Heródoto Barbeiro

“A liberdade de expressão está garantida, só que não posso atingir moralmente alguém e não responder por isso”

{fevereiro de 2006}

Historiador e advogado de formação, professor por obra do destino, jornalista por opção. Heródoto Barbeiro dedica sua rotina diária quase toda ao exercício do jornalismo, no rádio, na frente do computador, na televisão. Começa ainda de madrugada, na rádio CBN, e termina de noite, apresentando o Jornal da Cultura, da TV Cultura de São Paulo. É conhecido e respeitado por conseguir realizar um jornalismo que alia bom humor, conteúdo crítico e credibilidade. Neste Papo-Cabeça, Heródoto fala de sua carreira, de suas experiências, de suas entrevistas com o presidente Lula, de suas expectativas e, é claro, de jornalismo.

Heródoto: "Um cara só não faz jornalismo."

O que mais chama a atenção em seu trabalho é a capacidade de aliar credibilidade e humor. Prática jornalística pouco convencional, não?
Não sei quem foi que disse que só há jornalismo de cara feia; que não se pode dar risada. Alguém inventou isso e começamos a repetir: “o humor se contrapõe à credibilidade.” Tanto na rádio quanto na televisão, estamos tentando quebrar esse paradigma. Não se trata de fazer galhofa com o que é sério. A questão é que o humor faz parte da transmissão. Quando você dá uma notícia bem-humorado, atinge o cara duas vezes: racionalmente e emocionalmente. Aqui na CBN, o pessoal todo aderiu. Na tevê há mais dificuldade. Já levei muita porrada do ombudsman da Cultura por quebrar o padrão convencional, dando uma risada ou brincando com determinado assunto. Mas sigo em frente. Quebrar esse paradigma para mim é uma bandeira.

Outros jornalistas seguem a linha?
No Brasil existem modelos interessantíssimos de profissionais que fazem jornalismo de maneira descontraída. O Alberto Dines dá risada no programa [Observatório da Imprensa]. Nem por isso deixa de ser sério. É importante que a quebra no paradigma seja mais na forma de dar a notícia.


“Quem foi que disse que só há jornalismo de cara feia?”

Há outros modelos a quebrar?
Sim, o de que a notícia só funciona na rádio AM, as FMs são rádios musicais. Foi quebrado, e alavancou a CBN. Destacou o óbvio ululante: se você não oferecer um bom som, não vou ouvir você. No dia em que percebemos que boa parte do público-alvo estava dentro do carro, passamos de AM para FM; e nossa audiência se expandiu. Hoje outras rádios jornalísticas também estão com canais FM.

Quanto tempo vocês passaram sozinhos na FM?
Cinco anos, até a concorrência descobrir nosso “segredo”. As pessoas não entendiam que a diferença entre AM e FM não era de programação, mas apenas técnica. O público é exigente; se alguém passa 40 minutos num congestionamento, está perdendo tempo. A única coisa a fazer para não perder tempo é se informar. Procura uma rádio que pegue melhor, uma FM. Havia outro paradigma: jovem não ouve notícia. Não ouvia porque ela estava no AM. No dia em que o jovem descobriu que, entre a rádio que toca rock e a de pagode, tinha a rádio de notícia, conseguimos aumentar a audiência.

Muitas vezes, jornalistas são retratados como formadores de opinião. Você concorda?
Não acho que seja um formador, mas uma pessoa que transmite a opinião pública. Não posso ser especialista em todos os assuntos. Minha função é ir em busca da informação que julgo necessário transmitir. E, a partir de entrevistas com especialistas, trazemos o assunto para o público. Em vez de dizer que o mercado financeiro caiu, melhor chamar o senhor fulano de tal, da bolsa, para explicar por quê. Os manuais das escolas dão a entender que há dois tipos de jornalista: os que carregam o piano e os que são capazes de opinar. É um conceito ultrapassado. Informação a gente acha em todo lado. Mas qualidade a gente tem de buscar em determinados nichos.

Já foi decretada a morte do rádio duas vezes: quando veio a tevê, depois com a internet.
Quando se fala em rádio, as pessoas pensam nisso [aponta um radinho de pilha]. Identificam com eletrodoméstico. Uma caixinha cheia de botões. Não é isso. O rádio é um conceito teórico. É uma comunicação direta, auditiva, à distância. Se entro na internet, digito www.cbn.com.br e começo a ouvir, você pergunta: “Ligou o computador?” Eu digo: “Não, liguei o rádio.” A comunicação auditiva não vai morrer nunca, porque é própria do ser humano. Decretar a morte do rádio é uma bobagem que vem se repetindo há muito tempo. Como dizer que a internet é o grande competidor do rádio: outra bobagem. Se coloco a rádio na internet, posso ouvir em Cingapura, em Tóquio, ou seja, globalizou. Agora, a coisa que mais detesto é, em qualquer coisa de rádio, o convite ter aquele rádio capelinha [modelo antigo de rádio] de 1930. Em vez de olharem para isso [aponta o computador], o rádio de hoje, olham para aquele capelinha. É como dirigir o carro e olhar pelo retrovisor. Vamos parar de olhar para trás e olhar para a frente!


“Quando se fala em rádio, pensa-se em um eletrodoméstico cheio de botões. Não é nada disso. O rádio é um conceito teórico. Decretar sua morte é uma bobagem.”

Qual o próximo passo do rádio?
Tenho proposto cada vez mais termos a transmissão via internet. Hoje, para ouvir a CBN em Campinas, tenho de ligar na CBN de lá. Você pega, por exemplo, a rádio de Heliópolis, comunitária, está na internet. Posso estar em Pequim, e começo a ouvir a Heliópolis. O próximo passo do rádio está na internet.

Você é historiador, não?
Fiz História. Quando comecei a trabalhar como jornalista, na TV Gazeta, não me exigiram diploma. Mas, quando fui trabalhar na rádio Jovem Pan, exigiram. Então fiz vestibular na Cásper Líbero. Dei sorte, foi uma época em que deram uma prensa em cima dos jornalistas que não tinham diploma. E muitos bons jornalistas foram meus colegas. Aprendia com os professores e com eles. Os professores entravam na sala e saía até fumaça. Só tinha cobra lá.

E a História na sua atividade como jornalista, como você avalia?
O curso de História dá possibilidade de você desenvolver o jornalismo além de apenas nomes, datas e locais. Não consigo construir uma notícia de reflexão usando apenas nomes, datas e locais. Preciso ter algum raciocínio sociológico. E História dá isso, mas a escola deveria dar também. Não sou a favor do diploma obrigatório de Jornalismo. Posso ser um beócio, mas, se tenho um diploma, tenho o emprego. E o autodidata que está constantemente estudando e aprendendo não tem condições de trabalhar. A escola deveria valer pelo conteúdo, não pela burocracia. O editor de um jornal é semelhante ao historiador. O que o historiador faz? Levanta as informações, depois edita. Só que em História você trabalha no passado; e no Jornalismo, no presente. Uma das coisas que mais me chocaram quando comecei é que só se usava verbo no passado. De repente passei a usar no presente. Quando o passado é próximo, na manchete você usa o verbo no presente.

Muitas vezes se referem a você como historiador; você se vê como tal?
Não. Somos aquilo que fazemos; hoje faço jornalismo e sou jornalista. Sou advogado, aí perguntam: “Você é advogado?” Respondo: “Eu não, agora sou jornalista.”


“Um ponto importante, que os jornalistas muitas vezes esquecem: nas entrevistas, o presidente não está falando comigo, mas através de mim, com ouvintes e telespectadores.”

Está havendo uma confusão entre livro-reportagem e livro de História. Os jornalistas fazem a História?
O livro-reportagem não é necessariamente um livro que tenha o rigor científico da História. Quando você diz “vou fazer história”, é preciso ter rigor científico, metodologia histórica sobre determinado período. É diferente de fazer um livro-reportagem, porque o compromisso é muito mais de recuperar o passado de maneira jornalística do que de se aprofundar. Quando você lê um livro de reportagem jornalística, não discute metodologia histórica. Discute quais são as fontes, qual é a interpretação sobre o fato, e escreve. Agora, não dá para fazer isso num trabalho histórico. Não quero dizer que jornal não seja fonte histórica; claro que é. Para fazer um trabalho de história da década de 1920, você tem de ir ao arquivo do Estadão, da Folha, do Jornal do Brasil.

Você talvez seja quem mais entrevistou o presidente nos últimos tempos.
Quatro entrevistas até agora.

Como tem visto a evolução das entrevistas do presidente?
Hoje a gente percebe que o presidente está preocupado com sua reeleição. Está tentando pegar números positivos, atribuí-los a seu mandato, para tentar uma reeleição. Qual é a dificuldade das entrevistas? Nas duas primeiras não foram permitidas reperguntas. Como ele foi líder sindical, fala bem, argumenta bem. Mas o que ele faz? Responde rapidamente à pergunta e passa para o palanque. Tem usado bem essa técnica. Quando você está sozinho com o entrevistado, consegue segurar. Mas, quando está com mais colegas, não consegue; ele tem mais possibilidade de falar aquilo que pensa sem ser contestado pelos fatos. Porque o jornalista também não está lá para debater. Está lá para contra-argumentar em cima dos fatos.

Bem, isso é o que vai ao ar. Mas e o homem Luiz Inácio?
Os bastidores. Quando ele assume o cargo, não é mais o líder sindical. Não é a pessoa para quem você ligava às 6 da manhã e entrava no ar para comentar algum assunto. E outra coisa: ele é o presidente da República, uma instituição, e você é um jornalista. Você não é amigo do presidente. O jornalista não pode ser amigo da fonte. Ele assumiu uma responsabilidade e está sendo cobrado. Outro ponto importante, que os jornalistas muitas vezes esquecem: ele não está falando comigo, está falando através de mim, com os ouvintes e os telespectadores. Estou fazendo perguntas que acho que as pessoas gostariam que eu fizesse. Não são “as minhas perguntas”.

Nos dois primeiros anos de mandato, tudo mais calmo, Lula não deu entrevistas, agora passou a dar. Como avalia a estratégia?
Penso que, antes, o Congresso, o PT e os outros partidos seguravam a polêmica e ele podia ficar de fora. Como isso se desfez, não tem mais base aliada, sobrou para ele. Ou ele fala agora, ou está perdido. Ele perdeu uma parte do Congresso e do partido, parte da esquerda do PT voltou-se contra ele. É por isso que ele saiu para o embate.

O presidente vem falando que, quando era da oposição, não tinha uma postura tão ríspida como a da oposição de hoje. Concorda?
Uma coisa é você ser estilingue; outra, é ser telhado. Lula e sua turma, como opositores, puxa vida… Eles eram muito mais bravos que essa turma aí.


“Uma coisa é você ser estilingue; outra, é ser telhado. Lula e sua turma, como opositores, puxa vida… Eles eram muito mais bravos do que essa turma aí.”

Qual a diferença entre liberdade de expressão e liberdade de imprensa?
A liberdade de expressão vai além. Ainda que haja uma multiplicidade de veículos de comunicação, chega-se a um certo momento que é: “Quero expressar determinada convicção e ninguém quer publicar minha visão de mundo.” A internet passou a ser mais um atributo dessa liberdade de expressão. Claro, é uma utopia, mas somos um pouco utópicos. Se ninguém me dá espaço, vou montar meu jornalzinho na internet, mandar para uma turma. Obviamente, a credibilidade vai depender de quem assina e do conteúdo. Por exemplo, você pega o blog do [jornalista Ricardo] Noblat. Tem grande credibilidade. Ele não está num jornal, numa rádio, numa tevê. A liberdade de expressão ganhou com a internet.

E a internet também tornou impossível qualquer resquício de censura à liberdade de expressão, certo?
Exatamente. Tem uma história curiosa nos Estados Unidos. Um cara bateu às portas da Suprema Corte dizendo: “Posso publicar um sítio pornográfico de pedofilia?” A Suprema Corte disse: “Pode.” O cara publicou e a polícia veio e o prendeu. “Mas eu fui autorizado pela Suprema Corte”, ele disse. A resposta: “Tudo bem, você tem a sua liberdade de expressão garantida; mas responde por aquilo que expressa.” A liberdade de expressão está garantida, só que não posso colocar uma calúnia no ar, atingir moralmente alguém e não responder por isso.

Para finalizar, como é sua rotina diária?
Entro na CBN às 5h30 da manhã para preparar a pauta. Mas isso só é possível porque na noite anterior acompanhei o Jornal da Cultura. E não estou sozinho. Tudo no jornalismo é feito pela equipe. Aqui na CBN, em plena madrugada, há um grupo de pessoas para colocar o jornal no ar. Um cara sozinho não faz jornalismo.

Da Redação
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