106 – Fevereiro de 2008

PAU-BRASIL
Caesalpinia echinata Lam.

A ÁRVORE QUE NOS BATIZOU

Por Mylton Severiano

Os índios chamavam de ibira pitanga, pau vermelho; os portugueses, de pau-brasil, também por causa de seu pigmento “cor de brasa” – “brasil”. A Árvore Nacional trazia dentro de si a própria perdição. Sua riqueza interior quase a levou ao desaparecimento.

Na primeira vez que vi um pau-brasil, já estava com 43 anos, e não foi em seu habitat, a Mata Atlântica, mas no Jardim Botânico do Rio. Na plaquinha, o nome científico: Caesalpinia echinata Lam. A abreviação vem do sobrenome do naturalista francês que o classificou, Jean Baptiste Lamarck (1744-1829).
Ali se erguia a bem copada árvore de seus 12 metros, que pode atingir até 30 metros. As miúdas folhas verde-brilhantes nascem agrupadas. As flores emanam delicado perfume; têm quatro pétalas amarelo-ouro e, do meio delas, sobressai-se uma diferente, vermelho-púrpura, chamada vexilo (estandarte). O fruto, uma vagem, libera sementes em forma de elipses de até um centímetro e meio de diâmetro. Tronco espinhento (em latim, echinata significa “com espinhos”). Casca pardorosada, ou pardo-acinzentada, como o exemplar de cinco anos que tenho no quintal, em Florianópolis. Um bebê – o pau-brasil leva 100 anos só para chegar à idade adulta.
Não longe de casa, descobri outro raro exemplar, no pátio da Escola da Lagoa, na Lagoa da Conceição. Tem 10 anos, a idade da escola. É ao pé dele, fiquei sabendo, que as crianças cantam o Hino Nacional.
O meu, plantei quando tinha meio palmo. Hoje, aos três metros e meio, não sei se sua altura corresponde à idade, mas acho que se sente em casa aqui no sul da ilha, região de Mata Atlântica. Essa floresta, que os europeus chamaram Paraíso na Terra, reinou intocada do litoral potiguar ao gaúcho, até chegar a frota de Cabral. Então começou a devastação.
Em nossos dias, teme-se ainda pelo pau-brasil. Cada vez que vejo uma coisa dessas, me vem à memória Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim (brasileiro até no nome). Disse ele que “o Brasil é um país de ponta-cabeça”. Tom Jobim tinha razão. Veja só: o nome do nosso torrão vem de uma árvore em risco de extinção! Se você quiser abraçar um pau-brasil, vai ter de procurar num jardim botânico ou num viveiro. Em seu habitat, vai ser difícil.

A BELEZA FOI SUA PERDIÇÃO

O pau-brasil contém brasileína – pigmento de um vermelho intenso, bom para tingir tecidos e produzir tinta para escrever e pintar. Nas cortes européias, a cor vermelha, difícil de obter, representava luxo e poder. Estava na roupa da nobreza, nos palácios, nas pinturas da renascença. Portugueses e outros europeus lotavam suas caravelas com pau-brasil. Trocavam com os índios por apitos, chocalhos, pentes, espelhos, roupas, facões, canivetes. Os índios ainda ajudavam a carregar as caravelas. Logo os europeus dão um jeito de retirar madeira com mais velocidade: fornecem também machados e serras. Na próxima vinda, o estoque já estará pronto.
Historiadores calculam os europeus que levaram 70 milhões de árvores. Quinhentas por dia, em média, durante quase quatro séculos. O pau-brasil, primeira riqueza que encontraram nestas plagas, trazia dentro de si sua própria perdição: o cerne vermelho-brasa. Em 1928, era considerado extinto, quando dois biólogos descobriram um exemplar no interior pernambucano, onde fica hoje a Estação Ecológica da Tapacurá, da Universidade Federal Rural de Pernambuco. Pelo menos lá tinha sobrado um “pra remédio”.

NÃO O DEIXE DESAPARECER

É incrível. A árvore que nos deu seu nome, só cinco séculos depois do batismo foi declarada Árvore Nacional. A lei 6.607, de 7 de dezembro de 1978, também obriga o Ministério da Agricultura a implantar viveiros.
O Jardim Botânico de São Paulo, no ano seguinte, plantou logo um bosque. A espécie sobrevive graças a grupos e instituições ambientalistas. Em 1988, o professor pernambucano Roldão de Siqueira Fontes criou a Fundação Nacional do Pau-Brasil, ou Funbrasil. Seu sonho: dar oportunidade aos brasileiros de ver, ao menos uma vez na vida, um pé da árvore que deu nome ao País. Até pouco antes de falecer, em 1996, já havia espalhado quase 3 milhões de mudas Brasil afora. E você? Já plantou seu pau-brasil?

PAU-BRASIL NELES

Dois anos depois da Semana de Arte Moderna de 1922, marco da nossa história, o mais rebelde de seus promotores, Oswald de Andrade, publica o Manifesto da Poesia Pau Brasil. Um verdadeiro grito de independência. Copiávamos modelos europeus, como hoje tantos copiam modelos norte- mericanos. Tal como na metáfora de Oswald – ao conclamar- nos a assumir nossa “formação étnica rica” -, que a salvação da Árvore Nacional reafirme o orgulho de ser brasileiro; e que seja a nossa “uma cultura de exportação”. Chega de ingresia. Viva toda expressão brasil.

SAIBA MAIS
Pau-Brasil, de Oswald de Andrade (Globo, 2003).
Portal de evento realizado no Sesc Interlagos, em São Paulo: www.sescsp.org.br/sesc/hotsites/paubrasil

Mylton Severiano é jornalista.