108 – Abril de 2008

PINHEIRO-DO-PAR ANÁ
Araucaria angustifolia

Longa vida à soberana

Por Mylton Severiano

Natural do sul do continente americano, a araucária, também conhecida pelo sinônimo botânico Araucaria brasiliensis, chegou a ser declarada em extinção. Hoje, a tendência é o manejo sustentável para perpetuar essa árvore majestosa. Só falta bom senso.

Dinossauros se deliciavam com suas folhas e suas sementes, os pinhões. Ela tratou de se adaptar, para sobreviver: esticou o caule até os 50 metros, altura de um prédio de 16 andares – a ramagem lá no topo, virada para cima, lembrando um candelabro. Foram-se os dinos 60 milhões de anos atrás. E ela aí continua, há 200 milhões de anos, uma das árvores mais antigas do planeta. Viu outras espécies, tanto animais como vegetais, surgir e desaparecer. Atravessou sã e salva as glaciações, pois, mesmo coberta de neve, ela não morre. Ainda que não fosse pela majestosa presença, pela madeira, pelo nutritivo pinhão, nós, com nosso mísero 1 milhão de anos de existência, deveríamos prestar reverência à araucária. De crescimento lento, essa conífera vive até 700 anos. Mas já aos 15 pode dar pinha e nos abastecer, a cada estação, de 250 quilos de pinhões. Ela nasceu, segundo os indígenas, do amor entre Curiaçu e Guaraci, jovens de tribos inimigas. Curiaçu leva uma fl echada quando carrega Guaraci nos braços, depois de salvá-la do ataque de uma onça. Ele morre antes que ela se refaça e o socorra. Tupã, comovido, transforma Curiaçu na araucária e Guaraci, na gralha-azul, que semeia pinhões pela fl oresta, perpetuando o amor. Note que, em tupi-guarani, Curiaçu signifi ca pinheiro grande (kuri + açu); e Guaraci, Sol, mãe dos viventes. Mas não é a gralha-azul que enterra os pinhões para comer depois, levando-os a germinar. Ela deixa cair alguns enquanto os carrega para “casa”, nos ocos das árvores. A prática de enterrar é da cutia, principal responsável pelo nascimento de novas araucárias. Meu amigo Paulo Ramos Derengoski, autor de Visão Poética da Natureza, herdeiro de um pinheiral em Lages, planalto catarinense, conta que, “quando os bandeirantes chegaram ao Sul, viram tudo cober to pela gigante f loresta de bilhões de araucárias”. Três séculos depois restaria menos de 5%. Primeiro foram os colonos que usaram a madeira branca, “resistente, nem dura nem mole, fácil de pregar”. E eis que, no meio do século 20, Juscelino resolve erguer uma nova capital. Vem ao Sul, conhece a araucária. Derengoski resume: “Na construção de Brasília, praticamente toda a madeira é araucária. Juscelino gostou. Os paulistas também. E a devastação se alastrou.” Ele me apresenta seu amigo Schneider, que nos dá mais informações.

“A lei é burra”

O engenheiro florestal Nilton Schneider de Souza, 63 anos, “nosso maior especialista em araucária”, desenvolve projetos em Lages, onde tem 50 mil mudas à venda a 80 centavos. Resumo de nossa conversa: A araucária nos acompanha do berço até o momento em que desencarnamos. Sou favorável a que, ao cortar uma árvore, se plantem 10, e em outra área. O manejo florestal sustentável é a única forma de preservar. Traz renda, benefício pra todos. Embaixo da araucária se forma um sub-bosque, sassafrás, canela-preta, imbuia, xaxim, mais a bicharada, insetos. Ela alimenta nossa Festa do Pinhão, que atrai 300 mil pessoas. E tem fazendeiro destruindo essa espécie fantástica. Mantêm empregados só para cortar os brotinhos. Se ele cortar a araucária crescida, pode ir preso. Criou-se um desamor à espécie. A lei é burra – só proíbem, e não buscam soluções. O homem veio à terra para trabalhar, desenvolver, aperfeiçoar. Somos favoráveis a preservar, e pode ficar mais bonito ainda se houver a presença do homem. Só falta vontade política.

Os índios adoravam

Schneider de Souza acha que “deveriam ter pensado melhor” antes de trazer do Hemisfério Norte pinheiros exóticos como o Pinus elliottii, que atingem ponto de corte mais cedo (18 anos, contra 35 da araucária). “O grave é que plantaram em matas ciliares. E nem são alimentícios. Só ratos e alguns pássaros usam a semente.” Eles proliferaram e, agora, “temos que conviver”. Investiram tecnologia no Pinus e esqueceram a araucária. “E ela produz alimento: o pinhão, protéico e gostoso. Nossos índios adoravam.”

Festa da bicharada

Março. Uma alegria sem igual se espalha nos pinheirais. É gralha-azul, pomba-rola, perdiz, anta, capivara, paca, serelepe, tatu, ouriço, veado, preá, queixada, miríades de insetos. Bandos de papagaios chegam a escurecer o céu, ávidos pelas amêndoas. A cutia, boa de ouvido, não perde um ruído de pinha caindo. Agosto. Os bugios são os últimos a sair da festa: as pinhas da variedade indehiscens amadurecem. Mas estas não se abrem nem caem. Só eles, com garras e dentes, regalam-se com o pinhão de macaco.

SAIBA MAIS Nilton Schneider de Souza: (49) 3222-4136

Mylton Severiano é jornalista.