103 – Novembro de 2007

SERINGUEIRA
Hevea brasiliensis

BENDITA BORRACHA

Por Mylton Severiano

 

Esta é filha da Amazônia brasileira. A humanidade devia render homenagens à seringueira. Ela fornece uma goma que, por sua importância, figura ao lado do aço e do petróleo. E ainda protege a flora, a fauna e os mananciais.

 

Não existe, no atual estágio da civilização, atividade em que não entre a matéria-prima extraída dessa árvore amazônica. Elástica, f lexível. Amoldável. Resistente ao atrito, à corrosão. Impermeável. Isolante de eletricidade. Aderente a tecidos e metais. Por tantas propriedades juntas, ela serve a uma infinidade de usos. Imagine o que seria da aviação sem a borracha. Imagine o maior cargueiro do mundo, o avião russo Antonov, seis turbinas, 84 metros. Seiscentas toneladas: 100 elefantes. Não há pneu que segure o impacto de um gigante desses ao bater no chão e frear, se não for de pura goma, 100% Hevea brasiliensis. Em 1853, a navegação a vapor chega à Amazônia e marca o início do Ciclo da Borracha. A cultura indígena leva um choque de "civilização européia". Chegam empresários, aventureiros. Repete-se a clássica cena de barões a acender charutos em notas de valor, enquanto os seringueiros morrem de avitaminose, doenças; e índios são exterminados. Manaus e Belém figuram entre as cidades mais prósperas do mundo. Manaus ergue o Teatro Amazonas, cópia da Ópera de Paris. A ferrovia Madeira-Mamoré, construída para escoar a borracha, entra para a história com laivos de tragédia: custou 30 milhões de dólares e milhares de vidas. Foi inaugurada em 1912, mas aí o Ciclo da Borracha declinava. O inglês Henry Wickham, 30 anos antes, tinha levado sementes de seringueira para a Inglaterra e, de lá, elas seguiram para colônias da Ásia. O Brasil deixou de ser o rei do ouro branco. De donos do mercado caímos a importadores. O Ciclo da Borracha vive mais um round na Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Falta látex. Vargas cria o Batalhão da Borracha. Campanha financiada por americanos arregimenta nordestinos, que vão para a Amazônia com promessas de fartura e reconhecimento como heróis. Mas a "batalha da borracha’ dizima 30 mil nordestinos, de fome, doenças, ataques de animais. Agora a heveicultura se espalha. A ecológica seringueira fixa carbono, combatendo o efeito estufa. Conserva o solo. Produz látex por 30 anos. E ainda por cima gera empregos: 11 mil só em São Paulo, com cerca de 40 mil hectares plantados. A semente produz óleo para tintas, sabões e resinas. E da flor, as abelhas produzem mel. Abençoada seringueira.

 

HISTÓRIA PARA CONTAR

O LÁTEX NA VIDA DE MANU

 

 

 

A primeira coisa que lhe tocou o corpinho foi a enluvada mão do obstetra. Ganhou chupetas. Do seio da mãe foi para o bico da mamadeira. Balões coloriram suas festas. Teve bonecas, bolas, bicicletas. Lápis e borracha na escola. Gostava do Edu, da bota de chuva amarela. Reencontraram-se anos depois num hospital. Ela com o contagotas dosando a medicação da avó, ele controlando o tubo de soro no braço do tio. Ao sair para a primeira noite de amor, a mãe a lembrou: " Leva camisinha, filha".

 

LINHA ELÁSTICA DO TEMPO

 

 

 

• Antes de 1500 – Restos de artefatos mostram que amazônidas coletavam látex e o secavam no fogo.

• Século 16 – Religiosos portugueses mencionam o uso entre indígenas amazônicos.

• 1768 – O francês Fresnau fabrica botas de borracha para o rei prussiano Frederico, o Grande.

• 1770 – O químico inglês Priestley inventa a borracha de apagar lápis.

• 1823 – O escocês McIntosh cria a roupa a prova d’água, pondo uma camada de borracha entre dois tecidos. O inglês Hancock inventa o elástico.

• 1839-1842 – O americano Goodyear e Hancock descobrem a técnica, à base de enxofre e calor, que torna a borracha mais resistente: a vulcanização.

• 1846 – Hancock fabrica pneus sólidos para a carruagem da rainha Vitória.

• 1877 – Ingleses levam sementes de seringueira para a Ásia.

• 1888 – O escocês Dunlop inventa o pneumático (com câmara de ar).

• Século 20 – Graças principalmente ao pneu, entramos na era do automóvel e do avião.

 

CHICO MENDES

OS SERINGUEIROS TÊM UM MÁRTIR

 

 

 

O acreano Chico Mendes decidiu ir à luta ao se deparar com a devastação das motosserras e queimadas. Fundou o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri. Em 1970, cria os empates: seringueiros, pescadores, índios, camponeses, com mulheres e filhos, dão-se as mãos para impedir que peões derrubem as árvores. Em 1988, é assassinado. Respeitado e premiado internacionalmente pelo trabalho em defesa dos índios e da floresta, foi, no dizer do educador Darcy Ribeiro, "o único a indicar como fazer a Amazônia habitável e rendosa".

 

SAIBA MAIS

Seringal, de Miguel Jeronymo Ferrante (Globo, 2007).

Chico Mendes – Crime e castigo, de Zuenir Ventura (Companhia das Letras, 2003).

História do Brasil Volume 1, Amazônia, de Ernani Silva Bruno (Cultrix, 1967).

Associação Paulista de Produtores e Beneficiadores de Borracha: www.apabor.org.br.

 

Mylton Severiano é jornalista.