27 – Junho de 2001

"Lei não combate a breguice"
Pasquale Cipro Neto

Estive no Peru uma vez, entrei na loja de uma índia em Cuzco, o rádio estava ligado e eu não entendia nada. Perguntei: “Rádio quíchua?” E ela disse “sim!”, com orgulho. Quer dizer: esse povo guarda sua identidade. E a língua é um traço disso. Não é por decreto, nem lei. Soberania é uma coisa que se constrói lentamente, que é sentida, e eu não vejo isso no Brasil, vejo o sapo que se entrega docemente à cobra, fascinado pela luz.

A globalização é mais velha do que a gente supõe. Não é fenômeno neoliberal. Gregos e latinos já trocavam figurinhas. Por que a gente tem em português milhões de palavras gregas? Roma já praticava uma globalização. É justamente por isso que o projeto do Aldo é meio esquisito. Anda na contramão da história. Aí alguém vai dizer que sou a favor dessa porcaria que está aí. Não sou. Ser contrário à lei dele não significa ser a favor desse nojo que está aí. Eu tenho nojo. Você já andou na Barra da Tijuca? Aquilo é a babaquice. É a breguice. Lei não combate a breguice.

Já disse ao deputado que não acredito na lei, pois parte de pressuposto errado. Língua não é coisa fechada, ninguém tem a chave, a dizer: “Chega! Quem entrou, entrou, quem não entrou não entra mais.” O chauffeur ninguém mais usa, a palavra fica enquanto é moda, depois vai embora. É provável que aconteça isso com termos ingleses desnecessários. Os necessários certamente vão ficar.

Algumas expressões têm tradução até melhor. Play-off, por exemplo: existe “melhor de três”, “de cinco”, “de sete”. Não precisamos do play-off, termo chato, bobo. Sou partidário da esculhambação da babaquice, do ridículo. Ridículo é colocar nome em inglês que só complica.

"Desconfio dos que dizem que a língua não se defende com lei"
Aldo Rebelo

O deputado respondeu a nossas questões via "e-mail". Publicamos os principais trechos de suas respostas.

Um eleitor compara a Lei Rebelo à lei que proíbe a indústria poluidora de instalar-se à beira de mananciais. É válida a comparação?

Em certo sentido, sim. As pessoas não usam o idioma apenas para falar ou escrever, mas pensam, sonham e imaginam em sua língua. Como a água ou o ar, a língua não pode ser submetida a caprichos ou “leis do mercado”. Um articulista chegou a invocar o economista austríaco Von Hayek, pai da teoria neoliberal, para combater meu projeto. O acesso ao idioma, assim como a um ambiente saudável, faz parte da luta pelo bem-estar material e espiritual da população.

O que significa a língua para você?

Ela é o mais importante bem imaterial dos cidadãos brasileiros. Mas também é um direito inscrito no Artigo 13 da Constituição. Aliás, temo que algum neoliberal da língua tente retirar da Constituição esse direito.

Uma crítica à sua lei: a invasão de termos americanos não se barra com leis, mas com o país realmente independente. O que você acha?

Desconfio dos que dizem que a língua não se defende com lei. Na verdade essas pessoas gostariam que ela não fosse defendida em nenhuma hipótese.

Já que a onda é tão forte, não seria melhor irmos nela e assimilarmos palavras, em vez de nos “estressarmos” tentando barrá-las?

Nem sempre a tradução é o melhor caminho. Depois da privatização das telecomunicações, o brasileiríssimo interurbano foi substituído por discagem direta a distância, tradução da expressão correspondente em inglês. Muitas vezes, o mais natural é encontrar no próprio vernáculo a palavra apropriada ou criar o neologismo para preencher a necessidade do empréstimo. Estamos vivendo a era da globalização das línguas, com a substituição dos idiomas nacionais por uma espécie de língua-dólar baseada no inglês. O idioma, como a arma moderna, o míssil, a bomba inteligente, é um instrumento de conquista. Os consultores norte-americanos consideram o inglês um verdadeiro ativo estratégico capaz de ampliar as fronteiras do comércio e da indústria cultural dos Estados Unidos. Nesses tempos de uniformização autoritária e empobrecedora de padrões culturais e de consumo, preservar o idioma é uma forma de preservar a própria identidade.

LEI REBELO ACEITA PIZZA E JEANS

Projeto do deputado federal Aldo Rebelo (PCdoB-SP) proíbe “o uso de expressões estrangeiras no trabalho, nas relações jurídicas, na expressão oral, escrita, audiovisual e eletrônica oficial, em eventos públicos, na mídia, na produção, no consumo e na publicidade de produtos e serviços”. De acordo com a justificativa do deputado, a língua portuguesa estaria ameaçada de se desfigurar graças à imposição crescente do inglês americano. O projeto admite palavras ou expressões já registradas pelo Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, como pizza, jeans, slide e termos da informática.

DE LAMARTINE A BALEIRO 7 DÉCADAS DE MISTURA
Nossos artistas sempre brincaram com a influência estrangeira

CANÇÃO PARA INGLÊS VER
Lamartine Babo – 1932

“Elixir de inhame
Reclame de andaime
Mon Paris, je t’aime
Sorvete de creme…
My girl good night
Oi!
Yes, my glass
Salada de alface.
Flytox my till
Standard Oil…
Forget not me
Oi!”

 

SAMBA DO APPROACH
Zeca Baleiro – 1999

“Fica ligada no link
que eu vou confessar my love
depois do décimo drink
só um bom e velho engov
eu tirei o meu green card
e fui pra Miami Beach
posso não ser
pop star
mas já sou um
nouveau riche”