Almanaque Brasil
27 – Junho de 2001

Aldo Rebelo, Gladys Massini-Cagliari, Pasquale Cipro Neto, Tom Zé, Zeca Baleiro

Que tal falar portuglês?

A Lei Rebelo, que proíbe uso de palavras estrangeiras, provocou reações país afora. Alguém a comparou à lei que proíbe indústria poluidora de instalar-se à beira de mananciais. “Língua é dinamismo e impureza”, rebateu Tom Zé. E Gladys Massini-Cagliari, professora do Departamento de Lingüística da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp/Araraquara, condena a comparação porque revela “preconceito” contra a língua inglesa, tomada como algo “poluidor”. Pasquale Cipro Neto, o professor que mantém programas na tv, diz que, mesmo admitindo que se possa “poluir” a língua, leis não funcionariam para impedir.

Zeca Baleiro, autor do Samba do Approach, em que faz “uma crítica bem-humorada ao uso exagerado de palavras estrangeiras no Brasil”, lembra: Lamartine Babo já havia “visionariamente tratado do tema nos anos de 1930, com a clássica Canção Para Inglês Ver”. Zeca teme que a Lei Rebelo venha a representar censura, mas acha que “algo precisa ser feito”, por exemplo ensinar tupi-guarani ou iorubá nas escolas, pois a adesão à língua inglesa “tem a ver com ignorância” de nossas coisas.

Apresentamos adiante os depoimentos que colhemos e o questionário respondido pelo deputado Aldo Rebelo, autor da lei que, apesar das críticas, tem no mínimo o mérito de chamar atenção para a questão: É BOM OU RUIM INCORPORAR PALAVRAS ESTRANGEIRAS?

"O bói flertava com a mademoiselle no hall"
Gladys Massini-Cagliari

A língua é o veículo do pensamento de um indivíduo, do qual não pode ser facilmente dissociada; é a manifestação de sua identidade. A pessoa praticamente “assina” sua fala, porque podemos saber-lhe a origem geográfica e social, nível de escolarização, mais ou menos idade, sexo, ocupação.

É verdade que hoje emprestamos mais termos do inglês, porque o domínio tecnológico, político, econômico e cultural dos Estados Unidos nos leva a isso. É, no fundo, uma questão de auto-estima. O brasileiro é levado a pensar que o que vem de fora é melhor. Emprestam-se termos efêmeros como sale (venda), off (liquidação). Este uso é marginal à gramática da língua. E é só esse tipo de uso que seria “barrado”, na luta contra a dominação. Já os termos emprestados por necessidade de nomeação de novas tecnologias, novas concepções de mundo, continuariam a entrar para a língua, com possibilidade de passar a pertencer ao léxico do português (exemplo: verbo xerocar, de xerox). Ambos os usos são legítimos, mesmo os modismos; enquanto um revela uma necessidade do grupo social em criar novos termos, outro revela uma necessidade do indivíduo.

A gramática não está ameaçada de desaparecimento ou de mudança só porque algumas palavras de origem estrangeira foram incorporadas. A gramática é um conjunto fechado; o léxico, um conjunto (de palavras) aberto. A pessoa está sempre aprendendo palavras novas, portuguesas ou emprestadas. O lingüista Mattoso Câmara tomou a frase: O bói flertava com a mademoiselle no hall. E comentou: a maioria das palavras tem origem estrangeira, mas a frase é genuinamente portuguesa, porque a gramática é portuguesa (fonologia, morfologia, sintaxe, semântica).

Na minha opinião de eleitora do Estado a que representa o deputado Aldo Rebelo, seu esforço contra a dominação estrangeira seria mais útil aos que o elegeram se as verbas e o tempo gastos para a discussão dessa lei fossem canalizados para a busca de um meio de levar educação de qualidade à grande massa de população excluída e despossuída.

"Língua é a carteira de identidade de um povo"
Zeca Baleiro

É uma questão complexa essa da Lei Rebelo, porque a oralidade é, sempre foi e deveria ser livre. E proibição, nesse terreno, equivale a censura. Mas algo de- ve ser feito, penso como Policarpo Quaresma (personagem de Lima Barreto, nacionalista ao extremo): por que não termos tupi-guarani como disciplina escolar? Ou iorubá? Pode parecer absurdo, mas essa adesão à língua inglesa tem a ver com ignorância também. Não sabemos quem somos.

Que seria de alguns sambas clássicos sem a palavra madame? De nossos boleros sem a palavra abajur? O francês nos deu expressões belíssimas e já devidamente incorporadas. Com o inglês também já acontece isso.

No mundo do showbiz (veja só!), falam muitas palavras inglesas, algumas necessárias, outras por puro provincianismo. Sacaneio a equipe. Quando falam backstage, corrijo para bastidores (palavra linda, por sinal!); set list digo repertório (outra bela palavra!); evito falar sound check, falo passagem de som.

A ascendência cultural, ou mais especificamente a idiomática, tem a ver com ascendência econômica. Numa perspectiva mais cínica, diria que dinheiro é cultura.

A resistência só não deve ser xenófoba, precisamos nos relacionar com o mundo. Tenho certa aversão a purismos extremados. A lei só vai funcionar se se destinar a apenas coibir abusos. Essa história de ATL Hall, DirecTV Music Hall, Credicard Hall é horrível, sem poesia. Detestaria dizer que moro no Blue Sea Village. Essa modernidade de araque, essa miamização, é resultado do nosso deslumbramento, nosso provincianismo terceiro-mundista, nossa baixa auto-estima.

"Este assunto está cheio de armadilhas"
Tom Zé

Sou a favor da preservação da língua, sou filho de uma dupla língua portuguesa, aquela falada na cidade e a do homem da roça. É nos radicais da língua que está contido o que tenho de metafísica, visão do cosmos, conceitos filosóficos, pressupostos estéticos; portanto, sou a favor da preservação.

Aqui entra a teoria do caos e da complexidade que afirma que uma simples decisão, qualquer que seja, implica o aparecimento natural de vários problemas.

Agora posso começar, porque todo esse assunto está cheio de armadilhas, pode conter um nacionalismo anquilosado e a morte a que se refere a segunda lei da termodinâmica. Dito isso, posso responder.

Um eleitor compara a Lei Rebelo à lei que proíbe a indústria poluidora de instalar-se à beira de mananciais. É válida a comparação?

Sei. Como se fôssemos a água clara e pura; e as palavras trazidas por cinema, informática, esses acréscimos americanos, fossem a impureza. A comparação traz um problema, porque língua é dinamismo e impureza.

A invasão de termos americanos não se barra com leis, mas com o país realmente independente econômica e politicamente?

Em parte é verdade. Depois do cinema e, agora, de canais que nem traduzem nomes de seriados, há uma quantidade enorme de líquido embebendo esta nossa esponja. O modelo de rebeldia do adolescente brasileiro é importado, os garotos do Capão Redondo não dizem só “mano”, dizem “bró”, “brother”. Junto vem a ideologia da desvalorização da vida. Espero que consigamos converter essa raiva em Eros, em vitalização, largando Tânatos pra lá.

A resistência à invasão não se deve dar em todas as frentes? Por exemplo, na comida, cultura, nosso território, enfim?

Com a informação sendo tratada quase exclusivamente como produto pela imprensa, até a defesa do território e o conhecimento da cultura ficam comprometidos. E, se você cantar e difundir um bocado de besteiras em português, também não vai ajudar ninguém a amar esta cultura belíssima que é a brasileira.