ALMANAQUE BRASIL: Você teve formação musical?

Chico César: No colégio só flauta doce. Em João Pessoa passei por um grupo chamado Jaguaribe Carne, voltado para música experimental com mistura de música nordestina, ciranda, maracatu, música aleatória, poesia concreta e pornô. Levava sacola com livros para a rua. Cada um pegava o seu e recitava: Bandeira, Drummond, Bocage, Bráulio Tavares, Cacaso, Leminsky. Em São Paulo, na TV Cultura tinha um programa que eu amava, Café Concerto, apresentado pelo Zimbo Trio, só feras. Conheci a Meire, produtora da Cultura: “Vou batalhar para você fazer.” Fomos eu e um

Quando sua música não toca nesses lugares, não é problema seu. É problema da política da empresa. Você vai ver sempre Skank, Titãs, que são ótimos, que eu gosto, e outras coisas que gosto menos.

ALMANAQUE BRASIL: Ainda existem os “queridinhos”?

Chico César: Não sei. Por exemplo, muita gente fala mal do Caetano Veloso. Quando quer, faz uma música linda como Ciúme. Adoro quando ele pauta a mídia com essas coisas legais. Mas então fala: “A Tiazinha é uma excelente cantora.” Aí todo o mundo fala: “Ah, o Caetano Veloso falou que a Tiazinha…” Eu gostaria que meu

trabalho tivesse mais visibilidade, mas não desejaria estar o tempo inteiro na crista da onda nem tenho vocação para criar esse tipo de movimento. O Caetano, acho que é o cara mais querido e mais odiado pela mídia. Às vezes fico pensando: “Estão sendo injustos com ele.” Teve um tempo que Caetano e Gil eram deuses, depois lixo: “Vendidos!” Tem uns caras que são
assunto sempre. Outros trilham seu caminho de modo mais discreto.

ALMANAQUE BRASIL: E os famosos por nada?

Chico César: Hoje em dia você é famoso porque você é famoso. Criou-se um formato televisivo para criar famosos, show de realidade. Muito maluco isso. Mas esse mundo me atrai. Ao mesmo tempo em que me atrai entrar na biblioteca do [poeta concretista] Haroldo de Campos, me atrai a pinta na perna da Angélica.
Eu me pego lendo essas revistas e, de vez em quando, me encontro nelas: “O que estou fazendo aqui?” Sou bastante curioso. Uma das minhas características é ser como o ar, de entrar e sair. Numa entrevista pela internet o pessoal mandou: “O que você está fazendo na Ilha de Caras? O que seu irmão do Movimento dos Sem-Teto vai achar?” O dia que me chamarem para ir à ilha de Cuba, eu vou. Estou esperando o convite que ainda não pintou.

ALMANAQUE BRASIL: Como foi a história de você ser reconhecido na Europa?

Chico César: É curioso porque, com a globalização, tem umas brechas e é nisso que a música brasileira se dá bem. Hoje, conhecemos a música da África. Fui para Londres, fiquei lá 20 dias para começar a gravar. E meu produtor não conhecia o [refundador do tango] Astor Piazzola. Pensei: “Um cara que não conhece o Piazzola não pode produzir meu disco.” Fui comprar um disco para ele. Na hora de pagar, o vendedor perguntou: “Chico César? Você veio fazer concerto em Londres?” Me deu até tremedeira. Na rua muitos brasileiros me reconheciam.

ALMANAQUE BRASIL: Há um momento em que a fama disfarça o preconceito contra o negro e o pobre?

Chico César: Acinzenta. O problema é quando o negro não está muito preparado. Vem de uma realidade muito simples. Não teve educação, cultura, base ética. Para ser, introjeta valores. Tem que ter o carro do ano, andar com duas loiras. Acho que isso acontece também com o branco que vem da mesma realidade. O problema está na pessoa e no modo como a sociedade forma ou deforma o sujeito para que ele possa ser aceito naquele ambiente.
Uma vez, fui a um spa. Na piscina, ao meu lado, Antônio Carlos Magalhães. Estranhei a mim mesmo. Isso pode virar uma coisa hipócrita. Antes, não podia entrar naquele tipo de lugar e criticava tais e tais pessoas. Agora que pode, porque é famoso, diz: “Que legal, não são tão más assim.”
amigo, Fernando Pintassilgo, que toca flauta. Com a maior vergonha, mostramos a música para Amílton Godoy. “Garoto, você vai tocar, mas com uma condição. Se me deixar tocar com você.” O cara estava pedindo para tocar comigo! Ganhei uma bolsa para estudar na escola dele. Mas sempre fui intuitivo. Trazia para casa a partitura, tirava a música com dificuldade e
decorava. Deixava a partitura na frente só para enganar o professor. Minha formação é bem autodidata.

ALMANAQUE BRASIL:
Como você vê o Brasil a partir do ano que vem?

Chico César: Desde criança, ouço falar que o Brasil é o país do futuro. Queremos um país para o presente. Os caminhos no mundo são de concentração de poder econômico e político. A política dos Estados Unidos hoje é muito perigosa, opressiva. Países como o Brasil, Venezuela, Chile, Argentina ou os da África, se não se organizarem, vão ficar a reboque dos Estados Unidos. Nosso desejo de mudança, de justiça social não pode ser adiado. Ao mesmo tempo tem que manter o País respeitado internacionalmente. Há uma tendência de tentar puxar o Brasil para baixo. “Isso aqui vai virar uma Colômbia.” Não vai virar, não pode virar uma Colômbia! O Brasil é maior que isso. Tem recursos naturais, recursos humanos, quadros dirigentes. Do ponto de vista social, os últimos dez anos foram um desastre. Cada vez mais pessoas estão em situação que nega a humanidade.

ALMANAQUE BRASIL: Qual o papel do artista Chico César?

Chico César: Como cidadão me coloco igual a todos. Juntar-me a outras pessoas, discutir, questionar. Como artista, sempre que posso, colaboro. Apoio movimentos, como o movimento por moradias. Eu o considero um dos mais importantes movimentos que temos hoje e que de certa forma substitui o papel que tinham os sindicatos, no começo dos anos 1980. Acho que o MST [Movimento dos Sem-Terra] é um novo momento. Nós, que vivemos na cidade e que não somos do MST, precisamos ter uma compreensão.
Até para tentar compreender, vou lá, faço shows. Gravei com eles videoclipe de uma canção de amor: Pensar em Você. Praticamente não passou em lugar nenhum. Pensei: Vai passar na MTV e o cara que mora em casa vai ver pessoas que não têm nem casa. Não temos mais censura como antes, mas existe falta de ousadia, restrições que se criam dentro das empresas de comunicação.

ALMANAQUE BRASIL: Como você lida com isso?

Chico César: Sou um artista diferenciado da maioria das coisas que a MTV veicula, por exemplo. Se for pensar “vamos trabalhar para ter clipe na MTV, ou para a música tocar na rádio Mix”, você enlouquece.