28 – Julho de 2001

JUCA KFOURI

BENTO: E você acredita que tem alguma coisa por trás dessa omissão?

JUCA: Não. É preguiça. E disfarçada de política editorial, postura filosófica. Aí vem: “Este relatório foi entregue hoje pelo Ministério Público…”, e a imprensa começa a se dar conta de que tem um mapa da mina ali. Se eu entrevistasse Ricardo Teixeira diria:
“Doutor Ricardo Teixeira, o senhor diz que renuncia se a CPI pegar uma irregularidade da sua gestão. É verdade que o estatuto da CBF proíbe remuneração dos dirigentes?”
“Não sei o estatuto de cor.”
“Pois está aqui.”
“Ah, sim.”
“O senhor recebe da CBF?”
“Recebo.”
“E a carta de renúncia, o senhor vai escrever agora?”
Esse cara não pode nem entregar a Taça do Brasil. É vaiado.

LUIZ: Pulando para dentro do campo, o Didi dizia em 1994 que a tabelinha no futebol acabou porque o companheirismo também já era.

JUCA: Exatamente. Não é só no futebol. Você tem exacerbada, na sociedade do mundo globalizado, a questão do individualismo. E no futebol, da mesma maneira, cada um quer para o seu lado, quer comemorar com o patrocinador dele, na placa dele. Isto acaba corroendo os mecanismos que faziam do futebol muito mais um esporte coletivo do que hoje.
Poucas áreas de atividade reproduzem tanto o que é a vida como o futebol. Nada te ensina mais a conviver com a frustração, a euforia, aprender a ganhar, a perder. Nada te põe mais em contato com o próximo, o quanto um depende do outro, e se esta dependência não se estabelece, a tendência é as coisas não darem certo. Ao mesmo tempo tem o torcedor que acredita que o resultado só aconteceu porque ele estava lá. Isso, no plano simbólico, explica a paixão do brasileiro por futebol.

ELIFAS: Nós, que acreditamos, não só nessa coisa do futebol, mas o que isso significa para o país.

JUCA: Essa história já contei mil vezes. Eu fazia Ciências Sociais em 1970. A classe toda torcia contra a seleção, só eu a favor. Eu dizia: a ditadura já me infligiu uma porrada de medos, me roubaram tanta coisa, que não vou deixar que levem meu amor pelo país, pela bandeira, minha paixão pelo futebol. Porque aí estou deixando que a ditadura me roube coisas que me são íntimas. Estamos lutando contra eles exatamente porque queremos nossa bandeira de volta.

JANAINA: Minha geração, mesmo não vivendo o que vocês viveram, se emociona. E mesmo a seleção estando horrorosa, quando ouço o hino, me emociono. Mas não sinto emoção nos jogadores. Falta amor pelo país?

JUCA: Você não viveu a ditadura, mas os resíduos dela, né? E também aqui no Brasil não se faz como na América, fazer até cueca com a bandeira do país. Aqui não pode, é crime. E lá, tocam o hino para qualquer coisa. Não é a coisa nacionalisteira boba. É o seguinte: eu e meus irmãos.

ELIFAS: É não abandonar o vínculo de brasilidade que o futebol proporciona.

JUCA: Quero deixar claro: não acredito na desclassificação do Brasil da Copa. Não sou apóstolo nem acredito no “quanto pior melhor”. Quanto pior, pior mesmo. É um sinal de maturidade que a gente precisa ter.
O importante é isso: apesar de ser tetracampeão do mundo, houve um momento de tamanha indignação na sociedade que um grupo de parlamentares se viu obrigado a fazer duas CPIs. E investigar essa gente. O que a gente não pode é achar que o resultado do futebol modifica esse estado das coisas. E olha, sou corinthiano. Durante muito tempo, na ditadura militar, o grupo viveu sob a ditadura interna de um cidadão chamado Wadih Helou, de extrema direita. Era bem relacionado com o que havia de pior, Doi-Codi. A Gaviões da Fiel aliás surgiu para derrubá-lo. O Corinthians só perdia, só perdia, só perdia, e ele não caía. Então, não é isso que faz cair. Nós é que fazemos essa gente cair.