SÓCRATES BRASILEIRO SAMPAIO DE SOUZA VIEIRA DE OLIVEIRA


A camisa como instrumento de educação cívica (1982)

ALMANAQUE: Uma das características mais elogiadas de seu futebol é a frieza. Você teve que trabalhar isso?

Sou uma pessoa absolutamente emocional. Sou apaixonado pela vida. Se jogasse isso no trabalho, estaria perdido: reagiria de acordo com o público e não de acordo com aquilo que deveria fazer. Criei uma relação muito própria com o público. Racionalizava tudo e tentava explorar o potencial dele de participar no resultado. Procurava fazer com que o público fortalecesse meu time e diminuísse o do adversário. A partida entre Corinthians e Palmeiras, pela semifinal do Campeonato Paulista de 1983, é um exemplo. Duas grandes torcidas, um cara realizando uma função que, aqui no Brasil, é subvalorizada – a marcação individual. Usando esse "argumento cultural", aproveitei um momento de bola parada e corri em direção à lateral onde estava a torcida do Corinthians. O marcador veio atrás. Era o que eu queria. Saí de campo e ele ficou olhando da linha lateral. Então abri os braços para a torcida – o coloquei no meio do palco. Desse jeito, não atingi só o jogador, mas o time inteiro, a torcida.

ALMANAQUE: Você fez gol nesse jogo?

Cinco minutos depois que substituíram meu marcador, que era o Márcio. A situação ficou tão constrangedora que ele nem conseguia ficar mais perto de mim.

ALMANAQUE: Você jogou na Copa de 1982 e de 1986. Qual foi a pior derrota?

Derrota nunca é ruim. Pelo contrário, é o momento em que aprendemos mais. Mas tem que se aproveitar isso. Vale como experiência de vida, como conhecimento, maturidade. É muito maior do que qualquer resultado de jogo.

ALMANAQUE: Mas em qual Copa você depositava mais expectativa?

Na de 1982. O time era melhor. Estava montado havia muito tempo. Um time fantástico, incomparável. Em 1986 tínhamos muitos problemas.

ALMANAQUE: Na história do futebol brasileiro, é raro o atleta excepcional que pensa, toma partido, tem opinião. Você assumiu compromissos e bandeiras. Queria que você falasse sobre a Democracia Corinthiana.

Foi uma coisa simples. Mas tudo o que é simples também tem uma força descomunal. Durante a Democracia Corinthiana, tudo era decidido pela maioria. Respeitando as particularidades de cada função, todos tinham o mesmo poder. Mas, de simples, a Democracia Corinthiana se transformou em algo extraordinário, em função do que o País vivia. Quem não viveu aquela época talvez não tenha consciência do quanto o movimento foi importante. Pregávamos o voto, a democracia, em um País em plena ditadura. Havia um povo ignorante, cerceado em sua liberdade, que passou a discutir o processo conosco.

ALMANAQUE: Como surgiu a idéia de usar a camisa como instrumento político?

Naquela época foi aprovada a legislação que permite propaganda nas camisas. Em vez de propaganda comercial, fizemos a nossa, política. Toda ação política tem que ser corajosa. Principalmente quando se está brigando por uma coisa que requer mobilização. A Democracia Corinthiana foi o momento mais lindo da vida de todos nós.

ALMANAQUE: Você já era filiado ao PT?

Não, só me filiei depois que encerrei a carreira, em 1993. Sempre achei que ação política tinha que ser apartidária. Tínhamos que juntar forças para tentar mudar o País. Estar juntos. Se lutasse por um partido especificamente, enfraqueceria o processo.

ALMANAQUE: Você acredita que o futebol é meio para realizar mudanças?

Nada é mais popular que o futebol neste País. Se pudéssemos por meio dele discutir todas as nossas questões, os resultados seriam encontrados mais facilmente. O problema é que quem controla o sistema não quer discutir publicamente. Se por meio do futebol se passasse conhecimento, esse povão vinha atrás, porque de futebol ele entende. Não é à toa que o presidente Lula usa as metáforas do futebol.

ALMANAQUE: Qual a sua maior preocupação em relação ao esporte hoje?

Uma das minhas lutas é mudar a legislação quanto à formação do jogador. Hoje ela só exige alfabetização e, na verdade, a maioria nem é alfabetizada. Deveria exigir-se que o jogador completasse o ensino médio. O futebol é a atividade profissional mais sonhada nesse País, principalmente para os menos privilegiados. Se o ídolo deles, um Ronaldinho, nunca estudou, para que ele vai estudar?

ALMANAQUE: Qual a sua expectativa em relação ao governo Lula?

Excepcional. O governo está muito bem. Estamos preparando o País para um passo que deveria ter sido dado há pelo menos 50 anos. Não existia governo nesse País. Considero o Lula o primeiro presidente do Brasil, o cara que vai governar esse Brasil. Os outros passaram por lá e as coisas continuaram do mesmo jeito. Fernando Henrique deve estar com inveja. O Lula é um personagem mundial, não só por sua história, mas pelo que está provocando.