Almanaque Brasil
106 – Fevereiro de 2008

RUTH ROCHA

“OS LIVROS SABEM MUITAS COISAS”

Ela começou tarde a carreira. Antes de dedicar-se à escrita para crianças, foi atendente de biblioteca, orientadora educacional, colunista de revista feminina. Tinha 45 anos quando publicou o primeiro livro. E, desde então, nunca mais abandonou o ofício. Contabiliza hoje cerca de 140 títulos, entre ficções, didáticos, paradidáticos e até um dicionário. Seu livro mais famoso, Marcelo, Marmelo, Martelo – a história do menino que, cismado com o significado das palavras, resolve chamar tudo a seu modo – ultrapassou há tempos a barreira de um milhão de exemplares vendidos. Ruth se orgulha: “Não há nada mais gratificante do que ser gostada pelas crianças”. Os críticos não poupam elogios: “Suas histórias abandonam a moral dos contos antigos e trazem verdadeiras lições de vida”, diz Nelly Novaes Coelho. “Seu trabalho é um dos mais relevantes na literatura infantil no Brasil”, completa Marisa Lajolo. Fã desmesurada de Monteiro Lobato, Ruth segue em frente, publicando e trabalhando pela multiplicação das bibliotecas no Brasil. “O livro é uma das nossas mais importantes formas de expressão. Ele tem que ser valorizado pela sociedade.”

Sua vocação para a literatura vem de família?
Meu avô, um paraense, era primo do Castro Alves. Ele era um recitador, declamava poesias inteiras, sabia poemas enormes de cor. E fazia com que minha mãe e meus tios também decorassem. Ele era um grande contador de histórias, e acabou influenciando minha obra. Foi uma das coisas mais importantes da minha formação. Os críticos costumam dizer que minha narrativa tem caráter oral, e acho que aprendi muito disso com ele. Ademais, na minha família sempre houve muita conversa. Em casa, tomava-se café junto, almoçava-se junto, jantava-se junto. Meu pai vinha almoçar em casa e queria todos na mesa. Ele adorava quando a gente estava lendo alguma coisa e contava a história do livro. De vez em quando, quando não sabíamos o significado de alguma palavra, perguntávamos, e ele propunha: “Vamos ver no dicionário”. Tínhamos um Larousse pequeno, francês, e procurávamos também as histórias dos personagens. De repente, descobríamos que esse fulano ia matar o rei, antes mesmo de acabar o livro. Era uma farra. A gente gostava muito dessa brincadeira.

A presença de livros era constante?
Sim, minha mãe nos lia Monteiro Lobato desde que éramos muito pequenas. Ela ia às livrarias e comprava um livro por vez. Nada de coleção, porque, segundo ela, enjoaríamos logo. Dizia que queria criar a expectativa. Nos deixava ansiosas pelo próximo livro. E lia todinho, de cabo a rabo. Nos acostumamos muito a ouvir. Quando aprendemos a ler, começamos sozinhas. Já mocinhas, tivemos irmãos mais jovens – tenho um nove anos mais jovem do que eu, e outro, 14 anos mais moço. E nós passamos a ler para eles. Renovamos a tradição. O Lobato foi uma grande companhia da minha infância.

É impressionante como Lobato influenciou e segue influenciando gerações.
Ele me influenciou profundamente. Tem coisas que eu escrevo e penso: será que o Lobato já não escreveu isso antes? Uma vez, achei uma frase inteira do Lobato num livro meu. Escrevi o livro há muitos anos e, de repente, releio e acho uma frase dele. Era uma figura interessante, um feminista de primeira linha.

Lobato, um feminista?
Sim, como não? As heroínas dele são todas mulheres: Emília, Dona Benta, Tia Nastácia, Narizinho… A Narizinho dá de dez no Pedrinho. É mais viva, mais esperta. A Emília é a rainha de tudo – na verdade, é o próprio Lobato. Dona Benta, com toda aquela sabedoria… Tia Nastácia é a grande criadora daquele lugar, criou o Visconde. As mulheres de Lobato são figuras fantásticas. Já os homens… O Tio Barnabé, por exemplo, é um velho ignorante.

Lobato é ainda atual, ou se restringe a uma importância histórica?
É atual, porque nós adultos que lemos Lobato somos vivos. Mas as crianças não lêem mais Lobato. É uma pena. A língua se empobreceu muito. Eu e meu marido brincamos o dia inteiro de falar palavras antigas, que ninguém mais usa. Isso é uma riqueza da língua, a variedade e a quantidade de palavras. Acho que, com a televisão, com o rádio, a língua ficou mais homogênea, mais pobre.

E o que você, como escritora, faz para manter o diálogo com a criançada?
Tenho que me adaptar à língua moderna. É claro que, quando posso, contrabandeio umas coisas. Mas aí tem que explicar o significado da palavra, e livro que explica, explica, explica é chato. Eu não ponho muitas palavras sofisticadas para não precisar explicar, mas tento fazer com que as idéias sejam sofisticadas. E funciona. Não tem criança que não entenda meus livros. Elas gostam, querem ler outros. Não há nada mais gratificante do que ser gostado pelas crianças.

Como escrever para um público tão heterogêneo socialmente como o brasileiro?
Acho que escrever tem as suas limitações. Eu sou eu, essa que escreve com honestidade, com veracidade, com a minha verdade. Não tenho como reproduzir os sentimentos de uma pessoa que mora em uma favela. Eu tive contato com gente de classe social muito mais baixa do que a minha. Quando criança, morava na Vila Mariana, numa rua muito democrática. Tinha, ao mesmo tempo, gente rica, casarões grandes, e casinhas de gente muito pobre. Minha mãe sempre foi protetora de todo mundo, era a rainha dos empregados. Eles ficavam loucos por ela. No velório do meu pai, aconteceu uma coisa comovente: eu estava lá, às cinco horas da manhã, tudo vazio, quando começaram a chegar as empregadas antigas. Todas foram vê-lo às cinco da manhã porque tinham que trabalhar depois. Enfim, acho que temos que reproduzir a nossa verdade. É ela que nos permite verossimilhança. Senão, fica falso, hipócrita.

Isso não restringiu a sua obra. Há personagens de diferentes classes, não?
Sim, talvez porque tenha sido criada nessa rua tão democrática. Mas não pode ser um tema. Eu fiz um livro que gosto muito. O protagonista é o Catapimba, um menino que joga futebol muito bem. Ilustraram do jeitinho que eu queria. Aí, certa vez, encontrei uma moça angolana que me acusou de racista, porque em nenhum momento eu falava que o menino era negro. Ele só era negro nas ilustrações. Ora! Nos outros livros também não falo que determinado menino é branco… Não preciso então falar que o menino é negro. Me formei em Sociologia, criei um calo contra o preconceito. Sem falar que minha família sempre foi muito esclarecida. É uma coisa entranhada na minha obra.

Este mês, a chegada da família real portuguesa completa 200 anos. Com ela veio também nossa primeira biblioteca significativa. Você acha que nosso ingresso tardio na literatura contribuiu para os baixos índices de leitura?
Este País tem só 200 anos. O Brasil começou mesmo depois da vinda de dom João. Antes, éramos um bando de gente tratando de ganhar a vida, cada um como podia, alguns muito mal. Temos uma história curta, e temos que guardá-la bem. Além da biblioteca, veio também a primeira prensa. Até então, era proibido imprimir livro aqui… Isso colaborou para a nossa tradição oral, que é muito forte.

A leitura foi sempre uma bandeira de sua geração, não?
É verdade. Iniciamos uma literatura mais livre, mais informal. Uma literatura que acreditávamos que pudesse agradar as crianças e criar leitores. Acreditamos nisso, e tenho a esperança que, não sei quando, a gente ainda pode chegar lá. É difícil. Tem tantos fatores que atrapalham a leitura… Hoje o mundo do trabalho é muito duro. As pessoas trabalham muito para ganhar pouco. Não que não possam comprar livros, mas têm dificuldade em arranjar tempo de leitura, tempo de divagar. Outra coisa a ser vencida é nossa educação, muito ruim. As crianças chegam numa certa idade com uma bagagem para ler, mas e se depois não têm mais bagagem? O problema não é só da leitura na infância; é da leitura daí em diante.

O Estado cumpre seu dever em relação a isso?
Não, e isso é mesmo papel do Estado. O Estado fica chateando, querendo privatizar tudo. Besteira. O Estado tem que fazer aquilo que a iniciativa privada não quer, não se interessa. É isso que falta na nossa educação, que o Estado se interesse. O ministro Paulo Renato conseguiu colocar todo mundo na escola. Mas quando, em vez de 30 alunos numa classe, você põe 300, o nível do ensino cai. Precisamos agora subir o nível. E aí não sinto que fazemos muito. Desde que escrevo, vendo muito livro para o governo. Todo ano compravam quatro, cinco, seis títulos para distribuir para as crianças. Neste ano não compraram nenhum. Aí você vê os livros selecionados… É evidente que não há isenção total, que a comissão escolhe de acordo com sua vontade. Mas há que se escolher os livros considerados bons. Eu não sou a melhor, mas sou uma das boas. E acho que todos os alunos têm que ter a chance de ler um livro meu. Todos os alunos merecem ler Marcelo, Marmelo, Martelo, assim como merecem ler O Menino Maluquinho, do Ziraldo, O Gênio do Crime, do João Marinho.

Sua batalha, além da literatura, é pela formação de bibliotecas. O que você tem feito?
Acredito muito nas bibliotecas. Sou presidente de honra do Instituto Brasil Leitor. Nós temos já 17 bibliotecas com nosso selo, Ler É Preciso. Temos unidades em três estações do metrô paulistano; no Rio, na Bahia; temos uma biblioteca no Poupatempo, em São Paulo; bibliotecas instaladas em fábricas, em academia de polícia. Acredito muito em possibilitar o acesso ao livro. Quem não tem acesso ao livro, não lê. Fala-se muito que o livro é caro, o que eu concordo, mas o livro tem que ser valorizado pela sociedade para que a sociedade compre. Às vezes, um jovem que leu bastante porque a escola pediu começa a querer livros, e a família não dá.

Há muita procura nas bibliotecas do Instituto?
Você precisa ver como! A gente foi derrubando preconceitos. Dizia-se assim: “Não adianta fazer biblioteca porque vão acabar não devolvendo os livros. Não vai dar certo”. Nada disso. As pessoas retiram e devolvem os livros novinhos, bonitinhos, conservados. Os usuários respeitam os livros porque são respeitados. E mesmo que não devolvessem, seria porque estariam lendo e gostando. Que ficassem então com os livros!

Que magia é essa que os livros possuem?
Os livros sabem muitas coisas. Se você pega um livro e conta uma história para uma criança, ela vai se aproximando dos livros. Toda criança que está começando a ler vê o jornal na mão do pai e pergunta que letra é essa. Interesse há. Mas, infelizmente, esse mundo em que vivemos possui outros valores. Há uma valorização excessiva do dinheiro. Dinheiro vem com Ferrari, com anel de brilhantes, com uma casa bonita. A sabedoria não vem com nada disso. O conhecimento vem modestamente. Quanto mais a pessoa conhece, mais ela é modesta. Outra coisa fascinante do livro: você não encontra um escritor ou escritora que ganhe muito dinheiro usando anel de brilhantes. Eles podem até ser podres de ricos, mas essa ostentação dificilmente faz parte de seu universo.

Além de suas histórias, você também tem feito adaptações para crianças. Dá muito trabalho?
Adaptei Odisséia, Ilíada; adaptei aquelas óperas, O Guarani, Carmen, A Flauta Mágica, O Barbeiro de Sevilha. Adaptei muitos contos de Perrault, contos caipiras, contos folclóricos. Gosto muito de adaptar, mas é muito trabalhoso e aumenta a responsabilidade. Você vai fazer a Odisséia e fica morrendo de medo do que vão dizer, né? Fico preocupada em fazer bem-feito. Mas faço com muito prazer. Sabe o que eu queria fazer? A Origem das Espécies, do Charles Darwin. Acho uma obra linda, mas vou precisar estudar muito. Um dia ainda faço.

Como é o seu processo de criação?
Eu sou uma organizada absolutamente desorganizada. Sou organizada na minha cabeça, mas sou boêmia. Não tenho hora para nada. Faço na hora que dá. Mas, quando estou fazendo, fico tomada. Vou fazendo, faço, faço, faço até acabar. Agora, pra começar… Tenho muito trabalho com minha própria obra. Por exemplo, a Folha de S.Paulo está interessada em comprar um dos meus livros para dar de brinde no Dia das Crianças. Recebi um chamado da minha agente há uma semana, e até agora não respondi. Eles querem marcar uma reunião, dá preguiça fazer isso… Isso não é escrever, não dá prazer. É só chateação.

Você já pensou em criar em novos formatos, como jogos, CD-ROM, desenhos?
Nunca, jamais. Eu tenho site, mas é simplesinho. Eu detesto desenho animado atual. Meus netos amam, meus netos têm tudo. Eles jogam um videogame que tem ping-pong, boliche… É interessante, mas não tem muito conteúdo, né?

É possível conciliar essas modernidades tecnológicas com a leitura?
Acho que sim. Tenho dois netos pequenos, um de 10 anos, outro de 13. O de 10 lê mais, é todo oral, todo palavra. Fala, que fala difícil… É muito comunicativo, muito engraçado. O outro é mais calado, e desenha muito bem. Faz aqueles monstros da tevê, aquelas coisas horrorosas… Os dois adoram as coisas eletrônicas. Eles têm notas razoáveis, não são ótimos alunos. Mas têm hora de leitura em casa, têm disciplina. Os pais são meio linha-dura…

Você acha que o formato do livro está comprometido?
O livro é uma das mais importantes formas de expressão. A escrita é a coisa mais importante da civilização. E é fato que estamos caminhando para uma civilização mais para letrada do que para iletrada. A letra, a palavra escrita, a fala, a compreensão são o que há de mais importante na grande sociedade. Então, não acredito na falência do livro. Talvez seja inventada uma nova forma de livro. Pode ser até que inventem, mas ainda não existe forma melhor de ler do que num livro. O Ziraldo costuma dizer que ninguém pode colocar uma violeta dentro de um computador assim como pode botar num livro. O livro tem um formato que dá margem a um tipo de comunicação muito eficiente. O livro tem tantos séculos, e pode ser que ainda viva muitos anos mais. Se inventarem uma forma melhor, melhor para nós.