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Almanaque Brasil
26 – Maio de 2001

RACISMO

"Negro e Pronto!"

O verso acima, citado por um de nossos entrevistados, resume o pensamento dos afro-descendentes. Por mais que tenhamos avançado rumo à “democracia racial”, o preconceito ainda se manifesta a todo momento; e o 13 de Maio é oportunidade para “saravá” os ancestrais e refletir sobre a questão racial entre nós.

ENTREVISTADOS


Benedita da Silva
Vice-governadora do Rio de Janeiro


Nei Lopes
Cantor, compositor e escritor


Thereza Santos
Socióloga, assessora de Cultura Afro-Brasileira da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo

Como deve ser lembrado o 13 de Maio?

Benedita – Dia de lembrar que não somos totalmente livres e apontar ações que nos tornem livres.

Nei – Deve ser comemorado. Não foi apenas estratégia das elites para se livrar de um fardo. Foi também resultado da mobilização de lideranças negras, de setores do povo negro. Na letra de um jongo, reivindico: O dia é tanto treze quanto vinte/ Vambora que o negócio é o seguinte/ Um é feriado novo /O outro é para todo este povo/ Vamos os dois festejar. O 20 de Novembro é dia de celebrar Zumbi. O 13 de Maio é dia de “saravá” os pretos-velhos, com jongo, macumba, samba, mungunzá. O 20 é o Dia da Consciência Negra e o 13 é o da Ancestralidade.

Thereza – Reafirmando a data como dia nacional da luta contra a discriminação e o preconceito.

Conforme aumenta o poder aquisitivo do negro, diminui o preconceito?

Benedita – Quanto maior o poder aquisitivo, mais sofisticado o preconceito. Ainda hoje, reservas de apartamento ou hotel se aconselha fazer por telefone.

Nei – Não. As pessoas “sem berço” são igualmente discriminadas, como se vê com jogadores, pagodeiros.

Thereza – O poeta Cuti escreveu: “Negro e pronto! Contra o preconceito branco.” Infelizmente, não importa poder aquisitivo, formação profissional, escolaridade; é negro e pronto.

Quais os maiores males deixados pela herança escravocrata?

Benedita – A descrença, a desfaçatez e o mito da democracia racial.

Nei – A desqualificação do que vem da matriz africana. Práticas culturais foram caracterizadas como retrógradas, até nocivas; a música, como monótona e lasciva; a religiosidade, como conjunto de superstições; a medicina, como anti-higiênica e inócua. Outro mal é a ocultação da presença negra. Por exemplo, no dicionário Larousse, o cantor Al Jolson é “americano de origem judaica”, como o compositor George Gershwin. No Brasil, raramente figuram personagens realçados em sua circunstância étnica. A pista para você identificá-los é a rubrica “nascido em lar humilde”. O requinte foi o retrato americano: por meio de pintura sobre fotografia, o fotógrafo “embelezava” o retratado, pelo clareamento da pele e alisamento do cabelo. Nos livros de história vêem-se reproduções desses retratos.

Thereza – É a sociedade continuar se recusando aceitar que saímos do estado de objeto para o de sujeito. Todos os outros males são conseqüência.

É comum ouvir que no Brasil o preconceito é menos ostensivo.

Benedita – Só quem não quer ver: preconceito aqui está na cara.

Nei – O mito da democracia racial foi tão difundido, que muitas vezes as pessoas são racistas sem se dar conta.

Thereza – O disfarce fica por conta da “democracia racial” e do “preconceito de ter preconceito”. O preconceito é ostensivo e violento. Veja a Polícia Militar, agente direto da maior forma de violência contra negros e pobres.

Que pergunta você gostaria de responder sobre este tema, que nunca lhe fizeram?

Benedita – Se o racismo é de dentro para fora ou de fora para dentro.

Nei – Se hoje o samba é objeto de discriminação racista. E responderia: atendendo à globalização de mão única, só se aceita música negra se for um pouquinho pop. Se insiste em afirmar valores afro-brasileiros, é desqualificada como pobre e anacrônica, ou é desafricanizada e esvaziada. Caso da música afro-baiana diluída em axé music ou, na melhor das hipóteses, em afropop. E caso do samba imposto pelas gravadoras, com sua sensualização infantil e coreografias padronizadas.

Thereza – Se o movimento negro está organizado em todo o País: sim, em que pesem imensas dificuldades. Mas temos conseguido vitórias e a certeza de que este é o caminho na busca pela igualdade e dignidade.

Dados do IBGE: rendimentos do médico negro são 22% mais baixos; pedreiro negro ganha 11% menos. Ainda temos dois mercados de trabalho?

Benedita – Competência, inteligência, na óptica do empregador preconceituoso, têm uma etnia preferencial, não-atribuída ao negro.

Nei – Na Colônia e no Império, escravo era coisa, fora do alcance da justiça social. Na República, com a desorganização da produção agrícola e a falta de uma política fundiária, os negros vieram para as cidades engrossar a massa de miseráveis. E o imigrante, depois da lavoura, passou a ocupar espaços do trabalho assalariado próprio dos negros. A estes restaram ocupações pesadas e de menor remuneração. Isso se perpetua. Os descendentes dos imigrantes é que são hoje empresários, políticos poderosos, juízes superiores.

Thereza – O Brasil se esconde atrás da “democracia racial” para justificar as desigualdades pondo a culpa no próprio negro. Para mudar, o Brasil teria de ter coragem para se encarar como país mestiço e encarar o negro como parte integrante desta nação, ou se assumir de vez como país racista.

A discriminação racial é ilegal desde 1951 graças à lei Afonso Arinos. Como explicar que o racismo ainda atue?

Benedita – É que não basta apenas a lei. Vale lembrar que a Lei Afonso Arinos atenuava; e a Lei Caó torna crime o racismo desde 1988.

Nei – Até a década de 1960, a Polícia do Exército, no Rio, recrutava no sul soldados altos, louros e de olhos claros, aqui apelidados catarinas, para reprimir os soldados comuns, geralmente suburbanos pretos e mestiços. O fator étnico aí entrava como dado de superioridade. Foi uma das práticas mais hediondas do Estado brasileiro. Hoje, coisas tão explícitas não passariam despercebidas. Mas o “racismo amigável” continua, porque a intelligentsia e a mídia colonizadas fazem questão de negar o pluralismo brasileiro.

Thereza – De cada cinqüenta processos que abrimos contra discriminação, vencemos um. Pensávamos que a Lei Caó nos daria maior força. Quem aplica a lei em geral é tão racista quanto quem pratica o crime. A Constituição assegura o direito à discriminação e ao preconceito porque assegura que somos todos iguais perante a lei “que não funciona”. Como estratégia, nada mais perfeito.

O que acha da revista Raça Brasil?

Benedita – Importante para o quesito visibilidade, projeção positiva da imagem do negro.

Nei – Veio suprir uma lacuna no mercado editorial. Mas o capital que a mantém não está na mão de empresários negros.

Thereza – É importante na medida em que despertou o orgulho de ser negro. Sem visibilidade, ficamos sem espelho por 500 anos. Mas a revista não possui postura política comprometida com a luta maior. Onde situar a esmagadora maioria? Esta maioria luta pela sobrevivência, pela dignidade e pelo respeito 24 horas por dia. Para compreender a linha da revista, basta lembrar que surgiu sob inspiração da Ebony, editada por afro-americanos republicanos.

As novas gerações se mostram mais politizadas, discutindo de várias formas. Um exemplo é o pessoal do Hip-Hop. Este é um caminho válido?

Benedita – Não há dúvida, a política exercida com ideologia firme, determinada, com transparência, influencia. O Hip-Hop é um movimento cultural e político que está fazendo a cabeça da juventude.

Nei – Apesar das boas intenções, não acho que tenha toda essa importância no aumento da auto-estima.

Thereza – Muito temos aprendido com a juventude. Mano Brown e outros têm sido exemplo a seguir. Trabalham a auto-estima e conscientizam sobre a realidade a que foram relegados.



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