sugeriam a solução gráfica que você encontrou.

Na sua infância você costumava ler almanaques?

Não me lembro muito de ler almanaques. Do que eu gostava mesmo era de álbum de figurinhas.

Mas tem algum gosto tipo almanaque?
Talvez criar palíndromos seja um gosto de almanaque.

Há muitos boatos relacionados a você, como o de que teria feito a música Jorge Maravilha, de 1974 (Você não gosta de mim / Mas sua filha gosta), para a filha do então presidente Ernesto Geisel. De todas essas lendas, qual você considera a mais divertida?
Nunca fiz música pensando na filha do Geisel, mas essas histórias colam, há invencionices que nem adianta mais negar. Durante a ditadura, de um lado ou de outro, as pessoas gostavam de atribuir aos artistas intenções que nunca lhe passaram pela cabeça. Achavam que a maioria dos artistas só fazia música pensando em derrubar o governo. Depois da ditadura, falam que o artista só faz música para pegar mulher. Mas aí geralmente acontece o contrário, o artista inventa uma mulher para pegar a música.

É verdade que, na Itália, você serviu de motorista para o Garrincha?
Eu morava em Roma, quando o Garrincha chegou com a Elza Soares, que foi fazer uma temporada de shows. Eles foram esticando por lá, fizemos amizade. Fiquei mais próximo do Garrincha, mesmo porque, ao contrário da Elza, ele não tinha muito o que fazer. Ele já não podia atuar profissionalmente, mas era muito popular e ganhava algum dinheiro para jogar bola nos arredores de Roma. Eram pequenos estádios, cujas arquibancadas lotavam para ver o Garrincha. Eu tinha muito orgulho de levá-lo para cima e para baixo no meu pequeno Fiat. E passávamos horas no meu apartamento, bebendo grappa e falando de música, mais que de futebol. O Garrincha era fã de João Gilberto.

Outra que não sei se é verdade é que muitas vezes, no exterior, você teria se dito jogador aposentado da seleção brasileira… Que história é essa?
Aposentado, não, simplesmente jogador da seleção, quando me perguntam se sou brasileiro. É para impor respeito.

Lembro que, numa manhã, há muito tempo, enquanto nos preparávamos para uma daquelas peladas, falei do meu filho Bento, que, apesar de levar todo o jeito para o esporte, tinha desistido por conta do preconceito que sofria. Você disse que havia passado pela mesma situação. Como foi isso?
Talvez não fosse exatamente preconceito. Mas ouvi, sim, rudes ameaças de alguns zagueiros adversários, aborrecidos com meu futebol vistoso.

Agora, política. Você foi o idealizador do Ministério do Vai dar Merda, desgraçadamente não implantado pelo governo federal. Ainda é tempo? Como seria a atuação dele?
Um pessimista mais radical poderia sugerir que esse ministério tivesse poderes retroativos, até 500 e tantos anos atrás. Com o argumento do “vai dar merda”, D. Manuel seria convencido a não financiar a expedição de Cabral.

E já que a palavra de ordem é criar novos ministérios, alguma outra idéia para tratar das questões do País? Ou quem sabe uma nova instituição?
Sim, proponho que se acabe com esse negócio de “este país é uma merda”. Além de ciclotímico, brasileiro é muito auto-referente. Uma vez um italiano me perguntou por que é que aqui há tanta música falando em Brasil, Brasil, Brasil. Drummond já dizia que o Brasil precisa descansar de nossas terríveis carícias.

Qual o seu partido? Ainda está para ser criado?
Nunca tive partido, nem pretendo ter. A entrevista da edição passada foi com Hermínio Bello de Carvalho, que disparou a idéia de uma seção de epitáfios. O dele: “Não vim ao mundo para fazer gracinhas!” Lembrou também o de Eneida de Moraes: “Essa mulher nunca topou chantagem”. E o seu, qual é?

Não quero epitáfio, não. Mas, para a sua sessão, sugiro aquele do Aretino: Qui giace l’Aretin, poeta tosco / Che disse mal d’ogni un, fuorché di Cristo / Scusandosi col dir: non lo conosco [em português: Aqui jaz Aretino, poeta toscano / Que falou mal de todos, menos de Cristo / Desculpou- se dizendo: não o conheço].

Elifas Andreato
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