Nascido em Catolé do Rocha, o paraibano Chico César tem 38 anos. Aos 16, foi para João Pessoa, onde se formou jornalista. Mudou para São Paulo, trabalhou em algumas publicações. Em 1995, lançou o cd Aos Vivos; depois, Cuscuz Clã, Beleza Mano, Mama Mundi e, este ano, Respeitem Meus Cabelos, Brancos. Consciente da nossa força no cenário internacional, recusa um Brasil “a reboque dos Estados Unidos”.
CHICO CÉSAR
ALMANAQUE BRASIL: Você é mais uma das vozes famosas que combate preconceitos. Como aconteceu Respeitem Meus Cabelos, Brancos?

Chico César: Fui tocar no carnaval de Recife. Jovens da periferia, negros, mulatos e pobres, dançavam Pogo, dança de punks. A polícia veio de cassetete em punho para bater. Fui para

o microfone. “Essetempo de bater em preto e pobre já passou. Vocês podem ir para casa!” Os policiais me olharam com cara de “agora vamos ver o circo pegar fogo”. Falei: “Não precisamos desse pai bravo e mal que vem nos castigar, estamos aqui para nos divertir. Agora é autogestão. Tudo que acontecer aqui é nossa responsabilidade.” O show continuou numa boa.
Um desrespeito, incompreensão do que é o outro. Preto, pobre, periferia, passa o ano vendendo bala, carregando água para madame, lavando carro, e não pode brincar três dias. Uma representação do que os negros sofriam com seus batuques no começo da nossa história.

ALMANAQUE BRASIL: Você sofreu discriminação?

Chico César: Quando adotei este corte de cabelo. Estava em Belo Horizonte, uns caras passaram de carro gritando: “O carnaval ainda não chegou!”
Quando você não respeita a forma como o outro se apresenta, é porque

que a música me dá.
Trabalhei numa loja de discos em Catolé. Vendia muita gente boa. Chico, que eu acho o maior artista musical no Brasil. Ele tem um significado grande para mim, porque fui puxado por essa geração. Gosto de coisas internacionais, música africana, mas música brasileira é meu alimento.

ALMANAQUE BRASIL: Quais as influências para sua formação?

Chico César: Ouvia música no cotidiano. A gente morava na zona rural. Passavam vaqueiros, fazendo versinhos: “A minha mãe teve três filhos, todos três interesseiros. Um deu pra tocar sanfona, outro pra bater pandeiro, e eu dei pra beijar moça, quero serviço maneiro, oh!”
Meu pai brincava reisado. Só homens. Inclusive fazendo papéis femininos. Ficava impressionado. Aqueles homens rudes da roça, com peixeira na cintura. À noite tomavam banho, passavam ruge, batom, areia brilhante, um vestidinho. Minha mãe cantava ladainhas da igreja. “Bendito e louvado

Ele falou: “Essa letra, que coisa mais maluca. É bem a sua cara.” Encontrei o Chico pela primeira vez num jogo de bola. Ele comentou: “Tem uma música sua que não sai da minha cabeça”. É Béradêro. “Pô, aquela coisa da cigana analfabeta lendo a mão de Paulo Freire. Fiquei ouvindo e vendo os olhinhos da fita rolando no gravador.” São alegrias como estaa

Entrevistadores: Ana Miadaira, Bento Huzak Andreato, Elifas Andreato, Janaina Abreu, Laura Huzak Andreato, Luiz Henrique Gurgel e Mariana Proença.

não respeita o que está dentro dele. Associando o episódio dos meninos de Recife, com o que aconteceu comigo, fiz a música Respeitem Meus Cabelos, Brancos.

Sempre tive um visual mais rural, telúrico. Senti que era hora de reivindicar um espaço urbano. O disco é cheio dessas referências. Meu visual é de um negro urbano, com roupa de homem da cidade. As músicas falam: “o céu negro com arco-íris de néon”. Mesmo Flor do Mandacaru, parceria com Carlos Rennó, que aponta para o rural, ele pede a flor para pôr em cima da televisão.

ALMANAQUE BRASIL: Uma característica das suas letras é o jeito original de brincar com as palavras, trocadilhos, ampliando os sentidos.

Chico César: Vim do Nordeste; escutei repentistas; li Zé Limeira, poeta do absurdo; João Cabral: na adolescência fiz Morte e Vida Severina em Catolé. Tenho gosto pela palavra. Lamento que, com uma língua tão rica como a nossa, o povo fale coisas como delivery. Gosto de buscar muitos significados. Uma frase pode ser bem clara e trazer um discurso por trás. Há canções que o discurso é direto e noutras tem um sentido oculto.

ALMANAQUE BRASIL: No disco tem comentário do Chico Buarque, em Antinome. Como ele reagiu com a música?

Chico César: Liguei para ele. Ele falou: “Xará, vou com você no escuro.” No estúdio, perguntei: “Gostou?”

seja / no céu a divina luz / e nós também na terra / louvemos a Santa Cruz.” Escutava o rádio do vizinho. Roberto Carlos, Gonzaga, Ray Coniff, Led Zepellin, violeiros, recados para a mãe: “Alô,

dona Maria, que mora no sítio Cá Cima de Dentro. Seu filho avisa quechega de Cajazeiras no ônibus das três da tarde.” Na loja de discos, escutava Noca do Acordeon, sanfoneiro que tocava chorinho, Pinduca e seus carimbós, Secos e Molhados. Trouxe isso para o meu trabalho. Aos dez anos cantava em um conjunto de garotos, Super Som Mirim, ou The Snakes. A única coisa que fazia barulho de verdade era a bateria, de compensado e latas. As guitarras eram de madeira e cordinhas de náilon. Eu cantava música brasileira. Arlindo, o mais velho, cantava Bee Gees, Michael Jackson. Não sei como as pessoas agüentavam a gente. Até chamavam para animar festinha. A loja também vendia livro. Eu lia muito. Com seis anos estudava em um colégio de freiras alemãs. Escola organizada, que me deu disciplina, conhecimento.
Foi com minha professora de música, Irmã Iraci, que a gente criou o Instituto Beradêro. É para ensinar música, dança, teatro, literatura para crianças e jovens.

Almanaque Brasil: Já está funcionando?

Chico César: Já tem uma orquestrinha. Tornou-se clichê que tudo tem que ter batuque, como se para as crianças da periferia só aquilo estivesse reservado. A gente quer possibilitar o acesso a essa tradição ocidental da música erudita. Pensar como uma transformação mesmo.